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Davi Alcolumbre faz escada para o irmão Josiel

O presidente do Congresso aproveita o protagonismo do cargo para promover o parente, que pretende disputar as eleições municipais no ano que vem

Na última terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro fez questão de entregar pessoalmente ao comandante do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-­AP), o pacote de reforma fiscal do governo. A deferência não foi à toa. Senador de primeiro mandato, Alcolumbre terá papel decisivo para o sucesso dessa agenda prioritária do Planalto. Pelo cargo que ocupa, poderá acelerar ou retardar a tramitação, cabalar votos contra ou a favor das propostas. Publicamente, o pacote será a principal missão de Alcolumbre nos próximos meses. Nos bastidores, no entanto, o senador se dedica a uma tarefa paralela — esta de interesse meramente pessoal: catapultar politicamente seu irmão e suplente José Samuel Alcolumbre. Conhecido como Josiel, ele quer disputar a prefeitura de Macapá em 2020. Sua eventual vitória no pleito pode pavimentar o caminho para outro projeto político da família: a eleição do próprio Davi Alcolumbre para o governo do Amapá.

NO AMAPÁ – Ao lado do irmão Davi: acompanhando uma visita oficial do presidente do STF, Dias Toffoli, ao estado

NO AMAPÁ – Ao lado do irmão Davi: acompanhando uma visita oficial do presidente do STF, Dias Toffoli, ao estado (//Reprodução)

Até aqui, os Alcolumbre atuam em perfeita sintonia. Apesar de não ter mandato, Josiel vem participando de agendas oficiais com representantes dos três poderes, sempre levado pelo irmão Davi. Ele já esteve com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, com o vice-­presidente Hamilton Mourão e, vez por outra, é visto dentro do plenário do Senado. A presença de Josiel nesses encontros é devidamente fotografada e divulgada em suas redes sociais. A ideia é clara: vender a imagem de alguém com prestígio e acesso privilegiado ao poder, o que costuma ser um grande ativo em disputas eleitorais. Em dobradinha com o irmão, Josiel também transita com desenvoltura no berço eleitoral da família. No início de outubro, por exemplo, compareceu a uma cerimônia para receber computadores comprados para modernizar salas de vacinação de hospitais públicos de Macapá. Os produtos foram pagos com emendas parlamentares apresentadas por Davi Alcolumbre, que também prestigiou o evento. Ou seja: o presidente do Senado, na condição de Zero Um, abriu espaço para que seu irmão suplente, o Zero Dois, capitalizasse o feito. E Josiel comemorou o fato falando em nome dos “Alcolumbre”.

NO PLENÁRIO – Suplente: frequentador do plenário como se fosse ele o titular

NO PLENÁRIO – Suplente: frequentador do plenário como se fosse ele o titular (//Reprodução)

A movimentação da família desperta reações dos adversários políticos. O ex-governador Camilo Capiberibe (PSB), cujo pai, João, deve se candidatar a prefeito de Macapá, resume a situação da seguinte forma: “É como disputar uma eleição municipal contra a máquina pública que sustenta a República”. As queixas não intimidam Josiel. “Eu tenho legitimidade para trabalhar pelo meu estado. Fui eleito com os mesmos votos do Davi. A minha foto também estava na urna”, disse ele a VEJA. “Tem é de perguntar aos outros suplentes o porquê de eles não trabalharem.” Não é difícil imaginar a resposta. Pelo que se sabe, nenhum outro suplente é irmão do chefe do Poder Legislativo, que abre portas em Brasília e é paparicado até mesmo pelo presidente da República.

Publicado em VEJA de 13 de novembro de 2019, edição nº 2660