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Síria marcada pela violência no primeiro aniversário da revolta contra Assad

A revolta na Síria entra nesta quinta-feira em seu segundo ano com um aumento da violência diante de um regime determinado a esmagar o movimento, encorajado pelo impasse diplomático e pelas divergências internacionais.

Manifestações de apoio ao presidente Bashar al-Assad reuniram milhares de pessoas em Damasco, Aleppo (norte) e em outras cidades do país.

Segundo a agência oficial Sana, “milhares de sírios desfilaram desde a manhã (…) para dizer ao mundo que o povo sírio escolheu a unidade nacional e a estabilidade longe das ingerências e das ordens estrangeiras”.

Por sua vez, militantes anti-regime convocaram protestos por vários dias na Síria e no mundo para exigir, mais uma vez, a saída de Assad, o único chefe de Estado entre os que foram contestados durante a Primavera Árabe que ainda está no poder.

Mas as manifestações contrárias ao regime foram dispersadas pelas forças de segurança, segundo os Comitês Locais de Coordenação (LCC), que coordenam o protesto no local.

Durante um dos protestos em favor das autoridades, sob o slogan “Pelas vidas perdidas nos combates pela Síria”, uma manifestante afirmou à TV estatal: “Depois de um ano de pressão sobre a Síria, queremos que escutem a nossa voz: ‘Deixem a Síria em paz'”.

O regime não reconhece a revolta e acusa o movimento de “terrorismo”.

Enquanto isso, os militantes afirmam que a violência já matou 9.000 pessoas, em sua maioria civis, desde o dia 15 de março de 2011, data do início da revolta, que é, desde então, reprimida duramente.

Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH, com sede na Grã-Bretanha), perderam a vida 9.113 pessoas, entre elas 6.645 civis, 1.991 militares e membros dos serviços de segurança e 471 rebeldes.

“Este é o mais trágico e mais incerto levante árabe”, comentou em um comunicado Peter Harling, do International Crisis Group.

Hoje, o regime intensificou suas ofensivas militares contra os redutos rebeldes, após a retomada do bairro de Baba Amr, em Homs, no dia 1º de março, e da cidade de Idleb (noroeste), na terça-feira.

Nesta quinta-feira, cinco pessoas foram mortas em Idleb e 23 corpos, com marcas de tortura e execução sumária, foram encontrados na mesma área, informou o OSDH.

A Human Rights Watch (HRW) denunciou uma política de “terra queimada”. Em Idleb, o exército atirou “sem distinção”, antes de realizar “prisões, após revistar e roubar casa por casa e queimar habitações”, segundo HRW, citando testemunhas e evocando 114 civis mortos durante as ofensivas.

Paralelamente, mil sírios, entre eles um general do exército, chegaram nas últimas 24 horas à Turquia, elevando para 14.700 o número de refugiados no país, segundo Ancara, acusando a Síria de colocar minas terrestres ao longo da fronteira para impedir a passagem dos refugiados.

Segundo a ONU, mais de 30 mil sírios fugiram da repressão e se refugiaram em países vizinhos, além disso, cerca de 200 mil foram para o interior do país.

Os apelos pelo fim da violência continuam. Nesta quinta-feira, 200 organizações de defesa dos direitos Humanos pediram que a ONU e a Rússia, principal aliada do regime, façam algo para acabar com o derramamento de sangue.

“Durante um ano, o número de mortos na Síria chegou a um nível horripilante de mais de 8 mil mortos, entre as vítimas centenas de crianças. Não é o momento que o mundo, em uníssono, empreenda esforços eficazes para parar com isso?”, declarou Ziad Abdel Tawab, do Instituto do Cairo para os Direitos Humanos.

Dividida, a comunidade internacional se contenta em condenar regularmente o assassinato de civis, sem esconder sua reticência quanto à ideia de uma intervenção militar ou do envio de armas à rebelião.

O ministro francês das Relações Exteriores, Alain Juppé, estimou que fornecer armas à oposição traria o risco de provocar uma guerra civil.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro David Cameron preveniu que o regime enfrentaria uma “guerra civil” caso continue com a repressão.

Na Turquia, um “Comboio da Liberdade”, composto por centenas de pessoas, partiu na manhã desta quinta-feira de Gaziantep (sudeste) para levar ajuda Humanitária à Síria, mas foi bloqueado na cidade fronteiriça de Kilis, constatou a AFP.

Uma delegação dos organizadores que ocupava dois veículos foi escoltada pela polícia turca até o posto alfandegário situado na saída de Kilis, onde foi informada sobre a proibição de entrar na Síria, indicou um deles.

No decorrer dos meses, as manifestações pacíficas foram substituídas pela militarização da revolta. Milhares de desertores, reunidos no Exército Sírio Livre (ASL), escolheram pegar em armas contra o regime.

“Assad matou tanta gente que ele merece um futuro pior do que o de Kadhafi”, morto logo após a sua captura em outubro de 2011 pelos rebeldes, após oito meses de conflito armado, declarou à AFP o número 2 do ASL, Ammar al-Wawi.

Contudo, o ASL possui “apenas kalachnikovs e armas de pequeno porte” para enfrentar os tanques e a artilharia de 300 mil soldados do exército sírio, reconheceu.

Além da inferioridade militar, a oposição também está dividida. Três membros do Conselho Nacional Sírio (CNS) abandonaram o grupo evocando “divergências” e a “ineficiência” da principal coalizão de oposição.