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Sarkozy entre a vitória e a aposentadoria política

Instinto político e temperamento combativo são duas características com as quais Nicolas Sarkozy conta para enfrentar o desafio mais perigoso de sua carreira, o segundo turno da eleição presidencial do próximo domingo, que pode significar o começo de sua aposentadoria política.

Presidente hiperativo e impopular, Sarkozy pôs na balança seus feitos, que considera satisfatórios, dadas as crises que a Europa enfrentou, mas alertou os franceses que, em caso de derrota, vai se retirar da política.

“Farei outra coisa, mas o que, não sei”, disse em março. Blefe, declaração tática ou reação afetiva antecipada de um homem que não quer nem pensar em sua derrota?

Sarkozy, de 57 anos de idade, é um caso atípico na classe política francesa. Não foi aluno das prestigiosas universidades que formam as elites do país. Tem apenas um diploma de advogado e uma grande e precoce ambição política.

Um homem apressado que metodicamente superou todos os obstáculos entre êxitos, traições e períodos difíceis.

Começou a militar na direita aos 19 anos de idade, foi eleito prefeito do elegante subúrbio parisiense Neuilly-sur-Seine aos 28, deputado aos 34, foi nomeado ministro pela primeira vez aos 38 e chegou à Presidência da República em 2007, derrotando a socialista Ségolène Royal.

Ambicioso, “não duvida de nada e, sobretudo, não duvida de si mesmo”, disse a seu respeito o ex-presidente Jacques Chirac, que foi seu primeiro mentor na política.

Sarkozy é filho de imigrante húngaro e foi criado por sua mãe e seu avô, grego de Salónica.

“Tenho sangue misto (…) venho do outro lado”, disse ele mesmo. Contudo, foi o presidente francês que mais flertou com a tese da extrema direita.

“Temos estrangeiros demais em nosso território”, disse durante a campanha eleitoral. A retórica direitista, que alguns intelectuais chamam de “populista”, se endureceu nos dois turnos da eleição.

“Uma carreira se arrastando atrás da tese da Frente Nacional”, disse, indignado, o dirigente centrista François Bayrou, em referência ao partido de ultradireita que obteve 18% dos votos no primeiro turno das eleições.

O mandato de Sarkozy termina em meio à polêmica, da mesma forma em que começou.

Há cinco anos, foi questionado por sua relação com a elite.

Na noite de sua eleição, comemorou a vitória no Fouquet’s, um exclusivo restaurante da Champs Élysées, na companhia de milionários e grandes empresários.

Alguns dias depois, os franceses souberam pela imprensa que estava no Mediterrâneo, no iate de um rico industrial, Vincent Bolloré.

Sua família estava “desmoronando” nesta época, justificou recentemente. Sua segunda esposa, Cecilia, o estava deixando e ele estava desorientado.

Sarkozy é o primeiro presidente francês a ter se divorciado durante seu mandato. É também o primeiro a ter se casado no mesmo período, ao contrair matrimônio em 2008 no Palácio Presidencial com a ex-modelo Carla Bruni. A filha de ambos, Giulia, também nasceu durante sua Presidência. Teve três filhos em seus casamentos anteriores.

Apesar do mea culpa da campanha, teve dificuldade para se desfazer dessa imagem de “presidente dos ricos”, acentuada por suas primeiras decisões econômicas, poucos meses antes da crise financeira de 2008.

Sarkozy acredita que a crise do euro, que continua ameaçando a Europa, é um de seus argumentos de peso.

Diz que tomou as decisões corretas para proteger os franceses da tempestade financeira. Da mesma maneira, seguindo seu instinto político, acredita ter tomado a decisão necessária ao intervir, por meio do exército francês, na Líbia e na Costa do Marfim.

É um “presidente de crise”, dizem seus partidários.

Prometeu incentivar reformas para consertar o país, reduzir o desemprego, aumentar o poder aquisitivo dos assalariados, mas não conseguiu.

Hoje, em desvantagem nas pesquisas, pensa que pode ganhar novamente graças a sua reatividade, a sua combatividade e inclusive a sua agressividade.

“Vou reiventá-lo”, disse em confidência a propósito de seu rival socialista, François Hollande, antes do debate televisionado de quarta-feira à noite. Sua previsão não se confirmou, apesar de o debate ter sido particularmente áspero.