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Roma by night: os casos secretos dos padres no Vaticano

Livro de jornalista italiano fala sobre como a regra do celibato é ignorada no coração da Igreja Católica e retrata as consequências nocivas desta proibição

Por Nana Queiroz 31 Maio 2011, 19h49

Cerca de 25% dos padres americanos têm relações secretas com mulheres – e 30% são gays. Na Alemanha, de um total de 18.000 presbíteros, pelo menos 6.000 têm relacionamentos ocultos. Na Áustria, mais de 20% dos clérigos. No Brasil, 3.000 sacerdotes se encaixam nesse caso.

Duas strippers entram no palco e iniciam suas performances. Decidem, então, homenagear o organizador da festa. Ele usa calças jeans, cinto branco, camisa rosa desabotoada até o umbigo e tem uma pele bronzeada. Trata-se de um francês, de mais ou menos 35 anos, que mora em Roma. As moças o envolvem em uma dança lasciva.

A cena descrita acima não aconteceu em uma das festas promovidas pelo premiê italiano Silvio Berlusconi e conhecidas como bunga-bunga. É um excerto do livro Sex and the Vatican: Viaggio Segreto nel Regno dei Casti (Sexo e o Vaticano: Viagem Secreta ao Reino dos Castos, Piemme), do jornalista Carmelo Abbate, que está sendo lançado em cinco países – Bélgica, Canadá, França, Itália e Suíça – entre abril e maio deste ano. O texto, que defende o fim do celibato, traz uma nova visão sobre a sexualidade dos padres, especialmente em um momento em que eles são associados aos escândalos de pedofilia na Igreja Católica.

Nas palavras do autor, a noitada em Roma continua da seguinte maneira: “Há poucos dias esse francês celebrou a missa matinal da Basílica de São Pedro. No Vaticano. O francês não é o único padre presente na festa. Há um sacerdote italiano. Há um sacerdote alemão. Há um sacerdote brasileiro, jovem, alto e bonito.”

Sex and the Vatican: Viaggio Segreto nel Regno dei Casti
Sex and the Vatican: Viaggio Segreto nel Regno dei Casti VEJA

Os padres e o celibato – Em Sex and the Vatican¸ Abbate revela os segredos da vida noturna romana, quando muitos padres se dirigem a clubes privados, saunas e casas de suas (ou seus) amantes. O livro é uma coletânea de depoimentos anônimos e cenas que o próprio Abbate presenciou enquanto investigava o tema. “Segundo minhas averiguações, a regra do celibato é ignorada por grande parte dos padres com o decorrer do tempo”, disse o autor ao site de VEJA.

Richard Sipe, conselheiro em saúde mental clínica que conduziu um estudo de 25 anos sobre o tema e se especializou no tratamento de padres católicos com transtornos mentais, confirmou que a conclusão de Abbate não vale só para o Vaticano. Segundo sua pesquisa, cerca de 25% dos padres americanos têm relações secretas com mulheres – e 30% são gays. Outros estudos mostraram que, na Alemanha, de um total de 18.000 presbíteros, pelo menos 6.000 têm relacionamentos ocultos. Na Áustria, são mais de 20% dos clérigos. No Brasil, 3.000 sacerdotes se encaixam nesse caso – alguns deles têm relações estáveis em sigilo, mas não abandonam a batina.

Ponto de vista católico – É possível descrever o ponto de vista da Igreja sobre o tema com base em sua história e literatura. O celibato não é um dogma da fé católica ou uma exigência bíblica e não foi sempre uma norma da Igreja. Muitos dos apóstolos de Jesus Cristo nos textos evangélicos, por exemplo, eram casados. Somente em 1537, durante o papado de Gregório VII, os padres foram proibidos de se casar sob pena de serem excomungados. A intenção da Igreja era proteger seus bens de futuras disputas dos herdeiros de seus sacerdotes.

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Em 1967, o papa Paulo VI chegou a se questionar sobre a necessidade da exigência nos dias de hoje, mas optou por mantê-la. Seu principal argumento foi o de que o próprio Jesus, considerado por ele o “sacerdote eterno”, viveu o celibato e é um exemplo a ser seguido. Além disso, o pontífice acreditava que, abdicando da família, os padres estariam mais livres para se dedicar completamente às coisas do espírito.

Os últimos papas mantiveram a tradição. Bento XVI chegou até a propor uma seleção rígida para impedir que os homens mais inclinados a cair nas “tentações da carne” fossem incorporados ao clero.

Ainda assim, “alguns padres de diversas nacionalidades dividem suas vidas entre as austeras salas da Via della Conciliazione (a avenida que leva ao Vaticano) e a movimentada ‘Roma by night‘”, afirma a editora italiana do livro, Piemme. Eles também constroem relações amorosas estáveis com mulheres, têm filhos ilegítimos e, segundo Abbate, alguns até participam de orgias.

Consequências – Mas quando o dia amanhece em Roma, a culpa vira companheira desses homens. Nas missas, escutam a condenação da sensualidade e da homossexualidade. Nos livros, a exaltação do celibato dos santos. A vida dupla ganha um peso divino, e eles, embora sejam guardiões do espiritual, continuam tendo apenas sua força humana. “E quanto mais o tempo passa, mais difícil é para os padres abandonar a Igreja e se livrar dessa culpa horrível”, conta Abbate.

Enquanto colhia depoimentos para seu livro, o autor ficou especialmente tocado com a história de uma jovem que havia se relacionado secretamente com um padre por alguns anos. Um dia, o sacerdote terminou o caso e pediu transferência para bem longe de sua paróquia. “Fiquei tocado pela ingenuidade e inocência da moça, sua vontade de perdoá-lo apesar de tudo que a fez sofrer. Como ela, há muitas outras mulheres que carregam um sentimento de culpa: acreditam que são a razão de todo o sofrimento de seus amados padres”.

Reação da Igreja – Já para a Santa Sé, com poder e dinheiro em mãos, não é tão complicado se livrar dos escândalos. Abbate desvenda casos em que mulheres italianas assinaram acordos com a Igreja para que recebessem pensões em troca de seu silenzio. Conta histórias de freiras que foram estupradas e de outras obrigadas a abortar. “A Igreja usa duas medidas para julgar determinadas coisas. Por um lado, excomunga os médicos que realizam o aborto em uma garota de nove anos que havia sido estuprada no Brasil. Por outro, permite que coisas muito piores aconteçam em seus bastidores”, diz.

A tese que ele sustenta em seu livro é a de que a alta cúpula do Vaticano tem conhecimento destas transgressões. Mas faz vista grossa, contanto que não tenha de lidar com escândalos. “Além de não ser respeitada, a regra do celibato produz consequências terríveis, como abortos, esposas clandestinas e pessoas cheias de culpa”, diz o autor. “Não seria a hora de a Igreja mudar essa postura e prevenir que histórias assim continuem acontecendo?”.

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