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Talibãs prometem vingança e Parlamento afegão pede julgamento

Os talibãs prometeram nesta segunda-feira vingar o massacre de 16 civis afegãos no domingo por um soldado americano no sul do Afeganistão, drama que provocou uma crise entre Washington e Cabul, cujo Parlamento exige um julgamento público do militar.

Na manhã de domingo, um soldado americano da força internacional da Otan (Isaf) saiu de sua base na província de Kandahar, um reduto talibã, e matou os moradores de três casas de vilarejos próximos, incluindo nove crianças e três mulheres. Depois ele queimou os corpos.

O banho de sangue aconteceu poucas semanas depois da queima de exemplares do Alcorão por soldados americanos na base de Bagram (norte), um ato considerado uma blasfêmia e que desencadeou uma onda de violentas manifestações antiamericanas no país que deixaram quase 40 mortos.

Os talibãs, derrubados no fim de 2001 por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos e que combatem desde então o governo de Cabul e a Isaf, reagiram com um comunicado divulgado na internet.

Os rebeldes, contra os quais Washington e seus aliados da Otan continuam combatendo apesar das negociações paralelas de paz, prometeram vingança contra os “americanos selvagens e doentes mentais”.

“Os talibãs vingarão cada um dos mártires assassinados de forma selvagem pelos invasores”, afirma um texto publicado em um site dos insurgentes islamitas.

“A maioria das vítimas são crianças inocentes, mulheres e idosos, massacrados pelos bárbaros americanos, que roubaram sem misericórdia suas preciosas vidas e mancharam suas mãos com seu sangue”, completa a nota.

Depois de cometer o massacre, o soldado americano teria retornado para sua base, onde estaria detido.

A Isaf não fez qualquer pronunciamento sobre as motivações do militar.

O Parlamento afegão pediu nesta segunda-feira que os culpados americanos tenham um julgamento público no Afeganistão.

“Pedimos firmemente que o governo americano castigue os culpados e os julgue em um processo público ante o povo afegão”, afirma um comunicado do Parlamento de Cabul.

No entanto, o Pentágono rejeitou este pedido, ressaltando que ele será processado pela justiça militar americana.

“Existem acordos com o governo do Afeganistão no que diz respeito às investigações, e, se for o caso, os julgamentos contra militares americanos (serão realizados) pelas vias militares americanas”, disse à imprensa o porta-voz do Pentágono, George Little.

Os chefes de tribos do distrito de Panjwayi, onde ocorreu o massacre, pediram calma à população e “se comprometeram a não convocar manifestações” contra os americanos, disse à AFP Hayi Agha Lalai, um influente líder da região, depois de se reunir com outros dirigentes em Kandahar.

“Disseram-me que não iam convocar ninguém a realizar atos violentos, mas querem que o governo faça com que o culpado compareça perante a justiça”, disse.

“Por sua vez, o governo prometeu que este caso será tratado no mais alto nível” para que justiça seja feita, indicou.

“Os funerais das vítimas ocorreram no domingo. Ninguém falou de violência nem de manifestações. A maior parte das pessoas está triste”, explicou acrescentando que “muitas pessoas compareceram às cerimônias”.

No domingo, o presidente afegão Hamid Karzai denunciou “um ato de assassinato, terrorista e imperdoável” e pediu explicações a Washington.

O presidente americano Barack Obama chamou o drama de “trágico e lamentável”, além de ter prometido uma “investigação exaustiva”.

O massacre ameaça complicar ainda mais as difíceis negociações em curso entre Washington e Cabul, que tentam chegar a um acordo sobre as condições de uma associação estratégica em longo prazo.

O acordo pretende, entre outras coisas, definir a modalidade da presença americana no Afeganistão depois de 2014, data em que a Otan pretende já ter retirado todas as tropas de combate do país.

A eventual criação de bases permanentes é um tema sensível em um país historicamente contrário a qualquer presença militar estrangeira.

Washington fracassou quando tentou concluir um acordo similar no Iraque, ao não obter do governo de Bagdá uma garantia para a imunidade judicial de seus soldados, e teve que retirar todas as tropas do país.

A Casa Branca, no entanto, negou que a estratégia dos Estados Unidos no Afeganistão vá mudar, apesar dos últimos acontecimentos.

Segundo o porta-voz Jay Carney, Washington mantém seu compromisso de desarmar e derrotar a Al-Qaeda, assim como capacitar as forças afegãs para garantir sua própria segurança.

Além disso, o presidente Obama continua comprometido em retirar gradualmente as forças americanas até o final de 2014.

“Não creio que este incidente vá mudar a agenda de uma estratégia que foi elaborada e implementada para permitir uma retirada das forças americanas, para permitir a transferência dos assuntos de segurança aos afegãos”, acrescentou.

A matança de domingo lembra o que aconteceu em novembro de 2005 em Haditha, no Iraque. Segundo a acusação, militares americanos abriram fogo, apesar da ausência de rebeldes, por três horas para vingar a morte de um colega na explosão de uma bomba. No total, 24 iraquianos morreram, incluindo crianças.

Em novembro, um soldado americano acusado ter matado civis afegãos foi considerado culpado e condenado pela justiça militar à prisão perpétua.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostra que 60% dos americanos acreditam que a guerra no Afeganistão não valeu a pena e 54% desejam uma retirada imediata.

De acordo com a pesquisa da rede ABC News e do jornal Washington Post, 35% dos entrevistados consideram que o conflito de mais de uma década valeu a pena.