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“Quero virar a página”, diz novo presidente da CBF

Ednaldo Rodrigues sabe que tem pela frente um duplo imenso desafio: melhorar a imagem da entidade e fazer o torcedor voltar a se apaixonar pela seleção

Por Fábio Altman Atualizado em 9 Maio 2022, 11h41 - Publicado em 6 Maio 2022, 06h00
FOTO- LUCAS FIGUEIREDO-EDNALDO-RODRIGUES
Lucas Figueiredo/CBF

O baiano Ednaldo Rodrigues foi um bom lateral-esquerdo na infância e adolescência. Disputava as “babas”, como são chamadas as peladas de futebol na Bahia, com afinco. Aos 16 anos, estreou como jogador do União Atlético Clube, de Vitória da Conquista. Era bom de bola e bom de papo, de família respeitada. Os pais de Gilberto Gil foram padrinhos de seu primeiro casamento. Certo dia, foi convocado por seus pares a negociar a participação da equipe numa das ligas do interior. Começava, ali, a carreira de dirigente esportivo, com apenas 24 anos. Formado em ciências contábeis, presidiu a Federação Baiana de Futebol durante dezoito anos, de 2001 a 2018. No início de março, foi eleito presidente da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, como sucessor de Rogério Caboclo, afastado depois de denúncias de assédio sexual. Ele assume a CBF em um de seus infindáveis momentos de crise de imagem, atrelados a desmandos que parecem não ter fim, e em ano de Copa. Terá trabalho pela frente para limpar as gavetas da confederação e fazer o torcedor brasileiro voltar a se apaixonar por aquela que já foi a melhor seleção do mundo e que há vinte anos não ergue a taça. Rodrigues concedeu a VEJA sua primeira grande entrevista desde a posse.

O senhor acha possível melhorar a imagem da CBF, envolta em sucessivos escândalos? Realmente, a CBF não tem uma imagem boa. E não apenas aqui no Brasil, mas fora também, mundialmente. Quero virar essa página, e não se trata apenas da minha vontade. Quero envolver as federações, os clubes, a imprensa, toda a sociedade. Dando opiniões, falando o que for preciso, mas cobrando também. A CBF, daqui para a frente, precisa ser acompanhada com mais seriedade. Sei que é difícil, por que não basta querer. Credibilidade não se impõe, leva tempo para ser adquirida. Mas vamos trabalhar de forma incansável. O futebol é uma das grandes marcas do Brasil, e me parece inaceitável sermos malvistos, especialmente fora do país.

É ruim assim? Tive o testemunho claro do presidente da Fifa, o Gianni Infantino, com quem me reuni durante o Mundial de Clubes em Abu Dhabi, em fevereiro. Eu ainda estava como presidente interino da CBF. Numa das nossas conversas, ele revelou que estava acompanhando os problemas da CBF, se mostrou preocupado com o envolvimento da Justiça comum nas decisões da entidade, o que vai contra o estatuto da Fifa, mas se propôs a nos ajudar. Ele disse assim: “Dentro de campo, o Brasil é ainda muito respeitado, mas fora, não”. E então o Infantini pôs a mão no nariz, como quem sente um cheiro muito ruim, e balançou o rosto. Entendi o recado — e é o que me leva a ter ainda mais vontade de mudar as coisas na CBF.

O que pode ser feito já? Uma das minhas ideias, e já a levei para a assembleia da CBF, formada por todas as 27 federações e que se reunirá em maio: quero vender o avião (um Cessna 680 Citation Sovereign , 2009) e o helicóptero. Conseguiremos algo em torno de 60 milhões de reais com o negócio. Depois, haveria uma economia de mais de 13 milhões de reais por ano. Eu mesmo nunca usei o helicóptero, nem mesmo o vi. Com o avião, sim, já fiz algumas viagens nele — mas podemos todos ir e vir em voos de carreira, não podemos?

“O presidente da Fifa se propôs a nos ajudar, mas pôs a mão no nariz, como quem sente um cheiro muito ruim. Entendi o recado. É o que me leva a ter ainda mais vontade de mexer nas coisas”

E o que fazer com esse dinheiro economizado? Investir na iluminação e gramados em estádios precários. Aplicar no futebol feminino. Precisamos encontrar outros caminhos de conseguir capitalizar a CBF, para além das maneiras tradicionais, por meio dos direitos de transmissão dos jogos.

Quais maneiras? Há duas semanas solicitei à Fifa e à Conmebol parte dos mais de 200 milhões de dólares devolvidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos relativos ao montante recuperado depois do escândalo de corrupção, o Fifagate, em 2015. Imagino que poderíamos ter algo em torno de 60% desse total, referente ao tamanho das receitas do futebol brasileiro na América do Sul.

Por que a CBF teria direito a esse valor? A entidade foi vítima desse esquema de corrupção. Houve danos à nossa reputação e fuga de anunciantes, além do caixa esvaziado.

E o que leva o senhor a crer que o pedido será atendido? Por ser justo, e porque algumas confederações de outros países já receberam restituição. Além do mais, a CBF tem se aproximado da Fifa, em permanente parceria. Há um simbolismo nessa história, como uma parábola: o dinheiro que saiu ilegalmente agora vai entrar legalmente.

Não há risco de, uma vez mais, ser mal utilizado, ser desviado? Não, pode acreditar. Será tudo atrelado a projetos específicos e com acompanhamento rigoroso e transparente.

As ligas são o futuro do futebol, como já acontece em boa parte dos países europeus? É um mito achar que as ligas vão proteger apenas os clubes de elite do futebol brasileiro. Os pequenos também serão beneficiados. Basta ver o modelo que tem funcionado no Nordeste. Se as ligas funcionam, todo mundo sairá ganhando — sobretudo os clubes que não estão em nenhuma das quatro grandes séries, a A, B, C e D. Há espaço para ligas.

