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Nouriel Roubini: “O Brasil é promissor”

Famoso por previsões pessimistas, economista diz que o país crescerá de forma sustentável se realizar reformas estruturais e investir mais no capital humano

Apresentado por Atualizado em 3 dez 2023, 16h13 - Publicado em 15 set 2023, 06h00

O economista Nouriel Roubini ganhou um apelido que, à primeira vista, parece uma afronta: “Dr. Doom” — numa tradução livre, seria algo como “Doutor Catástrofe”. Nascido na Turquia e radicado nos Estados Unidos, Roubini recebeu a alcunha por seus prognósticos apocalípticos na área econômica. Mas a verdade é que as previsões foram quase sempre certeiras. Entre outros feitos, avisou com antecedência de um ano em que uma grande crise financeira estava à espreita, o que, de fato, ocorreria em 2008, com a explosão da bolha no mercado imobiliário americano. Desde então, passou a ser uma das principais vozes globais na análise minuciosa dos grandes desafios econômicos. Em entrevista exclusiva a VEJA, Roubini não deixa de mostrar seu lado pessimista, especialmente em relação à China e ao futuro da tecnologia blockchain. Contudo, mostra surpreendente otimismo com o Brasil, desde que o país leve adiante uma série de reformas. A seguir, os principais trechos.

O que o Brasil precisa fazer para crescer de forma sustentável? Em primeiro lugar, é crucial implementar reformas que aumentem a capacidade produtiva e reduzam os custos de produção. Paralelamente, o país precisa otimizar o gasto público em relação ao PIB. A eficiência do sistema tributário também deve ser aprimorada, com ações para minimizar a sonegação fiscal e reduzir distorções.

Mas há um esforço para aprovar a reforma tributária ainda em 2023. Não é apenas isso. Outro exemplo é a necessidade de desburocratização, com a simplificação de normas para estimular o dinamismo do setor privado. O foco em educação é igualmente vital, pois o capital humano representa a chave para o crescimento sustentável. O Brasil possui grande potencial, mas apenas a implementação de tais reformas garantirá um futuro próspero.

O que o senhor diria ao presidente Lula se ele o consultasse a respeito dos desafios econômicos brasileiros? O Brasil tem a necessidade urgente de buscar tanto a estabilidade macroeconômica quanto promover reformas estruturais. No contexto macroeconômico, é essencial manter uma gestão fiscal responsável, equilibrando o Orçamento por meio da combinação de controle de gastos com ajuste de impostos. O objetivo deve ser evitar a acumulação de déficits que possam prejudicar o desenvolvimento econômico.

De que forma o patrimônio ambiental brasileiro poderá significar uma oportunidade de crescimento econômico? Seu país tem a oportunidade de abraçar tecnologias voltadas para a economia verde, crescendo economicamente enquanto promove a sustentabilidade ambiental. Apesar de todas as riquezas e recursos, o Brasil, frequentemente chamado de país do futuro, ainda não alcançou todo o seu potencial.

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Como o senhor dimensionaria esse potencial? O Brasil tem capacidade para crescer a taxas superiores a 5%, o que seria crucial para combater a desigualdade e aumentar a produtividade. O futuro é promissor, mas a implementação de reformas, independentemente da orientação política do governo, precisa ocorrer de maneira mais ágil e eficaz para que o país possa prosperar no cenário global.

“O Brasil possui grande potencial, mas é essencial manter uma gestão fiscal responsável, equilibrando o Orçamento com a combinação de controle de gastos com ajustes de impostos”

Os estímulos monetários durante a pandemia, seguidos pelo aumento da taxa de juros, podem desencadear uma crise financeira global? Dada a inflação crescente, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, houve a necessidade de uma política monetária restritiva, com o aumento das taxas de juros. O objetivo era controlar a inflação, mas a estratégia foi seguida pela desaceleração econômica e outros problemas financeiros, especialmente considerando os altos níveis de dívida pública e privada. Até o momento, as economias avançadas têm evitado um colapso completo.

Há risco real de recessão no mundo? Algumas economias podem enfrentar recessões breves e superficiais, enquanto outras alcançarão a estabilidade sem grandes turbulências. A questão em aberto é se conseguiremos um retorno controlado às metas inflacionárias sem enfrentar recessões profundas ou crises financeiras. A resposta pode variar de país para país.

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Como a desaceleração econômica da China poderá afetar a economia global? A desaceleração da China é mais do que um fenômeno cíclico. É estrutural. O que antes era um crescimento potencial de 10% desacelerou para 5% e, atualmente, é estimado em 3,4%. A diminuição pode ser atribuída a fatores como o envelhecimento da população, a saturação do mercado imobiliário e os altos níveis de dívida.

O capitalismo estatal perdeu força? A crescente ênfase na gestão estatal da economia e o recuo do setor privado geraram a queda na confiança por parte das empresas e consumidores, resultando em menos investimentos e consumo. A tensão geopolítica, particularmente a Guerra Fria com os Estados Unidos, agrava a situação. É um cenário a monitorar, mas, por enquanto, não parece ser crítico.

