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Carta ao Leitor: Fecham-se as cortinas

Relatório final da CPI da Pandemia é devastador para a imagem do governo como um todo — e para Jair Bolsonaro em particular

Por Da Redação Atualizado em 22 out 2021, 09h39 - Publicado em 22 out 2021, 06h00

Durante seis meses, em horas e horas de transmissão, o Brasil acompanhou com enorme atenção os depoimentos e os embates acalorados entre os parlamentares na CPI da Pandemia. Indignados, os oposicionistas estavam empenhados em provar que milhares de mortes provocadas pela Covid-19 poderiam ter sido evitadas, caso o governo não tivesse se recusado a seguir os protocolos e demorado tanto a implementar o processo de vacinação dos brasileiros. Temerosos do desgaste, os governistas tentavam mostrar que tudo que estava ao alcance do Ministério da Saúde e do Planalto havia sido realizado, incluindo o repasse de centenas de bilhões de reais para estados e municípios. De fato, a CPI foi um espetáculo que transformou alguns senadores desconhecidos em celebridades instantâneas, resgatou a imagem de outros que pareciam condenados ao ostracismo e serviu de eficiente palanque eleitoral para a grande maioria. Por se tratar de instrumento político, é compreensível e até natural que seja assim. Mas há o momento em que a racionalidade precisa prevalecer e as diatribes, postas em seus devidos lugares.

Na quarta-feira 20, o senador Renan Calheiros apresentou finalmente o relatório com as conclusões da investigação. O documento é devastador para a imagem do governo como um todo — e para Jair Bolsonaro em particular. O presidente é acusado de nove crimes, entre eles charlatanismo, fraude de documentos e epidemia com mortes. Para que todo o trabalho feito não se perca por pirotecnia e oportunismos, é recomendável que a encenação política dê agora lugar à realidade e os fatos ocupem o lugar das teorias. Em 1 180 páginas, o relator enumerou uma teia de ações e omissões do governo, listando uma série de decisões equivocadas, exemplos de incompetência, suspeitas de corrupção e inúmeras situações que ressaltam o negacionismo e a pregação oficial contra as medidas de prevenção à doença. São acusações sérias e precisam ser investigadas. Nada disso, no entanto, permite concluir que o governo estivesse empenhado numa campanha de extermínio em massa ou, como queria o relator inicialmente, num “genocídio”.

Felizmente, alguns sinais de sensatez surgiram antes da apresentação do relatório final. Convencido pelos colegas, Calheiros suprimiu alguns trechos do documento, que ainda terá de ser validado pelo plenário da comissão. Numa decisão acertada, o crime de “genocídio” foi excluído pelo relator das acusações contra o presidente. Afinal de contas, os exageros motivados por conveniências políticas acabam tendo efeito contrário, ao fragilizar a credibilidade do relatório e comprometer todo o árduo trabalho dos senadores. Com a finalização da CPI, a questão é o que acontece a partir de agora. Esse é o tema da reportagem da editora assistente Laryssa Borges, da sucursal de Brasília, que começa na página 30. Depois de uma apuração minuciosa ouvindo senadores, procuradores, servidores públicos, ministros do governo e do STF, a jornalista analisa os prováveis desdobramentos das acusações contra o presidente e revela histórias pouco glamorosas que se passaram nos bastidores da CPI. Bem longe dos holofotes, são relatos impressionantes, que envolvem juras de vingança, ameaças a testemunhas, acertos de contas e até espionagem. Boa leitura.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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