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Os desafios de Felipe VI, novo rei da Espanha

Herdeiro de Juan Carlos tem a tarefa de recuperar prestígio da monarquia

Para quem esperava uma cerimônia suntuosa, a solenidade em que Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grecia, o príncipe de Astúrias, tornou-se oficialmente o rei Felipe VI pode ter sido um pouco frustrante. Nenhuma família real europeia ou líder estrangeiro recebeu convite para a cerimônia em Madri. A proclamação enxuta reflete o contexto em que o novo monarca assume o trono, com grandes desafios pela frente.

Aos 46 anos, o novo rei assume em meio a uma persistente onda de indignação e desencanto com as instituições, que os espanhóis culpam pelos problemas econômicos do país. Pesquisa publicada pelo jornal El País depois do anúncio da abdicação de Juan Carlos mostrou o mais baixo nível de aprovação da monarquia no país. É nesse ambiente que Felipe terá de se mostrar conciliador para tentar restaurar o prestígio da monarquia. “Vamos ver se Felipe pode de alguma forma atuar como moderador e formador de consensos no que se tornou uma situação política e social muito tensa”, disse ao jornal The New York Times o historiador Santos Juliá.

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A recente recuperação da longa recessão ainda não é sentida e a crise deu novo fôlego a tensões territoriais alimentadas pelos nacionalismos basco e catalão, e ampliou a demanda por uma reforma dos partidos e instituições políticas manchados pela corrupção. Ele pode influir em um pacto para resolver o conflito com a Catalunha e o País Basco, por exemplo, mas resolver a questão dependerá mais das forças políticas do que do monarca. “De dom Felipe espera-se que mantenha a unidade social e territorial da Espanha, mas isso será muito difícil se as lideranças saídas das urnas continuarem enroscadas, aguardando que o rei circule sozinho pelo tabuleiro”, ressaltou artigo recente do jornal espanhol.

O jornal El País aponta como vantagem o fato de o rei ter quase nenhum poder na Espanha, cumprindo basicamente a função de representar o país, ou funções arbitrais e moderadoras. Isso permitiria a Felipe VI manter-se fora de confrontos partidários. Mas o novo rei terá de enfrentar os problemas da própria monarquia, desacreditada pelos súditos e maculada por uma série de escândalos, incluindo o indiciamento por lavagem de dinheiro e fraude fiscal da infanta Cristina, sua irmã, e uma luxuosa viagem de Juan Carlos à África para caçar elefantes a convite de um magnata saudita. Uma forma de lidar com a questão será dar mais transparência e austeridade à Casa Real.

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Os problemas com os quais Felipe VI terá de lidar são bem diferentes dos enfrentados por seu pai, em 1975. Após a Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), o general Franco assumiu o poder com um golpe de Estado. Ao contrário dos republicanos, o ditador tinha grande apreço pela monarquia e nomeou Juan Carlos “sucessor a título de rei”. Ao ser proclamado rei, sua missão era assegurar a transição para a democracia, o que foi garantido por uma nova Constituição segundo a qual todos os atos do rei devem ser referendados pelo governo eleito.

Por enquanto, a continuidade da monarquia está assegurada. Nem que seja pelo rechaço do primeiro-ministro Mariano Rajoy aos protestos que se seguiram ao anúncio da abdicação, pedindo um referendo a favor da República. Ou pela proibição de exibir bandeiras republicanas no caminho percorrido pelo novo rei, pela rainha Letizia e as filhas do casal até o Palácio Real, depois da proclamação na Câmara dos Deputados.