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Presidente destituído afirma que vai ‘lutar pela Ucrânia’

Viktor Yanukovich nega ter sido derrubado e diz que teve de deixar o país porque sua vida estava ameaçada. Em entrevista coletiva, também se disse surpreso com a falta de ação da Rússia

Por Da Redação 28 fev 2014, 10h55

(Atualizado às 16h18)

O ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovich afirmou nesta sexta-feira que vai lutar pelo país. Em entrevista coletiva concedida desde Rostov, na Rússia, ele negou ter sido “derrubado” do poder e alegou que foi obrigado a deixar o território ucraniano porque sua vida e a vida de seus familiares estava sob ameaça. “Eu pretendo continuar a lutar pelo futuro da Ucrânia, contra o terror e o medo”, disse.

“A Ucrânia foi tomada por fascistas que representam uma minoria da população”, ressaltou Yanukovich, segundo o britânico Guardian, acrescentando que vai voltar ao país “assim que sua segurança puder ser assegurada”.

O ex-presidente defendeu uma reforma constitucional até o fim deste ano, realização de eleições presidenciais em dezembro e então a adoção da nova Carta. O governo interino que assumiu o comando do país depois da destituição de Yanukovich marcou eleições presidenciais para o dia 25 de maio. O ex-presidente disse que não participará do pleito porque ele é “ilegal” – declaração dada em resposta a uma pergunta sobre um ponto discutível, já que, no cenário atual, seria pouco provável que ele pudesse de fato estar na disputa.

E considerou que Parlamento que atua hoje na Ucrânia não é legítimo. “O que está acontecendo agora no país é a ilegalidade, ausência de autoridade e terror. As decisões no Parlamento foram tomadas sob coação. Eu não consigo encontrar palavras para caracterizar esta nova autoridade. São pessoas que advogam a violência – o Parlamento ucraniano é ilegítimo”, afirmou, segundo a rede britânica BBC. (Continue lendo o texto)

Yanukovich deixou Kiev na última semana, quando a tensão na capital atingiu o ponto mais alto em três meses de protestos contra seu governo, com cerca de 100 mortos em confrontos entre manifestantes e policiais. Em novembro, Yanukovich abriu mão de um acordo de livre-comércio com a União Europeia e optou por se aproximar do Kremlin, recebendo apoio financeiro dos cofres da Rússia. Para os ucranianos, ao dar as costas para o bloco europeu, ele desperdiçou a oportunidade de tornar a Ucrânia uma nação de fato independente, transparente e democrática.

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Nesta sexta, ele pediu desculpas por “não ter força suficiente para manter a estabilidade” no país e evitar a crise. Em sua opinião, apenas a implementação do acordo assinado com a oposição na última semana em Kiev poderá melhorar a situação no país. O plano previa anistia para manifestantes, investigação dos atos de violência, eleições antecipadas e a restauração da antiga Constituição de 2004, que limitava os poderes do presidente, além de uma reforma na Carta, a ser concluída até setembro.

Também nesta sexta-feira, o presidente Vladimir Putin rompeu o silêncio sobre a crise na Ucrânia pela primeira vez desde a queda de Yanukovich, ainda que suas declarações tenham sido divulgadas indiretamente. Segundo Kremlin, Putin ligou para seus colegas europeus e disse que “é extremamente importante impedir a escalada da violência” na Ucrânia.

Rússia e Crimeia – Um dia depois da assinatura do acordo, no entanto, Yanukovich fugiu do país e o Parlamento o destituiu. Na sequência, um mandado de prisão foi emitido contra o ex-presidente, que passou a ser considerado foragido. Um governo interino foi formado pelas lideranças políticas dos protestos. Mas a situação está longe da estabilidade, com a região autônoma da Crimeia – por onde Yanukovich passou antes de ir para Rostov – transformando-se no principal palco de disputa em um país dividido entre a população pró-Europa e pró-Rússia.

A Crimeia conta com 2 milhões de habitantes e a maioria é de etnia russa. O território no sul da Ucrânia, transferido pelo líder soviético Nikita Kruschev em 1954, foi uma das bases eleitorais de Yanukovich no último pleito presidencial. Uma base naval russa está localizada no porto de Sebastopol.

Nesta quinta, um grupo armado invadiu as sedes do Parlamento e da administração regional e içou bandeiras da Rússia no alto dos prédios. O cerco não impediu o Parlamento regional de votar a realização de uma consulta popular sobre a “soberania’ da Crimeia, a ser realizada em maio, no mesmo dia das eleições presidenciais. À agência EFE, um porta-voz do governo local disse que a intenção do referendo não é tornar a região independente, apenas ampliar sua autonomia. “Simplesmente queremos que a Crimeia seja uma autêntica república autônoma no marco da Ucrânia, não que permaneça como agora, quando as faculdades não são exercidas”.

Nesta sexta foi a vez de milicianos ocuparem o aeroporto de Simferopol, a capital da república autônoma. A Ucrânia acusou soldados russos de estarem por trás de uma “invasão e ocupação militar”, o que foi negado por autoridades russas. No momento em que Yanukovich concedia a entrevista, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia divulgou um comunicado em que se afasta dos recentes acontecimentos na Crimeia e afirma que os eventos são “resultado de um processo político interno da Ucrânia”.

Apesar da posição oficial da Rússia, os fatos tornam difícil para o Kremlin manter um distanciamento da questão. O próprio abrigo concedido a Yanukovich é uma prova disso. O ex-presidente defendeu que a Crimeia deve continuar a integrar o território ucraniano, mas cobrou ações de Putin contra o governo provisório. “Eu acho que a Rússia deveria, e é obrigada a agir. Conhecendo a personalidade de Vladimir Vladimirovich Putin, estou surpreso opor ele estar tão contido e em silêncio”. Yanukovich disse ser contra uma atividade militar na Crimeia, mas reforçou que a Rússia não deve “deixar de agir”.

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