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O bom-senso não tem fronteiras

Na semana passada, representantes de 164 países assinaram em Marrakesh o Pacto Global para a Migração

Por Fábio Altman 14 dez 2018, 07h00

Flagrantes como o da fotografia acima, em que guatemaltecos se sentam diante de uma cerca que separa os Estados Unidos do México, são comuns neste século XXI — eles fazem parte do grupo de pessoas que saiu da América Central a caminho do território americano em busca de emprego e alguma dignidade. Segundo estimativa das Nações Unidas, cerca de 258 milhões de pessoas em todo o mundo hoje estão deslocadas, migrando daqui para lá — é o equivalente a 3,4% da população global. Trata-se de um problema incontornável, e o pior que se poderia fazer a respeito seria jogá-lo para debaixo do tapete. Na semana passada, representantes de 164 países assinaram em Marrakesh o Pacto Global para a Migração, um modo de imprimir alguma organização e respeito aos direitos humanos em uma movimentação quase sempre vista com olhares xenófobos. O Brasil foi um dos signatários. Os Estados Unidos se recusaram até mesmo a colaborar na redação do texto, ainda em 2017. Donald Trump nunca alimentou dúvidas em torno do tema, a ponto de ter prometido, durante sua campanha, a construção de um muro para separar os Estados Unidos do México, pago pelos mexicanos. É postura que combina à perfeição com a cartilha de Ernesto Araújo, o chanceler escolhido por Jair Bolsonaro — e que já chamou Trump de “Deus”. Araújo foi ao Twitter e avisou que logo mais o Brasil também sairá do acordo: “O governo Bolsonaro se desassociará do Pacto Global de Migração que está sendo lançado em Marrakesh, um instrumento inadequado para lidar com o problema. A imigração não deve ser tratada como questão global, mas sim de acordo com a realidade e a soberania de cada país”. É um ponto de vista — mas ele segue na contramão do bom-senso acordado internacionalmente.

Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2018, edição nº 2613

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