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“Precisamos ser livres”, diz escritor cubano Leonardo Padura

Um dos mais importantes autores da atualidade fala da guerra pela sobrevivência em seu país e do histórico levante contra um regime que não se aguenta de pé

Por Ricardo Ferraz Atualizado em 10 dez 2021, 16h14 - Publicado em 10 dez 2021, 06h00
LEONARDO PADURA
LEONARDO PADURA – Ulf Andersen/Aurimages/AFP

Como muitas crianças cubanas, o sonho de Leonardo Padura, 66 anos, era ser jogador de beisebol. Aí um vizinho o presenteou com um exemplar da Ilíada, que o empurrou para a escrita, para o jornalismo e, posteriormente, para a literatura. Citado entre os principais escritores da atualidade, Padura mora em Havana e fez de sua série de livros policiais, em que o investigador Mario Conde desvenda crimes pelas ruas da capital, uma espécie de fresta na cortina do regime comunista por onde os leitores conseguem enxergar a vida na ilha. Crítico da lentidão do regime em promover mudanças que atenuem a crise de abastecimento e permitam a liberdade individual, ele acaba de lançar no Brasil o romance Como Poeira ao Vento (editora Boitempo), em que trata da saída em massa de cubanos do país. Nesta entrevista, via ligação de WhatsApp, Padura desabafa: “Lamento que sempre tenha de falar tanto de política e tão pouco de literatura, mas sinto que tenho uma obrigação cívica de fazê-lo”

Em julho, os cubanos foram às ruas se manifestar, fato sem precedentes desde o fim da injeção de dinheiro soviético nos anos 1990. O que precipitou o histórico levante? Foi um grito alto da sociedade contra a crise social. Os manifestantes se rebelaram em prol de mudanças econômicas, comida, melhores perspectivas e, sobretudo, liberdade, que é item escasso. Surpreendeu todo mundo, já que não havia uma liderança evidente. A indústria do controle sempre funcionou muito bem no país e esse movimento espontâneo foi algo que as autoridades não esperavam. Agora, costumam fazer uma leitura muito caricata do que se passa na ilha. Na verdade, os que foram às ruas não eram nem mercenários nem jovens idealistas, mas pessoas brigando por uma sobrevivência mais digna.

Como o governo deveria lidar com esse anseio por mudança? Se eu estivesse no poder, faria logo as mudanças, porque elas têm de acontecer, de uma forma ou de outra. Um dia desses acordei cedo, umas 5 da manhã, e escutei vozes na rua. Eram pessoas se organizando em fila para ver o que haveria para comprar em uma loja na esquina da minha casa, que abre às 9 horas. Para estar lá naquele horário, tiveram de dormir em portais, escadas, até em árvores, para escapar do toque de recolher imposto pela Covid-19. Há filas assim por toda a cidade, gente querendo comprar o que aparecer. Isso já dura quase dois anos.

O senhor acha que o regime perdeu o rumo? A revolução é um processo histórico que transformou a sociedade cubana, reformando o conceito de propriedade, as relações sociais e as estruturas políticas. Mas o tempo passou, o mundo girou e o discurso simplesmente não mudou. Durante muitos anos se pediu sacrifício, entrega e trabalho em prol de um futuro melhor. Só que esse momento foi sendo adiado, adiado, e não chegou para quase ninguém. Hoje em dia esse tipo de falatório não diz nada às pessoas, principalmente aos jovens. Ele perdeu o sentido.

O socialismo foi incapaz de encarar os desafios do século XXI? Qualquer pessoa com um espírito humanista apoia um projeto social que garanta o máximo de liberdade, de democracia e de igualdade para todos. O socialismo prometia isso, mas não soube pôr em prática. Como dizia um diretor de cinema cubano, “o roteiro é bom, o problema é colocá-lo em cena”.

“Qualquer um com espírito humanista apoia um projeto de igualdade social. A questão sobre o socialismo, como dizia um cineasta cubano, é que o roteiro é bom, mas difícil de colocar em cena”

Como esse enredo desandou? Um fator da engrenagem que se revelou falho desde o princípio foi o econômico. A antiga União Soviética se desenvolveu e sobreviveu graças à exploração de recursos naturais disponíveis em seu imenso território. Criou-se, desse modo, uma sociedade viável economicamente. Mas no plano social e político ela demonstrou-se um gigante com pés de barro, de alicerce frágil. É preciso encontrar alternativas para implantar um projeto que dissolva as desigualdades sem empobrecer ainda mais as pessoas nem lhes tosar a liberdade. Pode soar utópico, mas à humanidade cabe sonhar e não se dobrar à realidade dada, que não é boa.

Seu livro trata do exílio dos cubanos. A saída maciça de pessoas do país é uma ferida aberta? Reflito muito sobre essa diáspora. Trata-se de uma situação que vem se repetindo ao longo de toda a história cubana. Muita gente deixou a ilha nos últimos 200 anos e até hoje não havia nada escrito sob a perspectiva da minha geração. Como homem das letras, portanto, deixo a contribuição sobre esse capítulo que acaba por afetar a todos. O livro fala do exílio, mas também da permanência e da amizade que se sobrepõem à distância física, sentimental, e às divergências. É justamente esse elo, que se mantém firme, acima das discordâncias, o que nos salva de uma ruptura total.

