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A Petrobras resistirá à tormenta

A empresa enfrenta um golpe triplo: o uso e abuso político na manipulação de preços, os desvios do petrolão e a desvalorização do petróleo. Seu potencial produtivo, porém, permanece promissor

Por Marcelo Sakate 19 dez 2014, 00h00

A Petrobras é um colosso. Ainda assim, sente as avarias causadas pelo mar revolto. A empresa lida com uma tempestade perfeita. As suas ações não valiam tão pouco desde 2004, depois de terem caído para abaixo de 10 reais na semana passada. No auge, em 2008, cada papel chegou a valer mais de 55 reais. Para os milhares de investidores da empresa, a grande dúvida é: até quanto as ações podem cair? Ou, pior, estaria a estatal condenada a um destino semelhante ao do conglomerado X, de Eike Batista, cujas ações viraram pó? As preocupações se justificam. Não existe sinal no horizonte, neste momento, de que a tormenta se dissipará em breve.

A despeito do prejuízo bilionário de dimensões ainda desconhecidas e da perda de credibilidade com o escândalo de corrupção, a estatal não só vai sobreviver como continuará a crescer nos próximos anos, graças em boa parte às reservas já conhecidas da camada do pré-sal. A legítima preocupação de alguns investidores com o futuro da Petrobras, especialmente desconfiados da indústria de petróleo e gás natural depois da quebra da OGX, de Eike Batista, não resiste à análise dos números e das informações disponíveis. A empresa possui uma operação gigantesca de exploração, produção e venda de petróleo e derivados que não foi abalada. Ela é uma das quinze maiores companhias do mundo no setor, com uma produção média equivalente a 2,4 milhões de barris de petróleo e gás natural nos nove primeiros meses deste ano, comparável ao desempenho da francesa Total. A OGX nunca cumpriu as promessas do empresário, está agora em processo de recuperação judicial e produz meros 16 000 barris diários. Em ativos, a Petrobras é a quinta maior do setor no mundo, de acordo com levantamento da revista Forbes, com um valor estimado em 320 bilhões de dólares. Isso significa que, em uma situação de dificuldade extrema, ela poderá vender propriedades, como refinarias, ou o direito de exploração de reservas caso precise levantar recursos. Outra opção será colocar no mercado ações de subsidiárias. A maior delas é a BR Distribuidora, dona de metade do mercado brasileiro de venda de combustíveis no atacado.

Apesar de operar com fluxo de caixa negativo há oito anos, a Petrobras ainda dispunha de 62 bilhões de reais nos cofres em setembro. É um montante suficiente para honrar os 33 bilhões de reais em dívidas que vencem até o fim do próximo ano, ainda que não para bancar também todo o investimento previsto no período (e daí a importância de a empresa divulgar o seu balanço quanto antes, para que possa voltar a tomar dinheiro no mercado, mesmo que a um custo mais elevado). Mais importante é a sua capacidade de pagar a dívida por meio da geração de caixa com a sua atividade operacional: mantidos os números atuais, ela precisaria de três anos e meio para pagar todos os seus compromissos. Trata-se de uma relação acima da que é considerada saudável por analistas, mas que não denota uma situação fora de controle. Além disso, e reconhecendo o cenário de aumento das dificuldades, a estatal decidiu adotar uma série de medidas para reforçar o seu fôlego financeiro no próximo ano: vai reduzir os investimentos, antecipar o recebimento a que tem direito em algumas operações e manter ou aumentar o preço de produtos. A previsão é que a estratégia faça a empresa voltar a ter fluxo de caixa positivo no ano que vem. Em última instância, a Petrobras conta com o respaldo financeiro do governo, que é o seu principal acionista (ainda que isso não exima a ambos da obrigatoriedade de prestar contas aos brasileiros).

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