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Poupe-me dos meus amigos

O ex-advogado pôs o cliente no centro do escândalo de dinheiro em troca de silêncio. O ex-assessor já delatou e quer delatar mais. Está difícil ser Trump

O fim do ano não tem sido ameno para o presidente Donald Trump. Na quarta-feira 12, seu advogado de longuíssima data, Michael Cohen, foi condenado em Nova York a três anos de prisão por, entre outros crimes, ter violado as leis de financiamento de campanha em favor de quem? De Trump. Uma semana depois, foi a vez de Michael Flynn, general de três estrelas que durou um mês como assessor de segurança nacional da Casa Branca, encarar um juiz enfurecido com as mentiras que espalhou e as tentativas de influência indevidas que realizou durante e após a campanha de quem? De Trump. Para culminar, na terça 18 a Fundação Donald Trump encerrou suas atividades depois que uma investigação apontou irregularidades em favor de quem? Sim, dele mesmo.

O próprio Trump anunciou, logo após a eleição de 2016, que pretendia fechar a fundação. Mas a Justiça impediu que o fizesse até agora porque queria comprovar a existência de operações casadíssimas entre benemerências e busca de votos. Já Flynn pode causar novos estragos porque, diante da fúria do juiz Emmet Sullivan (“O senhor vendeu seu país”, bradou), a defesa pediu e conseguiu o adiamento da sentença para dar ao general mais tempo para colaborar — inclusive com a investigação especial sobre um suposto conluio entre Trump e a Rússia durante a campanha eleitoral.

No caso de Cohen, a vítima mais contundente é a moralidade. Ele admitiu que duas mulheres que tiveram caso com o presidente receberam dinheiro para se calar — e, sim, Trump em pessoa autorizou o pagamento, o que configura crime eleitoral, já que as quantias se encaixam em doação de campanha não declarada. Nada disso tem potencial para derrubar Trump, como sonham os desafetos. Mas são jatos de água fétida na direção de um presidente que entrou para “drenar o pântano” político.

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614