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À vontade, Donadon ‘brinca’ na Câmara

Deputado condenado por peculato chega à Casa de camburão, queixa-se aos colegas por ser um preso comum, pede uma comida melhor na cadeia e agradece a Deus (?) pela manutenção do mandato

Por Gabriel Castro, de Brasília - 29 ago 2013, 01h00

Natan Donadon (sem partido – RO) esteve tão à vontade na Câmara dos Deputados que, enquanto aguardava o fim do prazo da votação, que durou mais de três horas, pediu a palavra para dar um recado em nome de seus colegas de prisão: “A comida lá é muito ruim”.

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Donadon, que teve autorização judicial para comparecer à Câmara, chegou à Casa de camburão, algemado – e escondido da imprensa. No dia em que completava dois meses de encarceramento no presídio da Papuda, ele adentrou o plenário de terno, usando o broche de deputado, como qualquer outro detentor de mandato. Foi cumprimentado por alguns colegas. Entre eles, Sérgio Morais (PTB-RS), aquele que certa vez disse estar “se lixando” para a opinião pública, e Eduardo Cunha (RJ), líder do PMDB. Mas a dupla mais próxima ao presidiário era formada por Nilton Capixaba (PTB-RO) e Marcos Rogério (PDT-RO).

Pouco antes do anúncio do resultado final, Rogério dizia a Donadon que o resultado deveria ser favorável ao colega. A avaliação do grupo era que a menção aos sofrimentos do cárcere comoveu muitos parlamentares. Em seu discurso de defesa, Donadon tentou apelar à emoção: com voz mansa, contou os sofrimentos que padece na cadeia. Revelou que a água – fria – do banho acabou quando ele estava ensaboado, preparando-se para ir à sessão da Câmara. O deputado teve, então, de pedir que um colega de cela cedesse algumas garrafas de água que armazenava.

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“No presídio sou tratado como um preso qualquer, um preso comum. É muito difícil para mim estar passando por essa situação”, queixou-se Donadon. “Eu saí de lá para vir aqui porque eu vim para dizer a verdade. Senão eu não viria”, completou o deputado presidiário.

Sentença – O deputado foi condenado por integrar uma quadrilha que desviou oito milhões de reais da Assembleia Legislativa de Rondônia por meio de contratos de publicidade. O STF concluiu que o parlamentar ordenou pagamentos por serviços que nunca foram prestados.

“Nunca fiz nada de ilícito. Nunca desviei um centavo da Assembleia Legislativa do estado de Rondônia. Os pagamentos que eu fiz lá na assembleia, tinha comissão de recebimento de serviços que atesava as notas fiscais”, afirmou. “Eu não seria louco para assinar pagamentos sem documentos”. O plenário recebeu com frieza os argumentos do deputado, que sempre foi um coadjuvante.

O processo de cassação do ex-peemedebista, aberto somente depois que o parlamentar foi encarcerado, não passou pelo Conselho de Ética: por ordem da Mesa Diretora, o caso passou apenas pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que aprovou um parecer do relator Sérgio Zveiter (PSD-RJ) pela cassação. “A sociedade tem o direito de receber uma resposta da Câmara dos Deputados”, disse o relator, nesta quarta, ao apresentar seus argumentos em plenário.

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Em 2010, Donadon chegou a renunciar ao mandato para tentar atrasar seu julgamento. Sem foro privilegiado, ele acreditou que o caso voltaria à primeira instância, em vez de ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Nessa quarta-feira, ele queixou-se de que a manobra foi infrutífera: “Se (o processo) voltasse para Rondônia, talvez, ou quase com certeza, eu seria absolvido”, disse o cínico Donadon.

Evangélico, o parlamentar demonstrou nervosismo apenas nos segundos antes do anúncio do resultado. “Meu Deus do céu. Meu Pai, tem misericórdia de mim”, disse ele. Após o resultado, ele se ajoelhou e apontou para o céu. O deputado-presidiário deveria agradecer a quem de direito: os deputados que, por ação ou omissão, produziram a mais vergonhosa decisão do Congresso na história recente.

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