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‘Se há uma coisa que Coco Chanel era, é oportunista’

Biógrafo Hal Vaughan revela em seu novo livro que estilista foi agente nazista

Uma das estilistas mais renomadas da história levava uma vida dupla. A profissional talentosa, criativa e inovadora que o mundo todo aplaudia era também agente nazista e antissemita. É esse perfil obscuro de Coco Chanel que o jornalista Hal Vaughan revela em seu novo livro Dormindo com o Inimigo – a guerra secreta de Coco Chanel, lançado no Brasil na última sexta-feira. Em entrevista ao site de VEJA, o autor, que já foi diplomata dos Estados Unidos e atuou em operações da CIA, conta sobre o processo de criação da biografia e admite que se tornou um aficionado pela estilista depois de descobrir vários detalhes sobre a vida dela. Confira os principais trechos da conversa:

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Dica de leitura

Dormindo com o lnimigo

Dormindo com o Inimigo Dormindo com o Inimigo

Dormindo com o Inimigo (/)

Dormindo com o inimigo – a guerra secreta de Coco Chanel (368 páginas, 43 reais) é uma biografia de Coco Chanel que mostra a postura da estilista durante a II Guerra Mundial.

Autor: VAUGHAN, HAL

Editora: CIA DAS LETRAS

O que o levou a escrever um livro sobre a relação de Coco Chanel com os nazistas? Foi um acidente. Eu estava procurando informações sobre H. Gregory Thomas (membro de uma organização americana de espionagem), porque eu ia escrever um livro sobre ele. Então, tropecei em um pedaço de papel nos arquivos que dizia que H. Gregory Thomas foi a Paris, em 1940, para roubar a fórmula completa do Chanel nº 5. Não entendi, e procurei mais arquivos, até que encontrei um documento da polícia francesa que dizia que Coco Chanel trabalhou para o serviço de inteligência alemão (Abwehr). Eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Então, continuei a caça a arquivos até descobrir que a polícia francesa seguia o trabalho de Chanel – e percebi que meu próximo livro seria sobre isso.

O senhor já era um admirador de Coco antes de encontrar esses documentos? Eu mal sabia quem era Coco Chanel antes de começar o livro. O mais próximo que eu havia chegado de Chanel foi ao passar em frente à loja, em Paris. Então, comecei a ler todos os livros já escritos sobre ela e fui de documento em documento até descobrir tudo. Percebi que não poderia fazer tudo sozinho, e contratei vários assistentes para me ajudar nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha, na Polônia, na França e na Itália. Gastei uma pequena fortuna nisso, mas fiz porque sabia que sairia um livro interessante.

No livro, algumas vezes o senhor se refere a Coco de forma ácida, crítica, e em outras, parece mais um dos homens a quem ela encantou, descrevendo-a como uma mulher sedutora e irresistível. Qual é, afinal, sua opinião sobre Coco Chanel? Sou fascinado por ela. Não posso dizer que a admiro porque muito do que ela fez durante os anos de guerra são condenáveis, mas ela foi uma mulher extraordinária. Ela veio de uma pobreza terrível, viu a mãe morrer de tuberculose e foi abandonada pelo pai, acabando em um orfanato de freiras onde tinha de esfregar o chão… E se tornou a maior estilista da França, mudando a vida das mulheres a partir dos anos 1920. Mas se há uma coisa que a Chanel era, é oportunista. Ela sempre foi para onde estava o poder – e o poder estava nas mãos dos nazistas naquela época. Estava convencida de que Adolf Hitler venceria a guerra e que, portanto, estaria do lado certo, mas ela não dava a mínima à guerra ou aos nazistas. A Chanel se importava com Chanel e em como ela progredia.

O senhor acredita que o seu livro tem o poder de transformar o mito Chanel? Não. Há um ditado que diz “os cães ladram enquanto a caravana passa”. Então, depois deste, haverá um novo livro sobre Chanel, e então outro e assim por diante. Tenho a impressão de que os relações públicas da Chanel estão preocupados com o livro, mas eu não o escrevi para prejudicar ou condenar Coco Chanel, eu quis escrever a história dela durante a ocupação alemã em Paris, e espero ter feito isso bem.