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Solidão e desemprego: as cicatrizes do devastador tsunami no Japão.

Javier Picazo Feliú.

Sendai, 6 mar (EFE).- Um ano depois do devastador tsunami que varreu o nordeste do Japão, comunidades atingidas pela tragédia encaram novos problemas, como o desemprego e a solidão.

No momento em que se completa o primeiro aniversário da catástrofe, ainda há quase 335 mil pessoas deslocadas, a maioria em casas alugadas e imóveis temporários, e cerca de 700 permanecem em abrigos, segundo dados do governo japonês.

O terremoto e o posterior tsunami destruíram boa parte do litoral nordeste e deixaram em sua passagem 16 milhões de toneladas de lama e 22 milhões de toneladas de escombros, das quais 6,6 milhões ainda não foram retiradas.

Para reabilitar a região, o governo aprovou até agora quatro orçamentos extraordinários – o último em 10 de fevereiro -, somando mais de 20 trilhões de ienes (US$ 244,2 bilhões).

A esse montante são somadas doações à Cruz Vermelha e a outros órgãos, no total de 345,3 bilhões de ienes (US$ 4,31 bilhões), dos quais, em meados de janeiro, 80% tinham sido distribuídos entre as vítimas. O Japão recebeu também a ajuda de 124 países e de uma dezena de organizações internacionais.

Um ano depois, as linhas de trem estão restauradas, as estradas foram reparadas, os aeroportos retomaram sua atividade e nos portos muitos dos píeres já voltaram a ser utilizados. No entanto, nas zonas litorâneas arrasadas, os evacuados enfrentam outros tipos de problemas, como a solidão, a depressão e o desemprego devido ao baque que representou a paralisação da pesca, uma das principais indústrias da região.

Após o desastre natural, em províncias como Miyagi, uma das mais atingidas, mais de 1.100 empresas cessaram suas atividades, e outras tantas ainda não sabem qual será o futuro de seus negócios, segundo dados divulgados pelo jornal japonês ‘Mainichi’.

Além disso, em março, cerca de 71 mil pessoas verão o fim do subsídio extraordinário distribuído pelo governo, segundo dados do Ministério japonês de Saúde e Trabalho.

No meio deste panorama, as administrações locais, com a ajuda de organizações internacionais, lutam para restabelecer a vida das comunidades, fortalecer a indústria local e atender os evacuados.

‘Alguns sobreviventes se mostram incapazes de se comunicar, já que estão devastados pela perda’, sobretudo os idosos, desorientados por estarem longe de seus lares, declarou à Agência Efe Maho Takahashi, coordenadora de programas da ONG Peace Boat, que atua desde o início da tragédia nas zonas devastadas.

Um dos principais problemas enfrentados pelos evacuados é a incerteza com relação ao futuro, principalmente pela falta de oportunidades de trabalho definitivo. Além disso, está previsto que as casas temporárias que atualmente ocupam sejam desmontadas em dois anos.

A Peace Boat também detectou casos de pessoas ‘com dificuldades psicológicas e físicas que não responderam bem à sua realocação temporária’, afirmou a coordenadora.

O Centro de Ajuda para a Reconstrução de Ishinomaki, um dos municípios litorâneos mais devastados, aponta que, como medida para fugirem da realidade, vários sobreviventes caíram em problemas como o alcoolismo e o vício em jogo.

Os traumas psicológicos também alcançaram as forças da ordem, vítimas da denominada ‘síndrome de Burnout’, um desgaste profissional com estresse emocional prolongado, o que, segundo um estudo do jornal ‘Yomiuri’, afeta 47% dos policiais de Miyagi.

A região nordeste luta também para cicatrizar as feridas deixadas pela tragédia nas 1.580 crianças que em 11 de março perderam pelo menos um de seus pais e agora vivem com alguma das 15 mil famílias que acolheram os evacuados neste último ano.

Outros municípios não desistem de buscar desaparecidos, como Ishinomaki, onde ainda são drenadas partes do rio para tentar encontrar os corpos dos 70 estudantes de um mesmo colégio que foram arrastados pela água.

O terremoto e o devastador tsunami de um ano atrás deixaram 15.853 mortos e 3.282 desaparecidos, segundo os últimos números, além de gerar em Fukushima a pior crise nuclear desde Chernobyl. EFE