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Depois da polícia, é a vez da invasão de serviços na Rocinha

O prefeito do Rio se reunirá na quarta-feira com todo o seu secretariado com o objetivo de traçar um planejamento para as favelas tomadas pelas forças de segurança. No mesmo dia, serão iniciados alguns serviços

Por Cecília Ritto 15 nov 2011, 17h36

Desde último domingo o domínio sobre a Rocinha, o Vidigal e a Chácara do Céu passou para as mãos do estado. Essa nova situação implica ir além da ocupação policial, aumentando a oferta de serviços públicos às favelas. Passados três dias da presença ostensiva das forças de segurança, é chegada a hora de entrar com as melhorias pedidas pela população, como coleta de lixo. Nesta quarta-feira, o prefeito Eduardo Paes se reunirá pela manhã com os seus secretários para definir a atuação de cada pasta. No mesmo dia também começará uma ação intensa da secretaria municipal de Conservação para cuidar da iluminação, da manutenção das ruas, da drenagem e da limpeza urbana, uma das principais reclamações dos moradores.

A secretaria de Conservação lançará mão de 300 homens para esses serviços, sendo que pelo menos 150 serão deslocados apenas para a retirada de lixo. Os detritos são, na opinião do secretário de Conservação, Carlos Roberto Osório, o principal desafio. A Rocinha produz, por dia, cem toneladas de lixo. O caminhão da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) passa duas vezes por dia pela Rocinha. Ainda assim está longe de dar conta da limpeza, porque em 80% das casas o acesso só é possível a pé.

“Nossa prioridade é a coleta de lixo. A Rocinha é o nosso maior desafio em termos de logística e operação de lixo por ter sido construída de forma desordenada, em áreas íngremes e de adensamento muito grande, superior a qualquer outra favela”, explica Osório. O acesso dos veículos da Comlurb será repensado pela secretaria. Osório estuda nova alternativa, como aumentar o número de garis e o uso de equipamentos menores, que possam passar por vias estreitas. Uma das novidades será a a escolha de locais fixos para a colocação do lixo pelos moradores. Esses locais concentradores ficarão próximos às áreas inacessíveis pelos veículos da Comlurb. Atualmente, o lixo é despejado em qualquer lugar da favela.

Tráfico – Nem lixeira há no morro. O motivo é simples: “Com o tráfico, colocávamos a lixeira e em dois ou três dias elas sumiam”, explica Osório. Com a enorme produção de lixo e com a falta de espaço nas casas para o acondicionamento, a rua se torna a lixeira. Por isso serão combinados com os moradores os locais para a instalação de bases estratégicas de depósito de detritos, que depois serão recolhidos pela empresa de limpeza urbana.

A secretaria de Conservação traçou um planejamento anterior à ocupação das três favelas pela polícia. O alerta da prefeitura de que a Rocinha, o Vidigal e a Chácara do Céu estavam prestes a serem retomados pelo estado possibilitou uma preparação das diferentes áreas de gestão. A reunião de quarta vai definir a estratégia conjunta da prefeitura que há tempos ficou sem poder planejar uma ação efetiva para aquele morro encravado entre os bairros nobres de São Conrado, Gávea e Leblon.

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Uma nova cidade – “O Rio recebeu uma nova cidade bastante grande, de 100 mil habitantes, que demanda serviços. Junto com o prefeito, vamos ordenar o atendimento a essa necessidade”, diz Osório. Assuntos como contenção de encosta, ordenamento urbano, saúde e educação estarão na pauta do encontro. A falta de higiene somada ao aglomerado de casas torna a Rocinha um centro de doenças, sobretudo de tuberculose. Na esfera da educação, a escolaridade ainda é muito baixa comparada com o resto do município. A secretaria de Transportes também se fará presente no novo território do estado através de agentes de tráfego que atuarãor na Estrada da Gávea, antes dominada por traficantes.

Os desafios de cada secretaria são variados. É o resultado de cerca de 40 anos do poder do tráfico, que fechou a favela para os serviços públicos. A nova área que chega às mãos do estado tem carências históricas. Incluí-la, agora, na formalidade dos bairros de seu entorno e ofertar os mesmos serviços existentes no asfalto é uma forma de aproximar os moradores da nova gestão na favela. E uma forma de consertar um erro do próprio estado, que negligenciou por décadas o combate ao tráfico.

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