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‘Não temos medo, não temos medo’, entoa Paris

Uma tarde de resistência ao terror na Place de la République

Parisienses, à exceção do infame e ainda hoje incômodo tempo da ocupação nazista, sempre gostaram de resistir, derrubando bastilhas. São mestres em levar pessoas às ruas, reunir multidões para demonstrar que “a insolência é a nova arma revolucionária”, como se anunciava em 1968, por cima dos paralelepípedos. O estado de emergência decretado pelo presidente François Hollande proíbe manifestações. E, no entanto, na tarde deste domingo, a Place de la République, a menos de 5 minutos de onde ocorreram os atentados aos bares e à casa de espetáculos Bataclan, foi espontaneamente transformada em palco de protesto. Em um canto, homens e mulheres levantam cartazes oferecendo “abraços grátis”, e abraços eram trocados.

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Numa das janelas ao redor da imensa praça uma bandeira francesa tremulava freneticamente. “O amor é mais forte que a raiva”, era o coro entoado ao ritmo das torcidas de futebol. “Não temos medo, não temos medo!” entoavam as milhares de pessoas na République. “On n’as pas peur!”. E cada canto de guerra era entremeado pela Marselhesa, com ênfase no mais famoso de seus trechos: “Aux armes, citoyens!”, urrado debaixo de uma fatia da praça conhecido como Esplanada Andre Tollet, de nome do presidente do Comitê Parisiense durante os anos de ocupação da Alemanha de Hitler. Aqui e ali, na République, brotavam grupos com canções de paz. “Hey Jude”, “All you need is love”, Beatles com Yves Montand, folhas secas a emoldurar o chão da ensolarada tarde de outono. Só houve breve interrupção, rapidamente transformada em alucinada correria, quando um estampido, muito provavelmente de um a bombinha como as de São João, soou como novo ataque, que evidentemente não foi.

Uma das preocupações do governo francês, para depois da garantia emergencial de dias tranquilos, é tentar entender no que pode resultar, em breve, os gritos de oposição ao terror cuja autoria foi assumida pelo autointitulado Estado Islâmico. No mundo das coisas reais, é difícil enxergar a França e a Europa amanhã, ameaçadas pelo fundamentalismo islâmico. Na ficção, o escritor Michel Houellebecq traça uma hipótese que até muito recentemente soava impossível e agora faz pensar, embora não tenha saído do plano ficcional, e dele tão cedo não sairá. Em Submissão, lançado na França na mesma semana do atentado contra o jornal satírico Charlie Hebdo, em janeiro, ao término do segundo mandato de um presidente que em tudo se parece com François Hollande, com a França mergulhada no caos político, o Partido Socialista fora do segundo turno das eleições presidenciais, os cidadãos têm de escolher entre uma certa Irmandade Muçulmana, de pregação moderada, e a direita da favorita Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen. Mohammed Ben Abbas, da Irmandade Muçulmana, é eleito. É ficção, por enquanto, como bem sabem os franceses que atravessaram a tarde na République.