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O agro brasileiro e o risco da narrativa desastrada sobre a Amazônia

Brasil pode ser potência agro sem deixar de ser potência ambiental, mas deve abandonar a linha de confrontação a cada manifestação externa

Por Creomar Lima Carvalho de Souza * Atualizado em 23 ago 2019, 15h57 - Publicado em 23 ago 2019, 14h12

Ninguém duvida da capacidade de o agronegócio brasileiro produzir de maneira eficiente, com aumento da produção sem avançar sobre áreas protegidas. A parte mais moderna no nosso agro investiu em pesquisa, tecnologia, automação e manejo sustentável de fontes hídricas, cumprindo à risca o Código Florestal e ajudando o país a implementar os compromissos internacionais em meio ambiente e mudança do clima. O Brasil pode e deve ser uma potência agrícola, ator fundamental para garantir a segurança alimentar no mundo, sem que para isso deixe de ser uma potência ambiental. Hoje, mais do que nunca, uma potência agrícola de sucesso precisa também demonstrar compromisso com o desenvolvimento sustentável, a redução de emissões de CO2 e a preservação da biodiversidade.

Em entrevista recente, o ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi reconheceu que o Brasil fez um esforço enorme para alcançar um equilíbrio entre seu perfil de potência agroexportadora e líder mundial em meio ambiente e mudança do clima. Produtor que é, Maggi identificou no discurso hegemônico no atual governo um risco crescente, ao afastar-se daquele equilíbrio tanto no discurso quanto nas políticas ambientais. O risco não é pequeno, como bem recordou o ex-ministro, escolado na arte de combater argumentos protecionistas travestidos em roupagens ambientalistas. Como ele bem recordou, não é preciso muito para que mudanças na política ambiental ou discursos inflamados contra aqueles que demonstram interesse na preservação da Amazônia sejam utilizados como pretextos perfeitos para fechar mercados.

Não por acaso, o posicionamento recente do presidente Emmanuel Macron, da França, exortando a comunidade internacional ao combater o incêndio de “nossa casa” dá a dimensão exata do ponto de vista político do quão arriscada é a posição assumida até aqui pelo governo Bolsonaro para o agro nacional. E em termos econômicos, os potenciais prejuízos para o agronegócio não devem ser minimizados. O setor, em 2018, exportou  102 bilhões de dólares e importou 14 bilhões de dólares, gerando um saldo positivo de 88 bilhões de dólares, um recorde absoluto. E quando se citam esses dados, por trás há várias cadeias produtivas envolvidas, da pesquisa em sementes ao tratamento do solo, da automação e monitoramento usando modernas tecnologias da informação e comunicação à geração de energia limpa, passando por investimentos em transporte e logística. Em suma, o agro é um motor de crescimento, geração de emprego e indutor da inovação e da competitividade sistêmica da economia. Se o agro perder mercado, é o Brasil como um todo que empobrecerá.

É por esse motivo que todo cuidado é pouco. Não se justifica a reação irada do presidente Jair Bolsonaro ao anúncio de que Alemanha e Noruega cancelaram repasses para projetos de sustentabilidade na Amazônia por conta do aumento do desmatamento. O presidente mandou Alemanha usar os recursos para reflorestar o país e postou um vídeo de caça a baleia como se fosse na Noruega, embora fosse nas Ilhas Faroé (Dinamarca). O discurso tido como nacionalista é limitado e contraditório, ao menos nesse caso. De acordo com essa linha de raciocínio, os países europeus instrumentalizariam ONGs internacionais para abocanhar nossos recursos ou, pior, impedir seu uso para o desenvolvimento brasileiro.

O maior risco à soberania nacional não é a França, a Noruega, a Alemanha ou as ONGs, mas a ausência do poder público e a falta de vontade política de fazer cumprir a lei

Sem minimizar o risco de que organizações não governamentais (ONGs) possam em alguns casos ser usadas para atingir objetivos menos nobres, o tema é mais complexo do que aparenta. O governo admite que a preservação é importante e que o desenvolvimento tem de ser sustentável, então por que rejeitar aliados internacionais para atingir esses objetivos? Se o desenvolvimento sustentável é o que queremos, se a preservação da Amazônia é de nosso interesse, é preciso usar parcerias internacionais a nosso favor. A sua rejeição tende a semear dúvidas sobre o compromisso real do país com a sustentabilidade, o que pode ferir de morte nosso agronegócio.

Ainda que os motivos de outros países nem sempre sejam altaneiros, temos de trabalhar com a realidade dos fatos: hoje, cada vez mais, o selo de ambientalmente sustentável, ainda que não seja suficiente, é condição necessária para evitar medidas protecionistas, boicotes de consumidores e prejuízos à imagem da qualidade dos produtos brasileiros no exterior. É possível dizer que, ao demonstrar preocupação ambiental, lideranças internacionais encontram escusas perfeitas para acomodar interesses internos protecionistas a partir de uma agenda positiva, a ambiental.  Nestes termos, se o Brasil insistir numa linha de confrontação, rejeitando toda manifestação externa como ingerência indevida, em vez de engajar-se no diálogo e mostrar compromisso real com o meio ambiente – inclusive o combate ao desmatamento e a prevenção de queimadas – o resultado poderá ser desastroso. E não vale fugir à responsabilidade apontando os erros dos outros. Um erro não justifica o outro.

É importante forjar parcerias para a sustentabilidade e dar mostras de que o desenvolvimento sustentável, inclusive na Amazônia, é de nosso próprio interesse. Esse ajuste na estratégia é fundamental para usar as riquezas da região e proteger nosso agronegócio contra investidas protecionistas. O maior risco à soberania nacional não é a França, a Noruega, a Alemanha ou as ONGs, mas a ausência do poder público e a falta de vontade política de fazer cumprir a lei. A parte moderna do nosso agro, responsável pelo êxito global do Brasil, já se deu conta de que, para preservar ganhar e ter êxito na economia global, o país precisa valorizar seu patrimônio ambiental e seus compromissos internacionais na matéria.


  • Fundador da Dharma Political Risk and Strategy, professor universitário, doutorando em Política Comparada no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, foi observador convidado pela Embaixada dos Estados Unidos na eleição presidencial americana de 2016 e ex-Visiting Faculty na Universidade da Flórida.
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