Clique e Assine VEJA por R$ 9,90/mês
Continua após publicidade

Governo não tem um ‘plano de metas para o país’, diz Michel Temer

Conselheiro informal de Jair Bolsonaro, o ex-presidente faz críticas (e elogios) à atual gestão e conta o que sentiu quando foi preso pela Lava-Jato

Oferecimento de Atualizado em 4 jun 2024, 14h04 - Publicado em 29 jan 2021, 06h00

Há dois anos longe do poder, o ex-presidente da República Michel Temer voltou a sentir o sabor das grandes decisões. Nesta semana, o conselheiro esporádico de Jair Bolsonaro entrou em campo a pedido do governador de São Paulo, João Doria, para solicitar ao embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, agilidade no envio de insumos indispensáveis à produção da vacina contra a Covid-19 no Brasil — ouviu que chegarão em breve. Depois, participou de um evento virtual em favor da imunização, com os também ex-­inquilinos do Palácio do Planalto Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Em entrevista concedida no seu escritório em São Paulo, Temer criticou o governo atual por, segundo ele, não ter um plano para o Brasil, mas deixou claro que discorda daqueles que pedem o afastamento do presidente. Apesar de ter chegado à Presidência da República em razão da cassação de Dilma Rousseff, Temer argumenta que esse tipo de processo é traumático para o país e lembra que ele próprio só não caiu porque não havia povo nas ruas. Sobre o futuro, reconhece que não há mais espaço para ele: “Eu não faço falta”.

O senhor participou nesta semana de um evento em favor da vacina com João Doria e o ex-presidente FHC. Vai tomar o imunizante ou tem alguma resistência à CoronaVac? Eu espero que chegue logo a minha vez. Pode ser do Paquistão, eu tomo.

Como avalia a atuação do presidente Jair Bolsonaro e de seu governo no combate à pandemia? Acho que agora ele está indo bem. No início, quando mencionou que a doença era um mal relativo, mínimo, não foi bem. Temos de adotar o que a ciência estabelece.

De uma forma geral, de que tamanho o Brasil sairá da pandemia da Covid-19? No momento, o importante é preservar vidas. A economia tem atropelos, mas isso é recuperável. E é preciso fazer uma revisão nas posições atuais sobre meio ambiente, para recuperar a imagem do Brasil no exterior. Na hora em que houver isso, os investidores voltarão. E outra coisa importante: sabe por que eu fui bem no meu governo? Eu cheguei com um programa que havíamos elaborado no PMDB, chamado Ponte para o Futuro. Essa administração precisa de uma espécie de nova ponte para o futuro, um plano de metas para o país. Isso não tem. Qual é o plano do governo?

O atual governo não tem um projeto de país? Ele pode ter um projeto interno, ali no seu grupo, mas a simbologia forte é expressar isso em regras escritas. Por exemplo, a manutenção do teto de gastos públicos é uma coisa importante para a credibilidade do país, interna e externamente. O que você pode fazer para ampliar o valor pago aos vulneráveis sem derrubar o teto? Em situação de calamidade pública ou emergência, é possível usar os créditos extraordinários, sem mexer no teto, isso está previsto na Emenda Constitucional do Teto de Gastos.

Continua após a publicidade

Na política externa, o senhor aprova as posições adotadas pelo atual governo? Nós não temos a menor condição de ser unilaterais, bilaterais ou isolacionistas. Nosso maior parceiro comercial é a China. E o segundo? Os Estados Unidos. Então, o governo tem de tomar muito cuidado com isso. Mas o presidente Jair Bolsonaro tem começado a apoiar essa multilateralidade nos últimos tempos.

“Sabe por que não foram à frente as denúncias contra mim? Porque não tinha povo na rua. Se houvesse, muito provavelmente teria sido aprovado um processo de impeachment contra mim”

O senhor é a favor da abertura de um processo de impeachment de Jair Bolsonaro, como tem sido pedido pela oposição? Todo impeachment é traumático. São meses e meses de um transtorno institucional extraordinário. Se puder esperar as eleições, é melhor para a estabilidade institucional. Não vi crime de responsabilidade do presidente, mas teria de analisar os pedidos caso a caso. Por exemplo: dizem que Bolsonaro trabalhou contra a vacina, mas, se você pegar as manifestações dele na segunda-feira, ele até elogia o Estado chinês. Como é que vai levar adiante o processo se tem uma declaração dessa natureza?

No caso do impeachment que levou o senhor ao cargo, foi o melhor para o país? Eu peguei o governo com um PIB de menos 3,6%. Havia milhões de pessoas nas ruas protestando e uma ambiência no Congresso Nacional muito negativa para o então governo.

Continua após a publicidade

Havia crime por parte de Dilma Rousseff? Ela cometeu crime no sentido institucional, com a questão das pedaladas, que levou à responsabilização política dela. Não cometeu crime no sentido penal. Às vezes se acusa a ex-presidente de uma eventual desonestidade. Convivi com ela, claro que muito decorativamente, mas devo dizer que é de uma honestidade ímpar.

No livro que lançará em breve, o ex-­presidente da Câmara Eduardo Cunha acusa o senhor de ter conspirado contra Dilma. Isso aconteceu? O Eduardo, coitado, não foi o autor do impedimento, e nem eu. Ele teve de levar adiante alguns pedidos de impeachment, que, ao ver dele, eram inafastáveis. Quem derrubou a ex-­presidente foram os milhões de pessoas que foram para a rua.

