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Sucesso do plano Annan para a Síria depende da vontade política

Por Por Rita DAOU - 12 abr 2012, 14h35

O sucesso do plano de Annan depende agora da aplicação de sua dimensão política, mas analistas temem que se limite ao cessar-fogo, que teoricamente entrou em vigor nesta quinta-feira, devido ao abismo entre regime e oposição.

“Até agora, o regime ganhou tempo, mas a hora da verdade se aproxima”, afirma Khattar Abou Diab, professor da Universidade Paris-Sul.

“A idéia é saber se o regime implementará a política ou irá se limitar a declarar que tudo está bem após o cessar-fogo”, acrescenta o cientista político.

O plano de seis pontos do emissário internacional Kofi Annan prevê, após o cessar-fogo, “um processo político inclusivo, liderado pelos sírios, a fim de responder às preocupações e aspirações legítimas do povo sírio”.

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Para os analistas, Damasco fará tudo para evitar um diálogo sério sobre a transferência de poder, que é uma exigência da oposição e de parte da comunidade internacional.

“A resposta do regime aos movimentos populares sempre foi uma solução de segurança, sem um acordo político. Até o último momento, o regime vai tentar remover uma solução política”, diz ele.

Neste contexto, Conselho Nacional Sírio (CNS), principal coligação da oposição, tem repetidamente recusado qualquer diálogo antes da partida do presidente Bashar al-Assad.

O cessar-fogo destinado a pôr fim a mais de um ano de violência mortal, entrou oficialmente em vigor nesta quinta-feira às 3h00 GMT (0h00 no horário de Brasília). A oposição identificou alguns mortos, enquanto militantes do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) relataram uma relativa calma em muitas áreas.

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“Estamos entrando em um período onde todos vão observar muito atentamente o que acontece (…). Não temos ainda uma solução política”, afirma Karim Bitar, pesquisador associado do IRIS, especialista em Oriente Médio.

“A grande fraqueza do plano Annan é que ele não leva em conta o abismo criado entre as duas partes na Síria e a falta de confiança vis-à-vis o regime, tanto da parte da oposição quanto da maioria dos países estrangeiros”, considera.

A violência já fez mais de 10.000 mortos desde a eclosão da revolta no país, de acordo com OSDH.

“Se um diálogo existir, acabará por ser um diálogo simulado com poucas pessoas escolhidas. Mas eu não vejo como pode haver um diálogo nacional, porque as feridas são enormes e ainda não estão curadas”, prossegue Bitar.

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Os ativistas também não estão dispostos a desistir e já convocaram novos protestos para sexta-feira, um teste para Damasco, que normalmente reprime estas manifestações.

“O regime diz ter retomado o controle (…), mas este não é o caso no terreno. Ainda há resistência e o movimento de contestação não parou”, nota Abu Diab.

Salman Shaikh, diretor do Brookings Center, em Doha, fez a mesma observação: “O maior teste para as forças de Assad é quando as pessoas manifestam em massa. O que vai acontecer quando as pessoas ocuparem os centros das cidades e aldeias?”, escreveu em seu Twitter.

Para Karim Bitar, o impasse continuará para além do cessar-fogo.

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“A oposição é muito fraca para derrubar o regime e este regime é fraco demais para silenciar a oposição”, observa.

“Pode haver uma situação de decadência, de conflito de baixa intensidade durante vários meses. Em médio prazo, está condenado”, conclui.

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