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Novos documentos apresentam mais detalhes sobre ‘voos da morte’ na Argentina

Buenos Aires, 15 dez (EFE).- As fotografias de vítimas dos ‘voos da morte’ da ditadura militar argentina entregues nesta quinta-feira à justiça pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) constituem uma prova documental de excepcional importância sobre a repressão daquela época, segundo responsáveis do organismo interamericano.

Os ‘voos da morte’ foram uma atroz prática na Argentina, durante o chamado Processo de Reorganização Nacional (1976-1983), quando milhares de prisioneiros do regime foram atirados de aviões militares ao mar vivos e drogados.

Cerca de 30 anos depois do final da ditadura militar argentina, o secretário-executivo da CIDH, Santiago Cantón, entregou hoje ao juiz federal Sergio Torres 130 fotografias e históricas de vítimas do regime que permaneciam nos arquivos da Comissão desde 1979.

A documentação, explicou Cantón em declarações à Agência Efe, ‘contém uma descrição detalhada do estado dos corpos, as autópsias, de quem encontraram os restos, de oficiais que intervieram nestes casos’.

A informação, acrescentou, ‘pode provar claramente a existência de um plano sistemático em relação com os voos da morte’, e sua importância aumenta, além disso, por serem ‘dados imediatos à sucessão dos fatos’.

‘Hoje em dia há provas testemunhais do ocorrido há 30 anos, mas esta documentação contém informação do momento e tem um grande valor probatório’, continuou.

O secretário-executivo da CIDH está convencido que as provas podem revelar a identidade de centenas de vítimas. ‘Até o momento não tinha havido uma prova documental de tanta importância’, afirmou.

São vítimas como a jovem cujo corpo apareceu no dia 22 de abril de 1976 em Laguna de Rocha, no Uruguai, com ‘sinais de estupro com objetos perfurantes; fraturas múltiplas e cotovelo quebrado no braço esquerdo; destruição total de crânio e do maciço ósseo facial’, segundo o histórico entregue hoje ao juiz Torres.

Uma grande parte da documentação corresponde a vítimas da Escola de Mecânica da Marinha (Esma), maior centro de detenção clandestina da ditadura militar que, segundo organizações humanitárias, deixou 30 mil desaparecidos.

Cantón ressaltou que não há certeza sobre a origem da documentação, mas meios de comunicação locais informaram hoje suspeitar de um militar dos serviços de inteligência da Prefeitura uruguaia, Daniel Rey Piuma, que em 1980 fugiu ao Brasil com arquivos oficiais.

O secretário-executivo da CIDH destacou que parte da documentação é inédita, embora haja imagens que na época, há três décadas, foram publicadas pela imprensa uruguaia, mas sem detalhes sobre a identidade das vítimas.

A Comissão, que tradicionalmente guardou com estrita reserva informações relativas ao tema, decidiu mudar de critério devido à solicitação apresentada pelo juiz Torres e à importância das provas para os processos judiciais desenvolvidos na Argentina, com o objetivo que ‘esta documentação auxilie a justiça’, concluiu.

Para Torres, ‘isto abre uma quantidade de possibilidades porque pode haver muitas mais fotos, abre um leque de possibilidades na causa da Esma e nos voos da morte’.

A documentação, frisou Cantón, será entregue a juiz Torres em caráter de ‘empréstimo’, enquanto durar o processo judicial aberto na Argentina e posteriormente voltará à Comissão, que estudará seu destino.

Esta é a segunda entrega recebida pelo juiz Torres, que viajou para Washington para revisar 80 caixas com históricos sobre denúncias recebidas pela CIDH.

Torres já julgou três pilotos da guarda costeira, um ex-suboficial naval e um advogado acusados de participar dos ‘voos da morte’, crime admitido pelo ex-repressor Adolfo Scilingo, que cumpre uma pena de 1.084 anos de prisão. EFE