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Odebrecht e a trama de corrupção e morte na Colômbia

País investiga morte de testemunha-chave de desvios na construção da Estrada do Sol II e de seu filho, envenenado por cianureto

Por AFP Atualizado em 17 nov 2018, 11h53 - Publicado em 17 nov 2018, 11h11

A investigação na Colômbia sobre os subornos pagos pela Odebrecht tem resultados menos espetaculares que em outros países, mas as mortes de uma testemunha-chave e de seu filho – envenenado – introduziram incerteza e dramatismo na maior trama de corrupção descoberta na América Latina.

Dez países da região estão envolvidos na rede de subornos montada pelo grupo brasileiro para obter contratos. O escândalo, que explodiu em 2014 com a Lava Jato no Brasil, entra agora por caminhos violentos na Colômbia.

O engenheiro Jorge Pizano, que sofria de um câncer linfático, morreu por um aparente infarto no dia 8 de novembro. Pizano foi auditor financeiro do consórcio formado pela Odebrecht e a Corficolombiana, empresa do homem mais rico da Colômbia, o influente banqueiro Luis Carlos Sarmiento.

  • Três dias depois da morte do engenheiro, no domingo passado, seu filho Alejandro morreu envenenado com cianeto após beber água em uma garrafa que estava no escritório de Pizano.

    A morte de Alejandro provocou a abertura de uma investigação sobre o óbito de Jorge Pizano, testemunha-chave no caso envolvendo a Odebrecht e a construção da Estrada do Sol II, que liga o centro ao norte do país.

    Nesta sexta-feira, o exame realizado no corpo de Pizano “deu resultado negativo para cianeto”. “Não se encontrou cianeto em qualquer dos tecidos e nem na solução onde estavam os tecidos”, declarou Carlos Eduardo Valdés, diretor do Instituto de Medicina Legal.

    O corpo de Pizano foi cremado, mas o centro médico conservou certos tecidos que permitiram os exames.

    Pizano deixou informações gravadas – para o caso de falecer ou receber proteção no exterior – de que o atual procurador-geral da Nação, Néstor Humberto Martínez, sabia desde 2013, antes de chegar ao cargo, do esquema de corrupção da Odebrecht no país.

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    “Ele era a prova de que os subornos na Colômbia não foram apenas da Odebrecht. Havia uma teia de corrupção formada desde o início da concessão da obra (…) conquistada pela Odebrecht em associação com Luis Carlos Sarmiento”, disse a jornalista María Jimena Duzán, que conversou com Pizano horas antes de sua morte.

    Apesar da doença, Pizano não aparentava desânimo e o que ocorreu com seu filho aumenta as suspeitas em torno de sua morte. “Pizano temia ser morto pelo que sabia do caso da Estrada do Sol”, revelou o senador Gustavo Petro, baseado em informações que obteve com seu assessor de imprensa.

    Segundo Petro, o ex-auditor tentava um acordo com a justiça dos EUA, a quem a Odebrecht entregou provas sobre a rede internacional de corrupção em 2016.

    Pizano seria ouvido pelas autoridades colombianas, mas o depoimento foi adiado porque o procurador encarregado do caso sofreu um grave acidente de trânsito.

    Em meados de outubro, o procurador Amparo Cerón sofreu um acidente de trânsito durante suas férias no Chile e passou vários dias na UTI, ficando impedido de retornar à investigação.

    Na gravação entregue ao Canal Uno, Pizano revelou que compartilhou suas suspeitas com Martínez sobre a Estrada do Sol. Martínez declarou que não denunciou o caso porque Pizano “não tinha certeza” de que suas suspeitas configuravam crime. O procurador-geral Martínez também alegou em sua defesa a decisão de se afastar do caso diante do evidente conflito de interesses.

    A Odebrecht pagou mais de 3 bilhões de dólares em subornos na América Latina e em países como Angola e Moçambique, segundo investigações.

    Na Colômbia, a Procuradoria identificou 32,5 milhões de dólares em subornos envolvendo seis contratos, incluindo dinheiro relacionado a campanhas presidenciais.

    A Odebrecht expressou pesar pelas mortes na sexta-feira e disse que continuaria a colaborar com as autoridades judiciais colombianas.

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