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Organização de mineiros coloca governo contra a parede

Operários exigem do estado que garanta seus salários até que acabe o contrato

Por Manuela Franceschini, de Copiapó, no Chile 30 ago 2010, 16h06

Um ônibus com 70 mineiros chegou ao acampamento da mina San José nesta segunda-feira. Com o rosto fechado e uniformizados, caminharam em silêncio até o centro de apoio, onde ficam as autoridades chilenas. Entraram todos para uma reunião de cobrança. O Sindicato de Mineradores do Chile quer uma posição sobre os 250 mineiros que trabalhavam nesta mina e estão parados por conta do acidente que mantém presos 33 trabalhadores desde o dia 5 de agosto. Além disso, querem respostas. “Por que deixaram que uma empresa criminosa trabalhasse por tanto tempo?”, questiona o representante da organização, Javier Castillo.

Horas antes, o secretário regional de saúde da região do Atacama, Raul Martinez, renunciou ao cargo. Ele havia renovado o alvará de funcionamento da mina no dia 28 de julho, após passar 25 dias fechada por conta de um acidente com um trabalhador que perdeu uma perna. “O governo tem responsabilidade sobre isso. Se trabalhamos nessas condições, sabendo que uma mina é perigosa, é por problemas sociais e porque existe um governo que não fiscaliza, que permite uma coisa dessas. Podia ser qualquer um de nós preso lá embaixo, podia ser qualquer mineiro chileno”, disse Castillo.

Na reunião, enfrentaram um impasse. Os mineiros querem que o governo garanta seus salários até que acabe o contrato que tinham com os donos da mina, e que se encarregue de um futuro para eles. “Se o estado não quiser assumir essa responsabilidade, será fatal para ele. O presidente Sebastián Piñera se comprometeu, então viemos cobrar sua palavra”, disse Otavio Cervantes, dirigente sindical.

Dificuldades – No entanto, a situação é complicada. O ministro de Minas, Laurence Golborne, informou que não pode arcar com o pagamento dos salários por conta da legislação do país, e ofereceu 180 vagas em outras minas. Ocorre que, para a admissão nas mineradoras disponibilizadas pelo Estado, eles deverão passar por um teste de saúde. A maioria não será aprovada. “Trabalhamos a vida inteira em péssimas condições, temos problemas no pulmão, na coluna. Não nos empregarão. Perderemos esse emprego aqui e ficaremos sem nada. O que vamos fazer? Só sei ser mineiro”, afirmou Cervantes.

As minas com mais estrutura de segurança para o trabalho contratam mineiros que tenham certificados de cursos técnicos, o que não é o caso de nenhum dos 250, nem da maioria dos mineiros do país. Em geral, a profissão passa de pai para filho, que aprende na prática. Segundo o ministro, os cuidados com os 250 mineiros serão prioridade para o governo de Piñera nesta semana. “Nos preocupamos também com os mineiros que estão fora da mina, queremos que tenham seus direitos resguardados”, disse. Foi estabelecido um prazo de uma semana para que voltem a conversar.

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