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Os erros que fizeram os EUA baterem recordes de contaminação e mortes

Rico e poderoso, o governo americano deveria ser o mais preparado para lidar com a pandemia, mas tropeçou em equívocos e indecisões

Por Julia Braun - Atualizado em 8 Maio 2020, 10h58 - Publicado em 8 Maio 2020, 06h00

A rapidez da propagação do novo coronavírus sempre foi um dos fatores mais impressionantes de sua trajetória, seja na China, onde começou, seja na Itália, a primeira “zona vermelha” na Europa. Quando a espiral de contaminação chegou aos Estados Unidos, a expectativa era de que a nação mais rica do planeta encontraria formas de evitar a repetição da trágica escalada de contágio e mortes. Aconteceu o contrário: os números americanos da pandemia estão batendo recordes dramáticos. Passados menos de quatro meses desde o primeiro registro de Covid-19 documentado na cidade de Seattle, na Costa Oeste, em 21 de janeiro, os Estados Unidos contabilizam em seu território um terço de todos os casos confirmados do planeta (cinco vezes mais do que qualquer outro país) e quase 30% do total mundial de mortes. A conta do fracasso recai, em grande parte, na falta de iniciativa e na indecisão do governo de Donald Trump, dividido desde o início entre a corrente “científica”, que prioriza a contenção do contágio e é apoiada pela maior parte da população, e a ala pragmática, opção preferencial do presidente, que acha válido sacrificar a prevenção para salvar a economia (lembra algum outro país?).

Os Estados Unidos registravam na quinta-feira 7 mais de 1,2 milhão de pessoas contaminadas e 73 000 mortos, vítimas de uma doença que Trump, no fim de janeiro, dizia ter pouca gravidade, estar sob controle no país e sucumbir ao calor do verão “como por milagre”. A Casa Branca demorou quase sessenta dias para se render às evidências e passar a recomendar o distanciamento social, que sua própria força-tarefa de cientistas, sendo o mais destacado o imunologista Anthony Fauci (veja quadro na pág. 70), considerava essencial para encarar a pandemia sem uma explosão de fatalidades. No intervalo, a decisão dos Centros de Controle de Doenças (CDC) de distribuir uma versão própria de testes de detecção do vírus resultou em lotes de kits defeituosos. Pouco mais de 200 000 americanos são testados diariamente hoje em dia. Um estudo da Universidade Harvard indica que, para “voltar a estimular completamente a economia”, o número precisa chegar a 20 milhões de testagens por dia até o fim de julho (aí incluídas as retestagens). “Por causa dos atrasos, perdemos a chance de agir quando ainda era possível controlar a epidemia monitorando as linhas de transmissão”, disse a VEJA a epidemiologista Maria Lahuer­ta, da Universidade Columbia.

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Quando a pandemia chegou, os Estados Unidos contavam com a maior disponibilidade de leitos de UTI do mundo — 34,7 para cada 100 000 habitantes — e invejáveis 160 000 respiradores. O combate à doença, no entanto, foi prejudicado pela escassez de equipamentos paralelos ao tratamento, como aparelhos de hemodiálise. Além disso, mais de 28 milhões de americanos fogem dos caros hospitais porque não têm plano de saúde, e o número deve inflar à medida que mais pessoas se unem ao contingente de 33 milhões de desempregados — esses planos são quase sempre atrelados aos salários. “A pandemia está expondo o problema da falta de um serviço de saúde pública no país”, avalia Christopher Beyrer, professor de saúde pública da Johns Hopkins.

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Não bastassem as falhas estruturais, Trump, o político em busca de reeleição, comprou briga com Andrew Cuomo, o governador democrata de Nova York — o estado mais devastado pelo novo coronavírus — e demorou a repassar recursos não só para ele, mas para a maioria dos governos estaduais. Na falta de uma estratégia centralizada em Washington, cada estado reagiu a sua maneira, e o vírus que apareceu primeiro na Costa Oeste e, em seguida, tomou de assalto o Leste espalhou-se sem controle pelo território entre os dois extremos. O CDC identificou a primeira transmissão comunitária, ou seja, não vinda de fora, no fim de fevereiro, quando ela já tinha acontecido havia vinte dias pelo menos, segundo investigações posteriores. O foco do governo àquela altura ainda era a ameaça vinda do exterior — uma das primeiras medidas assinadas por Trump foi a proibição da entrada de passageiros vindos da China. Já a suspensão dos voos da Europa, principal causa de contaminação na Costa Leste, só foi decretada no dia 11 de março — duas semanas depois, os Estados Unidos ultrapassariam China e Itália, então campeões, em número de casos confirmados. Justamente na dolorosa chegada a esse patamar, Trump manifestou a intenção de encerrar a recomendação de isolamento e reabrir o comércio e os serviços no domingo de Páscoa (12 de abril), “um dia muito especial para mim”. Foi vencido pelo turbilhão de casos confirmados, que já passavam de meio milhão.

Muito antes de a evolução do vírus estar estabilizada, e com previsões de 3 000 mortes por dia no fim de maio e um total de 135 000 até agosto, mais de trinta governos estaduais já começaram a suspensão gradual do isolamento social. “A retomada das atividades neste momento preocupa principalmente porque não há controle de circulação de pessoas entre os estados, facilitando novos surtos”, alerta a epidemiologista Maria. A nova data para a abertura geral é o fim de maio, marcada sem que se aviste nenhum indicador de situação controlada no âmbito nacional, como vagas em UTI e testes em massa. O mundo, pasmo com a incompetência da nação mais poderosa — da qual depende o bem-estar da maioria —, aguarda os próximos acontecimentos.

Publicado em VEJA de 13 de maio de 2020, edição nº 2686

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