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“A Huawei nunca fez espionagem”, afirma CEO da empresa no Brasil

Sun Baocheng fala sobre as vantagens da tecnologia 5G e diz que quem tem histórico de bisbilhotagem eletrônica são os americanos

Por Laryssa Borges - Atualizado em 17 set 2020, 14h34 - Publicado em 18 set 2020, 06h00

Chegar em casa e a geladeira informar que sua refeição preferida está acabando. Poder conferir o próprio tira-­teima no meio da partida de seu time de futebol. Contar com a precisão de robôs para cirurgias de alta complexidade. O cenário futurista exibido há décadas na ficção e materializado por meio da tecnologia 5G já é realidade em países como China, Suíça, Noruega e Coreia do Sul. No Brasil, a implantação desse sistema de internet de altíssima velocidade tem tudo para se transformar numa imensa batalha comercial e diplomática. O governo americano pressiona para impedir que a empresa chinesa Huawei ofereça equipamentos às operadoras de telefonia brasileiras no leilão previsto para acontecer no ano que vem. É um negócio que envolve cifras na casa dos 30 bilhões de reais. Formado em automação tecnológica, o novo CEO da Huawei no Brasil, Sun Baocheng, 43 anos, falou pela primeira vez a um veí­culo brasileiro sobre as acusações de espionagem feitas pela Casa Branca e a estratégia diante da resistência que enfrentará por aqui. Segundo ele, as suspeitas levantadas pelo presidente Donald Trump são apenas uma manobra para tentar recuperar o atraso das corporações americanas nesse jogo e evitar o domínio da Huawei no mercado global. A seguir, os principais trechos da entrevista a VEJA.

O que a tecnologia 5G muda na vida das pessoas? As redes de 5G aumentam a eficiência das indústrias e trazem a vida digital para a sociedade. Uma pessoa que assiste a uma partida de futebol em 5G pode viver a sensação de estar dentro de um estádio. O uso do 5G nas indústrias é muito significativo. Na Suíça drones automáticos já são usados no monitoramento de plantações. Também é possível aumentar a eficiência de fertilização, irrigação e temperatura de lavouras, maximizando a produção agrícola. É algo que podemos considerar como a indústria 4.0. A porcentagem de acesso à banda larga das famílias brasileira hoje é de 40%. Com o 5G, podemos ter uma cobertura muito rápida para trazer maior conectividade a toda a população do Brasil.

O que mudou na prática na vida nos países que adotaram a tecnologia 5G? Existem países onde o 5G já é uma realidade, como na China, Coreia do Sul, Suíça, Noruega e Bahrein. Na Suíça e no Bahrein, o 5G da Huawei ajuda operadoras a levarem a conectividade a lugares remotos antes inatingíveis, como nos Alpes e no deserto. Na Noruega e na China, o 5G já é utilizado para aumento da produtividade em indústrias que atuam em lugares inóspitos, onde o ser humano não poderia chegar. É na Coreia do Sul onde podemos ver melhor o uso do 5G já para o consumidor final, com serviços de realidade virtual e aumentada, além de transmissões esportivas que extraem o melhor do 8K com o 5G — as partidas de beisebol podem ser vistas em detalhes mínimos, com replays em diferentes ângulos. Aqui no Brasil, será interessante ver as discussões sobre o Campeonato Brasileiro com cada usuário tendo em seus smartphones o próprio VAR.

“A Huawei nunca fez espionagem. Acredito que os brasileiros conhecem o Edward Snowden. Já está muito claro quem quer espionar o mundo. Os Estados Unidos fazem muitas acusações e não apresentam prova”

Por que o senhor considera a tecnologia chinesa melhor que as demais? É importante esclarecer que, em se tratando de 5G, não existe concorrência da Huawei com nenhuma empresa americana. As principais companhias que atuam hoje no setor são a Huawei e mais duas — uma da Suécia, outra da Finlândia. E estamos posicionados como a única empresa do mundo capaz de fornecer às operadoras globais todas as soluções de ponta a ponta de uma rede 5G. Somente na última década foram investidos 85 bilhões de dólares. Nossa presença global, de relacionamento com operadoras de mais de 170 países, faz com que nosso produto ganhe escala e possa também ser mais barato. Nossos equipamentos são mais avançados e mais acessíveis. Investimos em materiais mais leves e sustentáveis e reduzimos as emissões de CO2 em 570 toneladas no ano passado.

Potências ocidentais alegam que a Huawei pode ser usada como instrumento de espionagem do governo da China. A Huawei é uma empresa 100% privada e todas as nossas informações estão abertas ao público. Não existe nenhuma lei chinesa que obrigue uma companhia operada fora da China a prestar informações e dados ao governo chinês. Alguns países têm esse tipo de lei, mas não a China. Por que antigamente não existia nenhum problema com a Huawei no Brasil, que acompanhou a implantação das redes de 2G, 3G e 4G? A razão é que, agora, a tecnologia 5G da Huawei é melhor do que a das empresas americanas, e os EUA não deixam isso se consolidar.

