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Vitória de Lasso no Equador não deve encerrar período de instabilidade

Novo presidente herdará país polarizado e comprometido por enorme dívida externa, uma pandemia descontrolada e problemas de segurança

Por Julia Braun Atualizado em 15 abr 2021, 08h35 - Publicado em 15 abr 2021, 08h00

As paisagens exóticas de florestas, lagos cristalinos, vulcões e biodiversidade impressionante do Equador escondem um país mergulhado há anos em um processo de erosão econômica e instabilidade política. O cansaço da população diante das constantes disputas ideológicas entre diferentes facções do governo, escândalos de corrupção e má gestão da pandemia de Covid-19 ficou evidente no último final de semana, quando em uma eleição extremamente disputada os equatorianos escolheram o banqueiro azarão Guillermo Lasso como seu novo presidente.

Ex-ministro da Economia, o conservador adepto do neoliberalismo já havia tentado a sorte em outras duas votações no passado sem sucesso e por pouco não perdeu a chance de disputar o segundo turno em 2021. Em uma virada pouco provável, porém, derrotou na segunda volta o também economista Andrés Arauz, apadrinhado pelo ex-presidente Rafael Correa (2007-2017), e se consagrou o ganhador com cerca de 5 pontos percentuais de vantagem. O êxito de Lasso frustra as aspirações da esquerda ligada a Correa de retomar o poder após a condenação do ex-mandatário, ao mesmo tempo em que representa o primeiro freio ao avanço de uma onda mais progressista na América Latina.

A sombra dos escândalos que envolveram o correísmo, aliás, foi uma das principais pedras no sapato de Arauz. Condenado no ano passado a 8 anos de prisão por ter liderado uma rede de corrupção entre 2012 e 2016, Rafael Correa vive desde no exílio em Bruxelas desde que deixou o cargo em 2017. O ex-presidente é considerado foragido, mas acusa a Justiça de julgamento imparcial e perseguição política. Para boa parte dos eleitores equatorianos, porém, seu nome remete a um passado de conflitos políticos e uma certa tendência ao autoritarismo. Ao mesmo tempo, a troca de ofensas e o posterior rompimento com seu herdeiro político, o atual presidente Lenin Moreno, ampliou o descontentamento com a velha política.

“Muitos eleitores votaram em Lasso para impedir a volta de um aliado do correísmo”, diz diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV. “O final do governo Correa foi marcado por uma grande tensão com os setores acadêmicos e ambientalistas do país, assim como um cansaço da população com sua tendência autoritária e personalismo”.

O projeto impulsionado por Correa de exploração de petróleo no Parque Nacional de Yasuní, uma reserva de floresta amazônica riquíssima em biodiversidade, ainda levou Arauz a perder o apoio da população indígena do país. O terceiro colocado no primeiro turno das eleições e líder do partido indigenista Pachakutik, Yaku Pérez, se recusou a declarar apoio ao candidato da esquerda na votação do último domingo, e com isso influenciou grande parte de seus eleitores a votarem nulo.

“As províncias dos Andes, onde estão concentradas muitas das populações indígenas e onde no passado Correa costumava ter grande apoio, votaram nulo, dando a Lasso a vantagem que ele precisava para vencer as eleições”, afirma Eduardo Ernesto Filippi, professor da UFRGS e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Países da América do Sul (Neppas). Ao todo, 16% da população em todo o país optou por anular o voto.

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A gota d’água para os eleitores foi a resposta do governo Moreno à pandemia de Covid-19. O Equador é um dos países com a pior taxa de mortalidade do mundo, e viu o setor do turismo, um dos mais importantes da nação, colapsar com o fechamento das fronteiras em todo o mundo. A imagem de caixões espalhados pelas ruas aguardando recolhimento diante do colapso do sistema funerário em Guayaquil no início do ano passado ainda assombra a população, e ameaça se repetir diante de uma nova e preocupante alta de casos na cidade que é a porta de entrada para as praias do Pacífico.

Instabilidade e desafios

Conhecido banqueiro e empresário equatoriano que participa de diversos conglomerados financeiros, Guillermo Lasso enfrentará muitos desafios em seu governo. O partido do presidente eleito, o Movimento Político Criando Oportunidades (Creo), só tem 12 assentos na Assembleia Nacional, e precisará enfrentar os 48 deputados do correísmo para aprovar qualquer medida.

“Passando pelo colapso da economia, com uma dívida externa enorme, por uma pandemia descontrolada, até por rebeliões em prisões, crime organizado e atividades de guerrilheiros colombianos, os desafios que o país enfrenta são enormes”, avalia Oliver Stuenkel.

Nesse cenário, não será possível governar sem um comprometimento com as negociações. A necessidade de fazer concessões, aliás, já começou na campanha. Muito religioso e pai de cinco filhos, Lasso é ligado à Opus Dei, uma das mais conservadoras e controversas instituições da Igreja Católica, mas flexibilizou seu discurso sobre a legalização do aborto e até especulou sobre a possibilidade de um referendo sobre o tema para agradar os eleitores mais jovens do país. Também apelou para vídeos de humor no TikTok para conquistar a simpatia desse público.

“Lasso enfrentará dificuldades para ter maioria de votos no Congresso e já começa seu governo com o país absolutamente dividido”, diz Eduardo Filippi. “O Equador pode passar por momentos políticos turbulentos – nada muito distinto do que outros países da América Latina vêm enfrentando nos últimos anos”.

Com a eleição de Lasso, aliás, o Equador se aproxima da América do Sul dos principais governos neoliberais e de direita, como é o caso do uruguaio Luis Lacalle Pou e o chileno Sebastián Piñera. No entanto, o banqueiro já dá indícios que não se aproximará de um discurso negacionista da pandemia ou contra a preservação ambiental, como é o caso do presidente Jair Bolsonaro do Brasil.

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