Quais países serão mais afetados pela desaceleração chinesa? Ela reverbera em várias partes do mundo. É especialmente importante para a Ásia e países inseridos nas cadeias de abastecimento globais chinesas. Os países exportadores de commodities, desde o Brasil até outras regiões, também podem sentir o impacto devido à possível diminuição da demanda chinesa. Nos Estados Unidos, o impacto será menor, já que o país tem exportações relativamente limitadas para a China.

A crescente integração financeira global torna o mundo mais suscetível a crises sincronizadas? A integração global e a mobilidade de capitais, em geral, são positivas, pois promovem uma alocação mais eficiente das poupanças. No entanto, isso pode resultar em uma maior sincronização dos ciclos econômicos entre os países. Em cenários adversos, choques financeiros em uma nação podem se propagar rapidamente para outras, intensificando os efeitos da crise.

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Como resolver essa questão? O problema não está na integração financeira em si, mas na falta de regulação e supervisão adequadas, que poderiam limitar o impacto da volatilidade financeira. A solução, portanto, não é reduzir a mobilidade de capital, mas implementar uma regulação robusta que reduza os riscos associados.

Em suas análises, o senhor menciona a possibilidade de uma desglobalização. Quais são as implicações desse movimento? A desglobalização é complexa e tem implicações econômicas e geopolíticas. Uma faceta do fenômeno é a crescente tensão geopolítica, evidenciada pela emergência de uma nova Guerra Fria. Nesse cenário, temos os Estados Unidos, Europa e seus aliados globais de um lado e, de outro, China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, juntamente com seus parceiros. Mas a polarização geopolítica é apenas uma das razões por trás da fragmentação da economia global.

Quais são as outras? O protecionismo e as restrições ao comércio de bens e serviços estão se tornando mais prevalentes. A mudança nas dinâmicas de trabalho, capital e tecnologia também é afetada. Essas transformações também são reflexo de uma percepção crescente de que a hiperglobalização beneficiou uns, enquanto deixou outros para trás. O desequilíbrio resultou em ressentimentos e questionamentos sobre os verdadeiros benefícios da globalização.

Que desafios a nova realidade impõe aos países? Em vez de simplesmente abraçar o livre comércio, precisamos nos esforçar por um comércio mais equitativo e justo. Políticas industriais bem estruturadas podem impulsionar a criação de empregos e a produtividade, sem cair na armadilha do protecionismo. Enquanto a globalização tem seus benefícios, é vital abordar seus excessos e desequilíbrios para evitar consequências negativas.

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Diante desse cenário, podemos dizer que as forças econômicas globais estão mudando? É inegável que a distribuição do poder econômico foi reconfigurada. As economias avançadas, como Estados Unidos, Europa, Canadá, Austrália e Japão, estão vendo sua participação no PIB global diminuir, enquanto os mercados emergentes ganham terreno. A China, que liderou o crescimento entre os mercados emergentes, desacelerou. Isso coloca em evidência o peso crescente de outras regiões emergentes, desde a América Latina até a Europa Oriental e o Oriente Médio.

“O poder econômico foi reconfigurado. As economias avançadas estão vendo sua participação no PIB global diminuir, enquanto as emergentes ganham terreno”

Como o grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros emergentes) se encaixa nesse contexto? O Brics é frequentemente citado como um exemplo do crescente poder dos mercados emergentes. No entanto, é um grupo extremamente heterogêneo. Os países variam desde sistemas políticos democráticos, como Brasil, Índia e África do Sul, a regimes mais autoritários, como China e Rússia. Suas economistas também são heterogêneas, com algumas nações sendo exportadoras de commodities e outras, importadoras. Além disso, seus interesses geopolíticos e estratégicos não são uniformes.

Poderia dar um exemplo? Enquanto a China deseja ser a líder dos países do Sul Global, a Índia não compartilha dessa visão. A falta de coesão foi evidenciada quando a China optou por não participar da reunião do G20 na Índia. Portanto, não é realista esperar que o Brics atue como uma frente unificada, em contrapartida ao G7. As divergências de interesses são significativas em várias dimensões.

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Vivemos uma era de grandes transformações, marcada por avanços tecnológicos como a inteligência artificial e o blockchain. Como tudo isso impactará as nossas vidas? Acredito que a inteligência artificial terá o impacto mais transformador na economia global nas próximas décadas. As tecnologias associadas a ela, como o aprendizado de máquina, a robótica, a automação e o big data, prometem revolucionar uma ampla variedade de setores, incluindo os serviços financeiros. O futuro dos serviços financeiros não será moldado pelo blockchain ou pela criptografia.

Muitos futuristas acham que a grande revolução virá do blockchain. O senhor concorda? A criptografia, por mais que esteja na moda, não tem o potencial transformador da inteligência artificial. Vejo o blockchain como uma das tecnologias mais superestimadas de nossa era. Em contraste, a inteligência artificial se apresenta como uma verdadeira revolução, prometendo remodelar o mundo como o conhecemos.

Publicado em VEJA de 15 de setembro de 2023, edição nº 2859

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