Como é a relação dos que saíram com Cuba? Conheço gente que mora há décadas em Miami ou na Espanha e fala, come e vive como cubano. Mesmo sabendo que não vão regressar, essas pessoas preservam a cultura viva, o que me parece característico de grupos com uma identidade bem definida. Na cidade de Hialeah, no sul da Flórida, a chegada de cubanos para trabalhar em pequenas indústrias, chamadas factorias, mudou a paisagem. Eles foram abrindo cafés, restaurantes, salões de cabeleireiro, iguais aos da terra natal, e criou-se ali uma espécie de Cuba artificial em território americano. O grupo dos que se foram abarca também, claro, gente que não consegue nem mais ouvir falar da ilha.

O que, afinal, fez com que tantas pessoas debandassem? O principal fator foi a crise política e social dos anos 1990, quando a antiga União Soviética se esfacelou e deixou de dar ajuda financeira a Cuba. Começou a faltar tudo e a esperança também ficou escassa. Em 1994, aproveitando uma decisão temporária do governo de abrir as fronteiras, milhares partiram, cruzando o mar em todo tipo de embarcação, na direção dos Estados Unidos. A crise dos balseiros, como ficou conhecida, foi o pior momento desse processo, mas o gotejamento populacional prosseguiu, motivado sobretudo por questões econômicas.

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Quem mais recorre ao exílio atualmente? São pessoas que têm recursos para viajar ao exterior: cientistas, artistas, esportistas. Recentemente, metade de uma equipe de 24 jogadores de beisebol não retornou a Cuba. É um número horripilante, que expõe as feridas do país.

Existe um paralelo entre a crise atual e a dos anos 1990? Os efeitos são semelhantes, mas as causas são distintas. Há três décadas fomos afetados pelo desmoronamento do socialismo no mundo, um fenômeno inevitável. Hoje vivemos uma pandemia universal, na qual as restrições de mobilidade e a necessidade de isolamento social se somaram às imensas carências já existentes. A economia cubana é deficiente, não tem sido capaz de gerar riquezas e ainda sofre os efeitos do embargo econômico dos Estados Unidos. O momento é de cansaço histórico. E o que vejo é um povo farto de esperar por uma ação das autoridades.

O governo anunciou medidas para modernizar o país. Elas surtiram algum efeito? Estamos apenas engatinhando, lentamente. O objetivo das medidas é tentar adequar o país a esta realidade. Antes, precisávamos de autorização para viajar ao exterior. Agora qualquer um pode ter passaporte, desde que apresente visto de entrada no país de destino. Também foi liberada a abertura de pequenos negócios. Tivemos um reordenamento monetário no início do ano que corrigiu distorções, mas trouxe inflação e o empobrecimento da população. Ainda que a sociedade tenha se transformado, o modelo político e econômico segue essencialmente o mesmo.

Fidel Castro morreu e seu irmão Raúl se afastou dos cargos públicos. O poder mudou verdadeiramente de mãos? Não. As pessoas são outras, mas o sistema segue igual e Raúl Castro ainda tem a última palavra nas grandes decisões. Este é um governo da continuidade.

As redes sociais transformaram o mundo. Foi assim em Cuba também? Durante muito tempo, a internet daqui foi controlada e limitada. Mas as conexões se tornaram mais estáveis e mais rápidas, o que permite agora manter perfis no Facebook e passar mensagens por WhatsApp. O comportamento dos jovens cubanos é parecido com o dos demais, inclusive a necessidade de tornar pública a vida privada. Minha geração lutou muito pelo direito à privacidade em um país onde os níveis de vigilância eram altíssimos. Tentávamos preservar ao máximo o que se conversava com os amigos e o que se pensava sobre determinados assuntos. Hoje em dia, para o bem ou para o mal, as pessoas divulgam tudo o que acontece na vida delas. Como não entendo o fenômeno, prefiro não criticar.

“Tenho obsessão por temas como liberdade e a condição humana, mas não acho que uma obra deva se converter em um panfleto político. O que gosto mesmo é de falar de beisebol e cinema”

Barack Obama visitou a ilha, suspendeu restrições e deixou no ar a possibilidade de fim do embargo econômico. Donald Trump revogou tudo isso. O que se espera de Joe Biden? Junto com Obama vieram os Rolling Stones, um desfile da Chanel e um dos episódios da franquia Velozes e Furiosos, filmado em Cuba. A economia se moveu, negócios foram abertos e as pessoas se prepararam para receber turistas. Foi um período de efervescência, que acabou na era Trump. A embaixada americana foi praticamente fechada e Cuba regressou à lista dos países que promovem o terrorismo, prejudicando uma gama de relações internacionais. O governo Biden reacendeu uma leve esperança, mas nada aconteceu. Esperamos, pelo menos, a retomada das relações diplomáticas, para os cubanos não serem mais obrigados a viajar ao México ou à Guiana para solicitar um visto americano.

Sua obra é vista como uma fresta na cortina de ferro, por onde os leitores entendem um pouco do que ocorre na ilha. Considera escrever um ato político? Para mim, é antes de tudo uma necessidade espiritual que se desenvolve por meios estéticos. Tenho obsessão pessoal por temas como liberdade e a condição humana, mas não acho que a obra deva se converter em uma peça política, um panfleto. O que gosto mesmo é de falar de beisebol, de literatura e cinema, como Paul Auster, a quem tanto admiro. Ambos retratamos a realidade de nossa cidade natal: eu, Havana; ele, Nova York. Mas uma maldição acaba sempre nos obrigando a voltar à política.

O senhor tem cidadania espanhola. Cogita ir embora de Cuba? Tenho dupla cidadania, mas uma nacionalidade. Sou um escritor cubano que escolheu livremente viver e trabalhar no país. Talvez algum dia tenha de ir embora, mas espero que isso não aconteça, porque este é o meu lugar. Me alimento da realidade cubana para escrever.

Publicado em VEJA de 15 de dezembro de 2021, edição nº 2768

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