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Barbiere: “Emendas nos mantêm reféns do Executivo”

Deputado estadual que denunciou esquema de venda de emendas parlamentares desafia secretários a negar que os avisou do caso em reunião

Por Adriana Caitano - 6 out 2011, 19h33

O deputado estadual Roque Barbiere reafirmou ter alertado integrantes do governo do estado sobre o esquema de venda de emendas parlamentares na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Em carta enviada ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, ele disse estar triste com as declarações do governo desmentindo as reuniões feitas entre o parlamentar, o secretário do Planejamento e Desenvolvimento Regional, Emanuel Fernandes, e a subsecretária de Assuntos Parlamentares, Rosmary Corrêa. “Duvido que, na minha presença, os dois neguem a conversa que tivemos”, desafiou. O governo divulgou nota oficial negando a ocorrência das reuniões e que tenha tomado conhecimento das denúncias.

Barbiere anexou ao documento um ofício que, segundo ele, foi enviado em dezembro de 2010 ao secretário da Casa Civil, Luiz Antonio Guimarães Marrey. No documento, ele pede informações sobre emendas liberadas a entidades civis e sindicatos. “Eles nunca responderam meu requerimento. Pode ser que tenham esquecido. O que não podem é tentar me fazer passar por mentiroso”, reclamou. “Por que o governo nega meu aviso com tanta veemência, se eu não os acusei ainda de fazer nada errado?”

O parlamentar voltou a dizer também que não irá dar nomes dos colegas que venderam emendas. “Não sou dedo-duro. Não citei nomes nem vou citá-los. Não cabe a mim julgá-los ou investigá-los, pois, assim como eu, foram eleitos pela população”, comentou.

Roque Barbiere comparou-se à Corregedora Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, que, recentemente, disse que há “bandidos que se escondem atrás da toga”: “Quando as emendas surgiram, em 2005, achei bom, mas, com o passar do tempo percebi que nos fazem mal e alguns poucos utilizam adequadamente. Será que os ilustres membros deste conselho imaginaram que eu quis denegrir todos os deputados? Não foi isso que eu quis dizer. A grande maioria dos deputados é gente boa. Será que Eliana Calmon quis dizer que os juízes são todos ladrões ao afirmar que alguns bandidos se escondem atrás da toga? Lógico que não. Assim como eu, ela estava defendendo seus colegas.”

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Camelódromo – No documento lido em plenário, Barbiere recuou diante da afirmação feita em coletiva à imprensa na terça-feira. Na entrevista, o deputado comparou a venda das emendas ao trabalho de camelôs.

Na carta, ele tentou se justificar. “Um repórter me perguntou como elas eram vendidas e eu disse não saber, porque não o fazia. Como ele insistiu, disse-lhe para imaginar que quem vendesse as emendas não faria propaganda, atuando como um camelô, sei lá”, explicou. “Com as manchetes dos jornais, pareceu que eu teria dito que todo mundo agia como camelô. Isso não é verdade.”

No documento, Barbiere destaca querer o fim das emendas parlamentares. “Elas nos mantêm reféns do Executivo, o que é ruim para ambos e pior para nós”, disse. E dá exemplos de como, no caso de elas não serem extintas, podem ser mais transparentes: que a proposta de cada uma seja enviado para o governo via liderança dos partidos, pelo Conselho de Ética ou pela Mesa Diretora.

Convidado a comparecer ao conselho nesta quinta, o deputado ausentou-se para cuidar da filha que nasceu prematura. Declarou que não dará mais entrevistas à imprensa sobre o assunto e vai permanecer recluso por causa da filha. “Algo vindo do céu soluça por mim vindo de Araçatuba (SP). Pois sinto uma vontade enorme de partir. Assim que minha filhinha tiver alta, retornarei”, finalizou.

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Convite – Mais cedo, na mesma sessão, o integrantes do Conselho de Ética aprovaram por unanimidade o convite ao secretário estadual de Meio Ambiente e deputado licenciado, Bruno Covas (PSDB), e ao deputado estadual Major Olímpio (PDT) para prestar depoimento na casa.

Em entrevista à imprensa, o tucano afirmou ter recebido oferta de 5.000 reais de um prefeito do interior em troca de uma emenda parlamentar. Já o pedetista comentou publicamente que sabia algo sobre o esquema de venda das emendas. Ainda não há data marcada para as audiências. Se preferirem, os dois poderão enviar suas justificativas por escrito, como fez Barbiere. Caso os parlamentares do conselho não aceitem as justificativas do deputado, ele poderá ser convocado a prestar esclarecimentos pessoalmente.

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