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Projeto de mesquita perto do Marco Zero faz ressurgir islamofobia

“Não glorifiquem os assassinos de 3.000 pessoas. Não à mesquita da vitória do 11 de Setembro.” No cartaz brandido diante da Comissão de Conservação da Paisagem – que deve decidir sobre a situação do terreno previsto para abrigar um centro cultural islâmico, a duas ruas do local dos atentados de 2001 -, a mensagem revela a violência do debate que sacode os Estados Unidos. Manifestações públicas, batalhas na imprensa entre articulistas, compromisso pessoal do prefeito de Nova York. As tensões em torno do projeto de construção não deixaram de crescer.

O estabelecimento de uma mesquita próxima do chamado Marco Zero provocou um mal-estar imediato entre alguns setores. Alguns falam em “solo sagrado” ao referir-se a esse retângulo de terreno no sul da ilha de Manhattan, onde pereceram cerca de 3.000 pessoas no curso de algumas horas. Em um artigo chamado “Sacrilégio no Marco Zero”, publicado no jornal Washington Post, o cronista político Charles Krauthammer escreve: “Por ‘sagrado’ entendemos aqui que esse lugar pertence a todos aqueles que sofreram e morreram lá, e que essa posse nos obriga, a nós vivos, a conservar a dignidade e a memória deste lugar”. Continua Krauthammer: “Ninguém tem nada contra os centros culturais japoneses, mas construir um deles em Pearl Harbor seria uma ofensa”. Em outras palavras, “o lugar escolhido tem sua importância”.

As motivações dos opositores ao projeto se limitam, em grande medida, à islamofobia. Alguns deles vêm colocando cartazes com imagens agressivas nos ônibus da cidade, nos quais chamam o projeto de “mesquita do 11 de Setembro”. Em artigo publicado no USA Today, Julia Vitullo-Martin, diretora do Centro para a Inovação Urbana da Associação Regional de Nova York – que luta para aumentar o gasto na infraestrutura na cidade a fim de reativar a economia local -, explica seu ponto de vista nestes termos: “Os nova-iorquinos ficaram impressionados ao descobrir, no momento dos atentados às Torres Gêmeas, que os valores que tanto defendem e valorizam – liberdade, espírito aberto, tolerância – contribuíram para que os ataques acontecessem. E alguns se perguntam por que deveriam ser generosos com um grupo de indivíduos filiados ao Islã, a quem também pertenciam os terroristas”.

O debate já deixou de ser uma discussão local. Em vários estados do país se organizaram manifestações para protestar contra a instalação do centro e de projetos similares. Algumas reações foram extremadas. O diário britânico The Guardian informa que uma igreja na Flórida, o Centro de Extensão Mundial Dove, convidou os fiéis a queimarem exemplares do Alcorão no próximo 11 de setembro.

Para John Esposito, diretor do Centro para a Compreensão entre Cristãos e Muçulmanos, da Universidade de Georgetown, citado pelo Guardian, este tipo de reação revela tensões mais profundas. “O assunto em torno do World Trade Center demonstrou que o que até agora era um problema local se tornou algo mais geral e constitui um parapeito para que as pessoas ventilem livremente suas objeções contra o Islã. Sempre houve problemas onde quer que se tenha pretendido levantar uma mesquita, seja no Mississippi, na Geórgia e agora em Nova York.”

Esta hostilidade, por mais profundas que sejam as suas raízes, vai contra os valores que nutrem a cultura americana: a liberdade de culto e o respeito pelas minorias religiosas. Um artigo do cronista Greg Sargent, no Washington Post, assinala “o absurdo daqueles que se opõem à mesquita”, ainda que defenda a autorização para a campanha nos ônibus como “uma vitória da Constituição”, em nome da liberdade de expressão. “Sim, da mesma Constituição que garante a liberdade religiosa.”

A posição do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que apoia firmemente o projeto, se inscreve dentro dessa tradição. Ele encontra motivação em sua história pessoal, que é também a de uma boa parte dos americanos. Segundo o New York Times, na época em que se instalaram em Massachusetts, os pais do prefeito, de origem judia, pediram a seu advogado, que era cristão, que comprasse a casa da família em seu nome. Temiam ser mal recebidos em um estado hostil à comunidade judaica.