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Rússia questiona legitimidade de governo interino da Ucrânia

Após destituição de Viktor Yanukovich, que estreitou os laços com o Kremlin em detrimento de uma aproximação com a UE, premiê Medvedev intensifica retórica contra mudanças na Ucrânia

Por Da Redação - 24 fev 2014, 16h55

A Rússia intensificou sua retórica contra o novo governo da Ucrânia, que já demonstrou sua inclinação para o Ocidente. Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev questionou a legitimidade dos que passaram a comandar o país depois da deposição do presidente Viktor Yanukovich, que optou pela aproximação com Moscou em detrimento de um acordo com a União Europeia, o que deu início a uma crise política no país. Para ele, as autoridades interinas em Kiev conduziram uma “revolta armada”.

“Falando estritamente, não há ninguém hoje com quem se possa falar. A legitimidade de uma série de órgãos do poder está levantando grandes dúvidas”, disse Medvedev a jornalistas em Sochi, cidade que abrigou os Jogos Olímpicos de inverno, encerrados no domingo. “Se as pessoas que ocuparam Kiev com máscaras pretas e fuzis são consideradas um governo, será difícil para nós trabalhar com um governo assim”.

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Yanukovich viu sua base política enfraquecer depois de uma semana de embates entre manifestantes e membros das forças que resultaram em quase uma centena de mortes. O governo radicalizou na repressão aos manifestantes, que revidaram com bastões de madeira, pedras, tijolos, coquetéis molotov e até armas de fogo. A polícia também passou a disparar com balas de verdade contra os que avançavam. O centro da selvageria, a Praça Maidan, ou Praça da Independência, em Kiev, se transformou em um memorial em homenagem às vítimas. (Continue lendo o texto)

A Rússia, temendo perder um aliado político, convocou no fim de semana seu embaixador em Kiev para consultas. “É um tipo de aberração de percepção quando as pessoas chamam de legítimo o que é, essencialmente, resultado de uma revolta armada”, afirmou Medvedev, segundo a rede britânica BBC. “Nós não entendemos o que está acontecendo lá. Há uma ameaça real aos nossos interesses e a vida de nossos cidadãos”. A Ucrânia é lar de 8 milhões de russos, o equivalente a 17% da população. O Ministério de Relações exteriores respondeu a Medvedev dizendo que suas preocupações “não têm fundamento”.

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Acordos – O premiê russo afirmou, no entanto, que o Kremlin pretende honrar os acordos feitos com Yanukovich. Em dezembro, a Rússia negociou a concessão de 15 bilhões de dólares em ajuda ao governo ucraniano e concordou em fornecer gás natural com desconto ao país. “Os acordos que forem vinculantes serão honrados. Não estamos cooperando com indivíduos de forma isolada. Essas são relações entre Estados. Nós somos vizinhos, nações próximas, e não podemos fugir um do outro. Para nós, a Ucrânia segue sendo um parceiro sério e importante”.

A crise teve origem em uma revolta popular contra o poder que a Rússia tem de dar as cartas na política local. Os governos europeus, que compõem o outro lado na queda de braço pela Ucrânia, demoraram em se dar conta da gravidade do que estava ocorrendo. Agora, enquanto as autoridades tentam capturar Yanukovich, considerado foragido, o Parlamento tenta construir um novo governo o mais rápido possível, para proporcionar alguma estabilidade ao país e evitar que se aprofundem as divisões entre o leste pró-Rússia e o oeste pró-Europa.

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