Mas uma executiva da empresa chegou a ser presa no Canadá sob acusação de espionagem. A Huawei nunca fez espionagem. Acredito que os brasileiros conhecem o Edward Snowden (ex-agente da Agência de Segurança Nacional que denunciou a existência de um esquema mundial de vigilância eletrônica mantido pelo governo americano). Já está muito claro quem quer espionar o mundo. Os Estados Unidos são um país muito prático, fazem muitas acusações contra a Huawei e não apresentam qualquer prova. A verdade é que se houver o banimento da Huawei no Brasil, como eles querem, o custo dos serviços de tecnologia vai ser repassado para o povo brasileiro. Não existe almoço grátis.

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Os EUA pressionam por um boicote à Huawei e já conseguiram tirar a empresa de grandes mercados, como o Reino Unido. Aonde essa disputa comercial pode chegar? A pressão dos Estados Unidos contra a Huawei é uma questão geopolítica. Não só no Brasil, porque os Estados Unidos estão fazendo campanha também em outros países para realizar o banimento da Huawei. Esse tipo de ofensiva americana está prejudicando o regulamento do comércio internacional e afetando indiscriminadamente o mercado. Um dos ataques dos Estados Unidos contra a Huawei diz respeito à segurança. A Huawei está no Brasil há 22 anos oferecendo redes de 3G, 4G e 4.5G. Nunca aconteceu nenhum problema ou acidente cibernético. Se com essas gerações tecnológicas não temos problema, por que teríamos com o 5G?

A empresa considera a possibilidade de ser impedida de se instalar no Brasil, como defendem os EUA? O Brasil é um mercado livre, uma economia livre. O banimento da Huawei do Brasil não impactaria só a empresa, mas provocaria prejuízos maiores aos nossos clientes. Sem ela como player no mercado, a competição cai e os clientes acabam pagando mais pelos serviços de telefonia. Cerca de 95% da população brasileira que acessa a internet ou tem um celular está usando algum equipamento da Huawei. Se quiserem tirar todos os nossos equipamentos do país, as operadoras terão de pagar um grande custo para colocar os delas próprias e a entrada do 5G no país atrasaria muito. Uma medida como essa teria um grande impacto na economia e no desenvolvimento da sociedade brasileira.

O governo Bolsonaro é muito alinhado ao governo Trump. O senhor acredita que essa proximidade pode interferir de alguma forma no leilão? O 5G não é um problema ideológico, não é a bomba atômica. Acredito que o governo brasileiro vai tomar a decisão sobre autorizar ou não o uso do 5G da Huawei levando em conta os critérios de tecnologia e economia. A razão da pressão dos Estados Unidos contra a Huawei é porque eles não querem nenhuma empresa de alta tecnologia como concorrente. Para eles, bastam as empresas americanas.

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil declarou recentemente que o país que comprar a tecnologia 5G da Huawei vai perder investimentos. Esse argumento pode influenciar a decisão brasileira? Essa é uma pressão dos Estados Unidos contra as empresas de alta tecnologia. Como fornecedora de equipamentos, a Huawei está sempre tentando oferecer a melhor solução e o melhor produto. Em 2019, a Huawei desembolsou 1,4 bilhão de reais em impostos no Brasil e estamos contribuindo com 3,5 bilhões de reais para o PIB brasileiro. A escolha do governo brasileiro de permitir ou não que participemos das ofertas de 5G não pode ser ideológica, não pode ser feita com base na geopolítica.

“O 5G não é a bomba atômica. A razão da pressão dos Estados Unidos contra a Huawei é porque eles não querem nenhuma empresa de alta tecnologia como concorrente. Para eles, bastam as empresas americanas”

Integrantes do governo brasileiro, como o chanceler Ernesto Araújo, se referem ao coronavírus como comunavírus ou vírus chinês. Conselheiros do presidente Bolsonaro também dizem que a China espalhou o vírus para enfraquecer o mundo ocidental. Como o senhor analisa isso? Não gostaria de falar do problema geo­político ou ideo­lógico. A Huawei tem mais de 190 000 funcionários no mundo, negócios em mais de 170 países. Nas nações em que a Huawei opera, ela obedece a todas as leis locais e também a todas as leis internacionais. No Brasil nunca nos importamos com a religião nem com o partido político de nossos funcionários. O que importa é prestar o melhor serviço a nossos clientes. Somos uma empresa comercial. Por que eu tenho confiança no governo brasileiro? Porque acredito que o Brasil vai tomar uma decisão que alie tecnologia com economia, não levando em conta aspectos ideológicos.

Como a empresa pretende vencer eventuais resistências do governo brasileiro? Temos uma boa comunicação com o governo brasileiro. A Huawei está aberta a esclarecer qualquer dúvida às autoridades. Em 22 anos nunca aconteceu nenhum problema de segurança cibernética. Nos próximos 22 anos também não vai acontecer. Aprimoramos e construímos um processo único no mundo de governança em cibersegurança e proteção de privacidade — prioridades máximas para nossa companhia e acima de quaisquer interesses comerciais. A tecnologia 5G é segura. As acusações que pesam contra a Huawei não são novas e nos acompanham desde que começamos a ter sucesso no mercado internacional. Oferecemos total cooperação e completa transparência, além do cumprimento e da aderência às leis locais. O Brasil é grande. A superconectividade, a cibersegurança e a proteção de privacidade são os fundamentos da nova economia digital — e todos esses elementos estão presentes em nossas soluções.

Publicado em VEJA de 23 de setembro de 2020, edição nº 2705

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