Baleia Rossi (MDB-SP), aliado próximo do senhor, está disputando a presidência da Câmara. É difícil crer que, se ele vencer, o senhor não passará a ter ainda mais influência nos rumos do país… O Baleia realmente é muito ligado a mim. Mas eu não estou fazendo movimento algum. O Arthur Lira (PP-AL, adversário de Baleia) nunca votou contra o meu governo. Tenho um certo constrangimento em dizer que farei campanha para A ou B.

Assim como ocorreu com Bolsonaro, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o principal cabo eleitoral de Baleia Rossi, rivalizou em diversas ocasiões com o senhor quando o senhor era presidente. Ele é confiável? No meu governo, ele foi confiável mesmo nas denúncias contra mim, que poderiam gerar um impeachment. Sabe por que não foram à frente essas denúncias? Porque não tinha povo na rua. Se houvesse, muito provavelmente teria sido aprovado um processo contra mim.

Continua após a publicidade

Qual é a chance de o senhor voltar a disputar alguma eleição em 2022? Nenhuma. Só se vierem aqui e disserem: “Você vai ser entronizado presidente da República (risos)”. Mas isso é impossível e não é saudável.

Figuras históricas do MDB como o senhor, o ex-presidente José Sarney e o ex-senador Romero Jucá, que hoje estão fora da política, fazem falta ao Brasil? Ninguém é indispensável, todos são substituíveis. Eu não creio que façam falta. Com toda franqueza, nem eu faço falta.

Se o senhor pudesse ter de volta uma coisa que perdeu ao sair da Presidência, o que seria? Eu tinha muito agrado em poder realizar coisas: o concreto, o palpável, a caneta, que você tem quando é presidente. Sinto um pouco de falta, mas não me aflige.

Cite uma coisa que gostaria de ter feito no cargo e não conseguiu e outra que fez, mas se arrepende? Gostaria de ter votado a reforma da Previdência, mas a dupla JJ impediu (Rodrigo Janot, então procurador da República, e Joesley Batista, um dos donos da JBS). O que eu gostaria de não ter feito no governo: acho que ter sido tão informal, recebendo as pessoas. Isso me causou prejuízos, como o desse rapaz (Joesley) que foi me gravar lá.

Continua após a publicidade

A reforma trabalhista não alterou o patamar do desemprego do país. O senhor admite que ela entregou menos do que se supunha? É possível. Eu esclarecia à época que não deveríamos esperar que o céu ficaria azul no dia seguinte, acabaria a insegurança e haveria emprego para todos. Não é assim, essas coisas são paulatinas. A reforma produziu um efeito importante: paralisou a alta do desemprego, caso contrário, não sei onde estaríamos.

O senhor está sendo contratado para ajudar a empresa chinesa Huawei a não ser eliminada do processo de implantação do 5G no Brasil. Já tratou desse assunto com o presidente? Eu me senti um pouco agredido quando um jornalista disse que fui contratado para fazer lobby para a Huawei. Fui contratado para dar um parecer jurídico sobre a possibilidade ou não de ela participar de licitações para o fornecimento de equipamentos. Estou sendo contratado, nem se formalizou ainda. Houve conversas. Em uma ocasião, confesso a você, falando com o presidente Jair Bolsonaro, eu disse a ele: “Se a Huawei for inviabilizada tecnicamente, tudo bem. O que não pode é dar sentido político a isso. Ela já implantou aqui o 3G, o 4G, o 4,5G”. Foi a única palavra. Ele não deu resposta.

O senhor foi preso pela Lava-Jato, e dizem que uma estada na cadeia, por menor que seja, deixa marcas. Quais ficaram no senhor? Eu não fui preso, eu fui sequestrado, um sequestro logo derrubado pelos tribunais superiores. É extremamente desagradável. Para a família, é um horror. Imagine os filhos, os meus netos (embarga a voz) vendo pela televisão. Isso deixou marcas naquele momento. Mas eu sou um homem que posso andar pelas ruas. Vou aos restaurantes e sou cumprimentado pelas pessoas.

“É extremamente desagradável (‘ser preso’). Para a família, um horror. Imagine os filhos, os meus netos, vendo pela TV. Isso deixou marcas. Mas eu sou um homem que pode andar pelas ruas”

Continua após a publicidade

Nunca o chamaram de golpista? Nada. Eu terminei o governo com o “fica, Temer” (após a vitória de Bolsonaro). Muitos ainda dizem “volta, Temer”. Vale a pena lutar. Se eu me acomodasse, silenciasse, iriam passar por cima do meu cadáver, mas não passarão.

Bolsonaro chegou à Presidência por ser um político capaz ou a vitória dele foi um mero reflexo da rejeição a um determinado perfil de político? No Brasil, de tempos em tempos, o povo quer mudar tudo. Bolsonaro soube aproveitar a insatisfação popular crescente, assim como o Lula fez nas eleições de 2002. Há uma certa radicalização, aliás, que interessa aos dois.

Como o senhor avalia essa classificação de nova e velha política? Essa é uma distinção para efeitos eleitorais, não são reais. O governo Sarney, que permitiu a redemocratização do país, é velha política? O Plano Real é velha política? A Lei de Responsabilidade Fiscal, que eu implementei, os programas sociais do Lula são velha política? O que tem são a política criticável e a não criticável. Isso, sim.

Como acha que entrará para a história? Como um reformista, que, sem embargo de ter tido dura oposição política e institucional, conseguiu levar adiante um programa de pacificação nacional e de reformas.

Se Michelzinho, o seu filho mais novo, quiser entrar para a política, o senhor vai incentivá-lo? Ele vai fazer o que quiser. Se pedir o meu conselho, eu vou dizer: “Não entre, não, porque você pode fazer muita coisa positiva que não será reconhecida”.

Publicado em VEJA de 3 de fevereiro de 2021, edição nº 2723

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 9,90/mês*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 49,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.