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A luta de Alcolumbre para emplacar o irmão Josiel na prefeitura de Macapá

O presidente do Senado põe todas as fichas na campanha dentro do plano para dominar a política do estado

Por Edoardo Ghirotto Atualizado em 9 out 2020, 10h23 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Um centro de reabilitação fisioterápica na periferia de Macapá foi a escolha da campanha de Josiel Alcolumbre para gravar uma das peças de propaganda que deverão ocupar os mais de quatro minutos do tempo de que ele dispõe no horário eleitoral. Na tarde da última terça-feira, 6, entre uma interrupção e outra provocada por crianças, motos e pela poeira que o vento levanta na região mal asfaltada, Josiel exaltava a obra inaugurada pelo atual prefeito, que é também seu cabo ­eleitoral nas eleições de novembro. A legislação não permitiu a gravação nas dependências do posto de atendimento. Lá, os funcionários reclamavam que o forro da entrada do prédio, entregue em 2018, cedeu diversas vezes por causa das chuvas, assim como as calhas no fundo da instalação, que romperam com a força das tempestades e inundaram as salas do local. Para efeitos de propaganda política, no entanto, o que parece importar mais é o exemplo de obra entregue em uma cidade que até pouco tempo atrás não estava acostumada a receber investimentos federais. Um cenário que mudou drasticamente desde que Davi Alcolumbre, irmão de Josiel, ascendeu à presidência do Senado. Agora, Davi divide-se em duas batalhas: luta por sua reeleição no Congresso e aposta todas as suas fichas na vitória de Josiel, passo essencial no plano dos Alcolumbre para dominar a política do Amapá.

Para um político que chegou longe mesmo depois de passar boa parte da carreira no ostracismo, a pretensão hoje não soa absurda. Davi tinha pouca envergadura nacional quando derrotou Renan Calheiros (MDB-AL) na eleição para chefiar o Congresso em fevereiro de 2019. Desde então, o senador galgou posições e se firmou como um político habilidoso, capaz de frear atropelos do governo federal, ao mesmo tempo que mantinha um canal de comunicação aberto com o Planalto. Politicamente, Davi já tem respaldo para seguir no cargo, mas depende do aval do STF para disputar a presidência do Senado mais uma vez. A ação que discute a constitucionalidade da reeleição às presidências das Casas Legislativas aguarda julgamento desde que o relator, Gilmar Mendes, a enviou em agosto para análise do plenário da Corte.

Enquanto espera uma decisão, Davi projeta planos maiores para o futuro e que passam, necessariamente, pelo Amapá, o seu reduto eleitoral. A eleição de Josiel à prefeitura de Macapá é parte de um projeto que desembocará em 2022 na candidatura do atual prefeito, Clécio Luis (sem partido), ao governo do estado e na reeleição de Davi. A costura política começou já em 2018, quando Josiel passou a procurar presidentes de partidos para formar um arco de alianças que se sustentaria até o pleito municipal. A ideia inicial era que o senador fosse candidato, mas a inesperada ida para a presidência do Congresso abriu caminho ao irmão, que atuava como seu estrategista político desde a época em que Davi era deputado do baixo clero. “Já ouvi muitos políticos reclamando que nosso trabalho era desleal, porque sempre atuamos em conjunto nos mandatos”, diz Josiel, que ostenta na parede de seu escritório o diploma de suplente na chapa vencida por Davi em 2014.

MAIS UMA VEZ - João Capiberibe: tentativa de voltar à prefeitura aos 73 anos – Reprodução/Facebook

As sondagens eleitorais no Amapá mostram que uma coisa é atuar nos bastidores, outra é encabeçar uma chapa sem nenhuma experiência prévia em disputa para cargos executivos. Mesmo com todo o apoio do irmão e alianças importantes, Josiel ainda demonstra timidez no corpo a corpo da campanha e vai precisar suar bastante para garantir uma vaga no segundo turno. Pesquisas internas dos candidatos mostram que ele e a dentista Patrícia Ferraz, do Podemos, estão embolados no segundo lugar, variando entre 9 e 13 pontos porcentuais. Todos os levantamentos são liderados pelo ex-senador João Capiberibe (PSB), que governou a cidade no início dos anos 90 e soma cerca de 27%. Uma marca suficiente para colocá-lo no segundo turno. “Já enfrentamos o Sarney e o Lula aqui. Estamos acostumados com a nacionalização das eleições no estado”, diz Capi, que está com 73 anos e ganhou o apoio do senador Randolfe Rodrigues (Rede).

Assim como em tantos lugares do país, a eleição em Macapá será uma prévia para 2022. Rodrigues tem a pretensão de concorrer ao governo do estado, o que o colocaria numa disputa diante de Clécio, que era seu amigo de infância e foi um aliado durante toda a sua trajetória política. Os dois romperam em agosto deste ano, quando o prefeito encampou a candidatura de Josiel e pediu a desfiliação da Rede. Hoje, Clécio coordena a formulação do plano de governo de Alcolumbre. “Foi um senso de oportunidade para o presente e para o futuro”, afirma o prefeito.

A oportunidade, no caso, está ligada à atuação de Davi em Brasília para destravar repasses de verbas federais para o Amapá. Clécio aproveitou os últimos dois anos para promover diversas obras em Macapá. Sua missão ao sair da prefeitura será administrar o capital político a ponto de se apresentar como um candidato competitivo daqui a dois anos. Na campanha de Josiel, a estratégia é dizer que a eleição do irmão de Davi será a única forma de manter a continuidade dos investimentos vindos de Brasília. Além do bom relacionamento com o Planalto, o presidente do Senado se transformou num influenciador para a maioria da bancada amapaense no Congresso. Por isso, apoios de lideranças dos doze partidos que formam a coalizão de Josiel serão apresentados aos eleitores de forma ordenada, a fim de transmitir a ideia de que existe um crescimento gradual ao longo da disputa. Em uma inversão da história bíblica, Davi virou o gigante a ser batido na busca pela hegemonia da política amapaense.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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