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Papa sem máscara: atitude de Francisco já foi alvo de críticas e temor

Aparição do pontífice foi usada por Bolsonaro para ironizar críticas; falas do papa sobre outros aspectos da pandemia e situação do Brasil diferenciam casos

Por Maria Eduarda Barros e Julia Braun Atualizado em 23 jun 2021, 14h37 - Publicado em 23 jun 2021, 14h02

Nesta quarta-feira, 23, a aparição do papa Francisco no pátio de São Dâmaso, na parte interna do Palácio do Vaticano, causou certa controvérsia nas redes sociais. O pontífice cumprimentou crianças e idosos após uma audiência geral e se reunião com um grupo grande pessoas, mas não usava máscara. Esta não foi a primeira vez que o líder religioso se envolveu em polêmica por sair com o rosto descoberto durante a pandemia e as imagens desta quarta foram usadas imediatamente por seguidores do presidente Jair Bolsonaro para comparar as críticas recebidas por Francisco e pelo chefe de Estado brasileiro por suas atitudes diante da pandemia. 

O próprio presidente compartilhou um vídeo do papa cumprimentando os fiéis em sua página do Twitter. Nas imagens é possível ver Francisco sem máscara, enquanto a maioria das pessoas e alguns dos funcionários de sua comitiva estão com o rosto coberto. No final da audiência, um homem vestido com um traje completo do Homem-Aranha, que estava sentado em silêncio ao lado de um padre na plateia VIP, foi apresentado ao pontífice e lhe deu uma máscara do super-herói. 

Nas redes sociais, usuários lembraram que o representante religioso já foi imunizado e que durante o último ano adotou uma postura responsável em seus discursos em relação à necessidade de proteção durante a crise sanitária. Os internautas também não deixaram de notar que a situação atual da doença no Brasil é bastante grave quando comparada a da Itália

Homem vestido de Homem-Aranha encontra papa Francisco após audiência no Vaticano -
Homem vestido de Homem-Aranha encontra papa Francisco após audiência no Vaticano – Franco Origlia/Getty Images

Críticas e preocupação

Durante o ano passado, membros da Igreja Católica haviam expressado preocupação com a decisão de Francisco de sair de sua residência e cumprimentar fiéis sem o uso de máscara. No início de outubro, quando o pontífice apareceu em uma audiência com o rosto descoberto e beijou a mão de fiéis, oficiais do Vaticano chegaram a expressar publicamente seu receio, especialmente porque naquele momento a Itália lutava contra o pior momento da pandemia no país, com cerca de 35.000 novos casos diários.

Após a cena ser descrita como “um desastre” pela imprensa local, Francisco compareceu à audiência semanal seguinte novamente sem máscara, mas manteve distância dos fiéis. “Desculpe se hoje os saúdo de longe. Estou seguindo os regulamentos, o que será uma ajuda para lidar com este vírus”, disse.

Em eventos seguintes, porém, Francisco voltou a aparecer sem máscara e até hoje é comum que o religioso compareça às audiências semanais com o rosto descoberto. Em um encontro com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez em outubro, os dois foram fotografados sem a proteção.

Não está claro porque o papa demonstra resistência em utilizar a máscara em algumas ocasiões, apesar das diretrizes do Vaticano estipularem o uso da peça como obrigatório pelos funcionários da cidade-Estado e diversas organizações terem cobrado que o pontífice dê um bom exemplo para a população.

Desde o início da pandemia, o pontífice é motivo de preocupação entre as autoridades do Vaticano, pois além de ter 84 anos, teve parte de um pulmão removida por uma doença durante sua juventude na Argentina.

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Discurso consciente e realidades distintas

Francisco, porém, sempre adotou um discurso responsável em relação à pandemia, encorajou o uso de máscara, o cumprimento do distanciamento social e a vacinação. Como muitos dos críticos do comportamento do presidente Jair Bolsonaro notaram, o papa também já está vacinado atualmente e vive em um país onde a situação sanitária é menos grave do que no Brasil.

Em junho passado, o pontífice elogiou os profissionais de saúde e os padres “obedientes e criativos” que serviram durante a pandemia do coronavírus. Quanto aos padres que desafiam as medidas e diretrizes de segurança, Francisco comparou seu comportamento ao de “adolescentes resistentes”.

Em seu novo livro “Vamos Sonhar Juntos: O Caminho Para Um Futuro Melhor’, lançado em dezembro, o papa ainda criticou aqueles que colocam a culpa pela pandemia em imigrantes e desaprovou os protestos realizados contra o fechamento de igrejas e a obrigatoriedade do uso de máscaras.

“Alguns dos protestos durante o coronavírus trouxeram à tona um espírito raivoso de vitimização”, escreve ele, “mas desta vez entre pessoas que são vítimas apenas em sua própria imaginação: aqueles que afirmam, por exemplo, que serem forçados a usar a máscara é uma imposição injustificada do Estado, mas que se esquecem ou não se preocupam com quem não pode contar, por exemplo, com a segurança social ou com que perdeu o emprego”.

Em 13 de janeiro, Francisco recebeu a 1ª dose da vacina Pfizer/BioNtech contra a Covid-19. A 2ª dose foi administrada em 3 de fevereiro. O religioso se posicionou a favor da imunização em diversos momentos. “Acredito que todos deveriam receber a vacina”, disse em janeiro. O papa afirmou que não tomar o imunizante é colocar “em risco a vida de outras pessoas”. 

O Vaticano não registra casos de coronavírus desde outubro de 2020 e já vacinou toda a sua população. A cidade-Estado ficou fechada para turistas e fiéis por boa parte do ano, à medida que os casos de Covid-19 avançavam. Além da situação financeira precária causada pela pandemia, a Santa Sé chegou a ter de isolar Francisco por conta de casos de coronavírus de assessores próximos. 

Atualmente, porém, vacinação corre com mais velocidade na Itália do que no Brasil. Cerca de 53% da população italiana está ao menos parcialmente vacinada contra a Covid-19, índice que cai para 31% no Brasil, de acordo com o portal Our World in Data.   

De acordo com o Ministério da Saúde italiano, foram registrados apenas 835 casos e 31 mortes na última terça-feira, 22, enquanto o Brasil teve 87.822 contágios, número mais de 100 vezes maior, e 2.131 óbitos, cifra quase 70 vezes superior à do país europeu.   

Diante da queda contínua nos casos e nas hospitalizações por Covid-19, o governo italiano decidiu suspender a exigência de que as pessoas usem máscaras faciais ao ar livre a partir da próxima segunda-feira, 28. O governo de Mario Draghi também vem suspendendo as restrições desde abril, abrindo atividades como restaurantes, bares, cinemas e academias e permitindo a liberdade de movimento em todo o país.

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