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Rancho nos EUA promete proteção contra guerras e pandemias

No Fortitude Ranch, em West Virginia, todos os sócios são responsáveis pela proteção local e têm suas próprias armas

Por Ligia Hougland, de Washington - 21 Maio 2018, 08h00

A cerca de duas horas de Washington, no Estado de West Virginia, existe um local para proporcionar defesa e abrigo em caso de uma calamidade. O nome do complexo é Fortitude Ranch, e sua exata localização é mantida em sigilo.

O conceito foi desenvolvido por Drew Miller, coronel aposentado da Força Aérea que, por muitos anos, atuou na comunidade de inteligência dos Estados Unidos. A construção começou há dois anos, e o complexo não para de crescer e de atrair membros.

“Temos membros de todos os tipos, mas principalmente profissionais de inteligência, militares e policiais. São pessoas cientes das ameaças iminentes, que sabem como os outros reagem a elas, pois já viram em lugares como o Afeganistão e o Iraque que perder a lei e a ordem e ver o colapso da sociedade civil é muito mais fácil do que se imagina”, diz Miller.

No momento, Fortitude Ranch tem dois prédios com capacidade total para abrigar 175 pessoas. Os abrigos são divididos em ambientes pequenos, para evitar contaminação em caso de uma pandemia. O complexo garante aos membros um suprimento de alimentos e itens essenciais por um ano, por meio de parcerias com provedores locais, além de contar com horta e estufas próprias.

Além do coronel, o abrigo conta com uma equipe composta por cinco militares aposentados que trabalham em tempo integral. Em caso de ataque ao complexo ou em um momento de catástrofe, os próprios membros serão encarregados da proteção. Todos os membros são proprietários de armas de fogo, deixando muitas delas armazenadas no local.

Miller constantemente acompanha o nível de risco de 50 ameaças à segurança e à saúde públicas –  da guerra nuclear ao Pulso Eletromagnético (PEM), passando pelas epidemias. As ameaças que causam mais preocupação ao coronel são de Pulso Eletromagnético e os danos ao sistema elétrico.

“Modificar algo como o vírus da gripe aviária (H7N9), torná-lo contagioso em humanos e soltá-lo nos Estados Unidos ou em qualquer lugar do mundo pode resultar em uma pandemia que facilmente mataria mais de um bilhão de pessoas, afirmou o coronel.

“Além disso, nosso sistema elétrico é bastante frágil, e um grande evento solar que cause PEM pode ter consequências calamitosas. A polícia não será capaz de manter a ordem. A economia vai parar”, prevê Miller, com formação acadêmica em Segurança Nacional e Estratégia de Recursos.

O discurso do proprietário do Fortitude Ranch para atrair membros reflete a clássica estratégia para a venda de propriedades e associações, que é exacerbada por um tom que pode causar suspeita de paranoia. Miller chega a considerar futuras calamidades como “inevitáveis”.

No entanto, os especialistas não têm uma mensagem muito diferente, particularmente no caso de uma pandemia. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês) dos Estados Unidos confirma que o H7N9 pode causar uma pandemia em âmbito global.  Essa é uma visão comum na comunidade científica.

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“[O H7N9] pode acionar algo grande. E, então, pode ser tarde demais”, alerta Michael Osterholm, diretor do Centro para Pesquisa e Política em Doenças Infeciosas.

No caso de um ataque à rede elétrica, não há tanto consenso. O CEO da Dragos Inc. uma firma de segurança cibernética industrial e especialista em segurança de sistemas de energia, Robert Lee, acredita que a rede elétrica e a maior parte da infraestrutura americanas estão “razoavelmente bem construídas, em termos de confiabilidade e segurança”.

“Muitos desses ataques cibernéticos lidam com tecnologia de computação e com a natureza interconectada da infraestrutura. Portanto, quando eles atacam dessa maneira, estamos falando em horas, talvez um dia, e no máximo uma semana, de interrupção”, disse Lee.

“Em cenários razoáveis, não estamos falando em longos períodos de não funcionamento, e não estamos falando em comprometer a segurança”, completou ele. Mas o especialista concorda  que os adversários estão ficando muito mais agressivos.

O proprietário do Fortitude Ranch diz que desenvolvimentos positivos ou negativos de grande escala em política internacional – como uma escalada na animosidade entre os EUA e a Rússia ou a desnuclearização da Coreia do Norte – não devem ter impacto sobre a importância de ter um plano de escape e proteção em caso de catástrofe.

“A ameaça está à espreita. Mesmo com paz no mundo, isso não muda o fato de que um maluco sozinho possa modificar e espalhar o vírus da gripe aviária. Não é preciso um estado-nação ou um grupo terrorista”, diz Miller.

O rancho, que agora tem 40 membros, recebeu centenas de pessoas – apenas indivíduos com interesse comprovado em tornar-se sócio – para uma open house entre os dias 21 e 23 de abril. O coronel estima que todas as 135 vagas agora disponíveis serão esgotadas.

O custo da associação é de aproximadamente 1.000 dólares por ano. Em tempos de paz e tranquilidade, os associados podem usar o rancho para férias com a família e participar dos diversos treinamentos em sobrevivência e proteção oferecidos pelo Fortitude Ranch.

Miller pretende ter outras instalações do Fortitude Ranch espalhas pelos Estados Unidos. Uma segunda instalação já está sendo construída no Colorado. Também espera ter presença internacional, possivelmente no Canadá, Nova Zelândia ou Espanha. Ele não exclui a possibilidade de abrir uma filial no Brasil.

“Se houver demanda, faremos isso. Há grandes áreas urbanas no Brasil, e esse não é o tipo de lugar que você quer estar durante uma pandemia”, diz o coronel. 

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