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Sá Carneiro, o Kennedy português

No aniversário de 30 anos da morte do ex-primeiro-ministro, voltam as teorias da conspiração sobre um possível atentado

Caso a teoria do magnicídio esteja certa, Sá Carneiro teria sido a vítima colateral de um atentado que não era dirigido a ele

A imagem do vice-primeiro-ministro português Diogo Freitas do Amaral na televisão, 30 anos atrás, informando a morte trágica do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro lembra vagamente a do espanhol Arias Navarro dando a mesma notícia sobre o ditador Francisco Franco. As duas mensagens lúgubres começavam da mesma forma, com um “portugueses” ou um “espanhóis”. Tinham pouco mais em comum, porque a do político português não era sobre o fim de um autocrata à prova de fogo, mas sobre a morte de um governante democrático, de apenas 46 anos, que levava onze meses no cargo. Sá Carneiro é considerado o Kennedy português, o mito que encarna as esperanças truncadas depois de morrer em circunstâncias não totalmente esclarecidas, na queda do avião em que viajava.

O trigésimo aniversario da morte do grande líder da direita portuguesa, que se celebrou no sábado passado, foi marcado pela ameaça de intervenção do Fundo Monetário Internacional no país e a reativação do já eterno debate sobre se houve ou não um magnicídio.

Foi outra vez Freitas do Amaral, o político do direitista CDS que ocupou interinamente a presidência do governo em 1980 e depois foi ministro no governo dos socialistas, quem agitou a memória com seu livro Camarate – Um Caso Ainda em Aberto, no qual recupera velhos textos e divulga documentos sobre a investigação. Ele sustenta que existem razões válidas para considerar que “o eventual atentado de Camarate (a localidade perto de Lisboa onde caiu o avião) foi dirigido contra o ministro da Defesa, Amaro da Costa, e que o motivo pode ter sido a investigação do ministro sobre a estranha situação do Fundo de Defesa do Ultramar”. Esse instrumento poderia estar encobrindo a venda de armas para outros países.

Essa hipótese já estava incorporada implicitamente nas conclusões da oitava comissão de investigação parlamentar sobre a tragédia de Camarate, de 2004. Agora o CDS e o PSD, o partido conservador fundado por Sá Carneiro, apoiam a proposta de Freitas de criar uma nona comissão, que segundo a imprensa não seria mal vista pelo Partido Socialista, atualmente no poder, ainda que as opiniões se dividam. “Não há fatos novos”, sustenta o deputado Vitalino Canas, cuja postura coincide com a que vem mantendo ultimamente uma parte dos comentaristas políticos portugueses. Outros, no entanto, crêem se tratar de uma vergonha para o país e para as famílias a persistência das dúvidas.

Caso a teoria do magnicídio esteja certa, Sá Carneiro teria sido a vítima colateral de um atentado que não era dirigido a ele. Um dos muitos paradoxos que envolvem seu mito. O mais chocante talvez seja o de que um aeroporto, o do Porto, leve seu nome. Há mais, como a da vida sentimental desse político católico que deixou a esposa pela editora dinamarquesa Snu Abecassis, que também morreu em Camarate. Mas provavelmente a mais relevante seja que, apesar de ter sido um político agressivo, seja hoje uma figura de consenso no país. Neste final de semana foi elogiado em artigos do historiador revisionista Rui Ramos e do sindicalista comunista Carvalho da Silva. É o misterioso encanto do mito.