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Prestes a retomar o governo, Talibã é cortejado pela China e outros países

A liderança afegã, irascível e retrógrada no passado, dá sinais de querer fazer acordos e firmar alianças — pelo menos para consumo externo

Por Duda Monteiro de Barros Atualizado em 6 ago 2021, 10h07 - Publicado em 6 ago 2021, 06h00

Em 2001, quando as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, foram derrubadas em um estrondoso atentado terrorista, as Forças Armadas dos Estados Unidos entraram no Afeganistão e puseram abaixo o governo afegão, por dar abrigo a Osama bin Laden. O mundo respirou aliviado: era o fim do execrado regime do Talibã, o mais fundamentalista dos grupos muçulmanos, onde as mulheres saíam à rua cobertas dos pés à cabeça, meninas não podiam estudar, não se permitia cantar nem empinar pipas e inimigos eram executados sumariamente. Passados vinte anos, o governo de Joe Biden trata de retirar os últimos militares americanos remanescentes no país, tendo desistido de garantir um governo sólido ou um Exército confiável. No vazio de poder, o Talibã, ele de novo, aparece como o grupo armado mais organizado e capacitado a retomar o controle do Afeganistão. Com uma diferença: a liderança, irascível e retrógrada no passado, dá sinais de querer fazer acordos e firmar alianças — pelo menos para consumo externo.

Nas últimas semanas, representantes de China, Rússia, Irã e Índia encontraram-se com delegados do Talibã, começando a tecer uma nova teia de interesses políticos e econômicos na região. A reunião mais comentada aconteceu no fim de julho, quando o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, recebeu em um imponente salão na cidade de Tianjin um dos fundadores do grupo, o mulá Abdul Ghani Baradar, com direito a fotos sorridentes. O governo de Pequim vê no Afeganistão uma localização estratégica para expansão das linhas de transporte e comércio embutidas em sua ambiciosa Nova Rota da Seda e um possível aliado na complicada relação com a região autônoma de Xinjiang, onde vivem 11 milhões de muçulmanos da etnia uigur — no melhor dos mundos, o Talibã o ajudaria a conter movimentos separatistas locais. “A delegação garantiu que não permitirá o uso de nosso território contra a China”, disse o porta-voz afegão, Mohammed Naeem. Em troca, Wang Yi prometeu a não interferência nos assuntos internos do Afeganistão.

FIM DA LINHA - Tropas americanas voltam para casa: missão incompleta -
FIM DA LINHA - Tropas americanas voltam para casa: missão incompleta – John Moore/Getty Images

Na mais esdrúxula das aproximações, três enviados do Talibã foram recebidos no Kremlin — sendo que a força militar do grupo se consolidou justamente na luta contra os invasores russos que permaneceram dez anos no país e, tal qual os americanos, se retiraram em 1989 sem levar nenhum trunfo na bagagem. O tema oficial do encontro em Moscou foi buscar formas de conter o avanço no Afeganistão do Estado Islâmico — que também é muçulmano sunita, também é ultrarradical, mas pratica um extremismo bárbaro rechaçado até pelo Talibã. O governo xiita do Irã foi outro que recebeu os sunitas afegãos em audiência em julho, por motivos muito pragmáticos: em crise econômica e com a pandemia descontrolada, Teerã precisa por freio na onda de afegãos que diariamente cruzam a fronteira de 900 quilômetros entre os dois países. Com bem menos fanfarra, o Talibã abriu um canal de negociação com o governo da Índia, que vive às turras com o Paquistão e gostaria de usar a inabalável conexão entre paquistaneses e afegãos a seu favor.

Dentro do Afeganistão, o Talibã segue espalhando o terror. Como resultado da intensificação dos combates, que já matou 50 000 civis, o grupo declara controlar 85% do país, embora ainda não tenha fincado pé em nenhuma cidade importante. Biden promete tirar o último soldado americano de lá até 31 de agosto — apenas a aviação segue realizando esporádicos ataques preventivos. Para Romain Malejacq, professor de ciências políticas na Universidade Radboud, na Holanda, a queda da capital, Cabul, é questão de tempo. “O medo está tomando conta da população. As pessoas temem por seus parentes e amigos que vivem nos subúrbios”, diz. Desde o início de 2021, 330 000 pessoas deixaram suas casas, em busca de refúgio nas cidades grandes e atravessando a fronteira (os afegãos formam o segundo maior contingente de refugiados do mundo, cerca de 3 milhões, atrás apenas dos sírios). Milhares de cidadãos que trabalharam para os Estados Unidos aguardam vistos para ir embora. Em redutos isolados, senhores da guerra que nunca prestaram contas ao governo armam milícias para proteger seus domínios da ressurreição do Talibã. No país pobre e despedaçado que duas superpotências não conseguiram controlar, um novo capítulo se inicia, sem nenhuma expectativa de melhora no horizonte.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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