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Para salvar suas águas, UE paga ‘pescadores de plástico’

Projeto foi lançado na França na sexta-feira e pretende limpar os mares da Europa, além de oferecer uma nova fonte de renda aos pescadores

Por Nana Queiroz e Gabriela Loureiro 23 Maio 2011, 19h57

A União Europeia, tão criticada no aspecto econômico, conseguiu surpreender em uma medida voltada para o meio ambiente. A Comissão para Assuntos Marítimos e Pesca da UE decidiu pagar para que pescadores capturarem plástico nos mares da região. A decisão vai resolver dois problemas. Primeiro, o dos profissionais que atingem a cota máxima de pesca – instituída para preservar a vida marinha local. Com a medida, eles conseguirão outra fonte de renda enquanto não podem retomar suas atividades. Segundo, o das baleias. O fato é que elas comem sacolas de supermercado jogadas ao mar confundindo-as com plâncton, por exemplo. O aparelho digestivo dos animais vai se enchendo até ficar completamente obstruído. Impedidas de absorver qualquer alimento, elas acabam morrendo de inanição.

“Nosso plano não é criar uma profissão de pescadores de plástico. Mas fazer com que pescadores tradicionais, que tiverem ultrapassado sua cota mensal, possam recolher plástico nos mares e rios e aumentar sua renda com isso”, explica o porta-voz da comissão, Oliver Drewes. A ideia começou a ser aplicada em pequenos projetos ao redor da Europa até que a comissária da pesca, Maria Damanaki, se encantou pelo conceito. Ela divulgou, então, em abril último, que sua comissão passaria a financiar iniciativas parecidas, por meio do Fundo de Pesca da UE.

Na semana passada, a ONG Waste Free Oceans (Oceanos Livres de Lixo) abraçou a oportunidade e lançou um projeto piloto que vai durar três anos. O empreendimento começará na França, no Mediterrâneo, mas pretende alcançar mais quatro mares da Europa: Báltico, Negro e Mar do Norte. Como outras tantas que a UE espera ver espalhadas pelo continente, essa iniciativa vai reunir investimentos da indústria local e do Fundo. As empresas participarão emprestando aos pescadores equipamentos com valores que variam entre 16.000 e 40.000 euros (36.832 e 92.080 reais), para que eles comecem sua “pescaria”. O Fundo cuidará dos salários. Ainda não se sabe qual será o valor exato da remuneração, mas um projeto parecido, que foi realizado há alguns meses na França, pagava aos pescadores 375 euros (863,25 reais) por tonelada de plástico.

Nesse caso, o preço da tonelada de plástico seria 13 vezes menor do que o de peixes, o que poderia desanimar os pescadores. Contudo, como eles já estariam impossiblitados de pescar por terem ultrapassado suas cotas, os idealizadores do projeto acreditam que o plástico poderia funcionar como uma renda complementar. Há ainda a expectativa de que, com a valorização do mercado da reciclagem, o negócio se torne mais rentável com o tempo.

Os pescadores de plástico – Thierry Thomazeau, pescador há 27 anos, foi um dos primeiros a se inscrever para participar da iniciativa, motivado por seu amor pelo mar. “A pesca me permite curtir o mar que tanto amo e sustentar a minha família ao mesmo tempo. É mais que uma profissão, é um estilo de vida”, conta. Ele se sentiu compelido a ajudar a despoluir as águas após o derramamento de petróleo na costa da França em 2003, apelidado de maré negra. “Foi uma crise de consciência para mim, a partir daí eu decidi me esforçar para coletar detritos e proteger o mar”, conta o pescador. Para ele, a pesca de plástico é mais importante ideologicamente do que financeiramente. “Eu espero que mais pescadores europeus façam o mesmo, sobretudo para mostrar para a sociedade que os pescadores apoiam a proteção ao meio ambiente”.

Os colegas de Thomazeau, a partir de agora, serão selecionados por comitês nacionais e regionais. “Esses pescadores atuarão nas áreas mais prejudicadas das costas, que ainda estão sendo selecionadas. Em junho, pretendemos lançar um braço do projeto na Bélgica; em novembro, na Espanha e na Grécia. A Alemanha também deve entrar em nosso calendário até o final do ano”, diz Alexandre Dangis, membro do conselho da Waste Free Oceans.

Vergonha antiga – Os projetos que serão lançados com o apoio da UE pretendem aliviar um velha vergonha da Europa: a de abrigar alguns dos mares mais poluídos do mundo, como o Báltico e o Mediterrâneo. Uma pesquisa recente da Expedição Mediterrâneo em Perigo revelou que cerca de 250 bilhões de pedaços microscópicos de plástico flutuam nesse mar, ameaçando sua biodiversidade. O peso médio de cada um deles é de 1,8 miligrama, o que totaliza cerca de 500 toneladas de plástico em toda sua superfície – e a pesquisa nem chegou a considerar a poluição das profundezas.

Por ser relativamente isolado dos oceanos, como a maioria dos mares europeus, o Mediterrâneo precisa de um a dois séculos para renovar suas águas completamente. Ou seja: toda a sujeira que cair nele, ficará lá por muito tempo. Ou pelo menos até que os pescadores de plástico possam fazer algo a respeito.

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