Elas podem tirar o poder da CBF? Ora, os clubes estando bem, a CBF também estará bem. O poder não me deslumbra. Sou uma pessoa simples. A CBF não é a Presidência da República, não é um ministério. Aquela cadeira na qual me sento hoje é transitória. Já falei para os dirigentes dos clubes: a CBF vai ajudar na constituição das ligas. Nos próximos meses faremos inclusive um seminário com a ajuda da Fifa para encaminhar a formação dessas entidades.

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O modelo clássico do futebol como negócio, com a exibição dos jogos por apenas algumas emissoras, especialmente a Globo, em quase monopólio, vive uma revolução. A pulverização no streaming é um bom caminho? Sim. A concorrência faz bem, sempre. É bom para tudo e, portanto, para o futebol. A televisão aberta é a principal fonte de receitas, sem dúvida — mas qual o problema de criar outros canais, com novas ofertas na imensidão da internet? As pessoas querem ver futebol do modo que for mais cômodo. Nos estádios também é possível melhorar muito, como se faz na NBA, com grandes espetáculos.

Por falar em espetáculo: por que o VAR é tão ruim no Brasil? Fizemos a implantação do VAR em menos de um ano, um espaço de tempo muito curto. Faço um mea-culpa. Faltou padronização, um pouco mais de treinamento. A demora das decisões dos juízes é ruim. Em breve, será tudo mais rápido, e foi por isso que houve mudanças na comissão de arbitragem.

O VAR é definitivo? É. Ele corrige situações, ainda que demore três, quatro minutos, e precisamos melhorar, insisto. Mas reduzir as chances de erro de arbitragem tem resultado inclusive econômico para os clubes.

A seleção não ganha uma Copa desde 2002. De lá para cá, o torcedor se afastou. Por que a canarinho não apaixona mais? A seleção é muito querida por onde passa, em qualquer parte do mundo. Houve esse afastamento em decorrência de imposições contratuais. Precisamos jogar mais no Brasil e faremos isso. A seleção precisa estar mais próxima do país. A paixão precisa ser resgatada. Assumi no dia 23 de março. No dia seguinte, fizemos um jogo contra o Chile com mais de 70 000 pessoas no Maracanã. O torcedor brasileiro pode voltar, sim. Os atletas gostam de jogar no Brasil.

A camisa amarela, que já não encanta dentro de campo, virou símbolo político. Precisava ser assim? A camisa amarela da seleção brasileira, a nossa canarinho, é a mais reputada do futebol, no mundo todo. Ela pode ser usada por qualquer pessoa, não importa qual seja a posição ideológica, esta ou aquela postura política. Usa quem quer, quem gosta.

O treinador Tite já mostrou ser um profissional de posturas firmes ao lidar com as autoridades — não esconde, inclusive, o incômodo em ter Jair Bolsonaro perto da seleção. Ele está certo? O Tite tem as suas ideias, os atletas também têm, os dirigentes têm, eu tenho. Cada um sabe sua zona de conforto. Eu só posso respeitá-la.

Tite fica? Só pela imprensa li que ele não ficaria, que sairia depois da Copa do Mundo no Catar. Não estou sabendo de nada. Nunca ouvi do Tite, mesmo na interinidade, qualquer informação dele a respeito de ficar ou sair. Mas tenho as portas abertas para conversar com ele, quando quiser.

“A camisa amarela pode ser usada por qualquer pessoa, não importa qual seja a posição ideológica, esta ou aquela postura política. Usa quem quer, quem gosta”

Guardiola foi convidado? Não. Ele dispensa qualquer tipo de apresentação, vencedor como jogador e técnico, mas que eu saiba ninguém foi chamá-­lo para treinar a seleção.

O tenista Novak Djokovic se recusou a tomar a vacina contra a Covid-19 e foi afastado de torneios do Grand Slam. Jogador de futebol precisa estar vacinado? A CBF respeita os protocolos sanitários. Mais de 100 médicos nos acompanham nas decisões. No Brasil, só joga atleta vacinado.

O senhor tomou a vacina? As três doses. E logo mais tomo a quarta.

O futebol como reflexo da sociedade tem vivido episódios revoltantes de racismo — recentemente, um torcedor do Boca Juniors foi preso em São Paulo depois de imitar um macaco, em referência a jogadores do Corinthians. Como lidar com essa praga? O racismo está em todos os lugares. Somente com campanhas, educação e punição, como ocorreu em São Paulo, com ao menos a multa paga pelo torcedor argentino, embora pequena, é que poderemos reverter esse drama. A pior violência do futebol é o racismo — muito mais do que uma pancada que pode ser tratada com remédio. Talvez não tenha cura para quem não consiga lidar com aquela dor. Eu posso falar de racismo. Quando era jovem, qualquer pessoa da minha cor era discriminada — a sociedade só funcionaria para pessoas de outra cor, mas não negros ou pardos. No registro oficial sou pardo, mas adoto com orgulho a cor negra. E sou nordestino. Tenho orgulho de ser de Vitória da Conquista, na Bahia, onde tudo começou.

Como evitar que escândalos como o do ex-presidente Rogério Caboclo, afastado por assédio sexual, se repitam ? Há regras muito claras de conduta. Zelaremos por elas apoiados no Comitê de Ética da CBF. Todo tipo de assédio, sexual ou moral, será rechaçado. É inaceitável.

Publicado em VEJA de 11 de maio de 2022, edição nº 2788

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