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Câmara suspende mandato de deputado envolvido com Cachoeira

Carlos Alberto Leréia ficará afastado por 90 dias e não receberá salários

Por Laryssa Borges 23 abr 2014, 20h44

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira, por 353 votos a favor e 26 contra, a suspensão do mandato parlamentar do tucano Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) por 90 dias. A penalidade foi sugerida em parecer do Conselho de Ética e leva em conta o fato de o congressista manter laços de amizade com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Essa é a primeira vez que, em um processo de quebra de decoro, é imposta uma sanção alternativa, e não a perda do mandato eletivo.

Com a suspensão do mandato de Leréia, serão interrompidos os pagamentos de salários e verbas indenizatórias e o funcionamento do gabinete do tucano será paralisado. Assim que a decisão do plenário foi anunciada, o deputado pediu licença por mais 40 dias, o que obriga a Câmara a convocar o suplente Valdivino José de Oliveira (PSDB-GO).

Na votação do caso de Leréia, mais do que a situação do tucano em si, o PT deu sinais claros da estratégia que deve adotar em relação ao paranaense André Vargas. Ao contrário de todos os demais partidos, que defenderam a suspensão do mandato, a sigla liberou a bancada de parlamentares, autorizando que cada um votasse como quisesse. A ideia é tentar comparar as relações entre Leréia e Cachoeira com o recente caso envolvendo Vargas e o doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato. Com a confirmação de que é possível estabelecer uma pena alternativa a deputados que respondem a processo de quebra de decoro, parlamentares do PT aliados de Vargas vão pressionar que o Conselho de Ética também sugira, na pior das hipóteses, a suspensão do mandato do petista, e não necessariamente sua cassação. Com essa tese, Vargas não renunciaria ao cargo eletivo e tampouco perderia o foro privilegiado.

O caso – Em setembro do ano passado, o Conselho de Ética rejeitou relatório que pedia a cassação do mandato de Leréia. Na ocasião, o deputado Sérgio Brito (PSC-BA) redigiu o texto com a proposta alternativa de suspensão do mandato e afirmou ser “censurável a estreita relação de amizade existente entre o deputado e Carlinhos Cachoeira, o qual era notadamente conhecido no Estado de Goiás por envolvimento com jogo ilegal”.

Nas investigações da Polícia Federal sobre as relações políticas e comerciais de Cachoeira, os investigadores flagraram 72 contatos telefônicos entre o bicheiro e Leréia, muitos feitos por meio de radiocomunicadores habilitados nos Estados Unidos e distribuídos a pessoas da estrita confiança do bicheiro. O nome do deputado também é citado em outras 26 ligações entre integrantes da quadrilha. As conversas revelam que Cachoeira pagou pelo menos 65.000 reais a Leréia ao longo de seis meses no ano passado. Há menção ainda a um cheque de 206.000 reais e a um empréstimo de 400.000 reais para o deputado.

Antes de ter o mandato suspenso, Leréia ocupou a tribuna para se defender. Em seu discurso, criticou o fato de ter tido conversas telefônicas monitoradas e confirmou ser amigo de Carlinhos Cachoeira. “Jamais menti sobre essa relação. Não menti sobre essa amizade que tenho antes de ser deputado. É bom lembrar que Carlinhos Cachoeira em Goiás é detentor de um patrimônio grande, dono de laboratório, e não de refino de cocaína, mas de medicamento genérico. Não era uma pessoa do submundo. Foi detentor de concessão da loteria do Estado e pagava religiosamente os impostos”, afirmou. “Carlinhos era e é meu amigo. Ele tem lá seus problemas, mas são de responsabilidade dele”, disse.

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