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‘Quem cobra ambição e não põe dinheiro na mesa é incoerente’, diz negociador-chefe do Brasil

Embaixador Luiz Alberto Figueiredo segue o tom do discurso da presidente Dilma Rousseff, que fez um 'chamado à ação' aos países desenvolvidos, de onde sai boa parte boa parte das críticas ao documento da conferência

Por Cecília Ritto e Luís Bulcão, do Rio de Janeiro - 20 jun 2012, 21h24

“Quem exige ambição de ação e não põe dinheiro sobre a mesa está sendo, pelo menos, incoerente”, disse Figueiredo

O embaixador Luiz Alberto Figueiredo, negociador-chefe da delegação do Brasil na Rio+20, saiu em defesa do texto da conferência, refutando a tese de que haja uma avaliação negativa. Figueiredo foi duro.”Quem exige ambição de ação e não põe dinheiro sobre a mesa está sendo, pelo menos, incoerente”, disse. Dois dos principais objetivos do Brasil nas negociações eram justamente criar formas de financiar o desenvolvimento sustentável e transferir tecnologia. Agora, o que se tem de menos abstrato é um acordo que apenas cita a criação de um fundo em 2014. A criação do fundo de 30 bilhões de dólares para ações de incentivo ao desenvolvimento sustentável, proposto pelo G-77+China, grupo do qual o Brasil é membro, não vingou. A crise europeia foi o principal motivo para que os principais países doadores batessem o pé contra a iniciativa.

Figueiredo seguiu o tom do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da cúpula de chefes de estado da Rio+20, que teve uma cobrança aos países ricos e uma defesa das práticas sustentáveis adotadas pelo Brasil. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, fez coro, numa continuação do “chamado à ação” de Dilma. Os dois criticaram a falta de comprometimento de algumas nações na criação de formas concretas de financiar o desenvolvimento sustentável. “Houve dificuldade para que países desenvolvidos alocassem recursos, fazendo aquilo que deveria ter sido feito na Eco 92”, disse Izabella.

O tom duro lembrou, em alguns momentos, os anseios da conferência para o meio ambiente de 1992. Na ocasião, a principal luta foi pela transferência de recursos do Hemisfério Norte para os países menos desenvolvidos do Sul. Quando ainda se usava os termos primeiro e terceiro mundos, a ideia era que se trabalhasse para o aporte de recursos em nações pobres.

Na defensiva – Durante a maior parte do dia, no entanto, a diplomacia brasileira não conseguiu escapar do que poderá ser o ônus de ter liderado uma negociação intrincada desde sua origem: a ausência de ambição e definições no documento. Sob ataques agressivos de representantes da sociedade civil e críticas ‘diplomáticas’ de interlocutores do segmento de alto nível da conferência, coube ao ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota fazer o contraponto e a defesa das posições brasileiras.

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“Nós estamos dando voz a ONGs, ao setor privado e aos diferentes setores da sociedade justamente para que se expresse. É natural que queiram mais e que sejam ambiciosos. Mas quem se propõe a juntar 193 delegações de diferentes países, mais desenvolvidos e menos desenvolvidos, enfrenta dificuldade de encontrar um denominador comum”, disse Patriota, em referência à falta de consenso que obrigou a retirada de trechos com divergências insolúveis.

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Ressaltar o caráter democrático da versão final do texto não deixa de ser também uma forma otimista de interpretar a falta de definições. “O nível de ambição do texto é de responsabilidade coletiva, e não de um país ou de um grupo de países. O texto, ao contrário do que dizem alguns, traz muitas conquistas”, argumentou o embaixador.

O negociador-chefe da delegação brasileira não deixou dúvidas sobre qualquer possibilidade de reavaliar o documento elaborado pelo Brasil: “O texto já está negociado e fechado. Agora, irá para adoção da conferência”, disse.

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