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Nacional-cretinismo faz mal

Desprezar a força do nacionalismo é como reformar leis da natureza

Por Vilma Gryzinski - 23 nov 2018, 07h00

No mundo de Guerra nas Estrelas, o Império Galáctico vive querendo acabar com a República. É militarista, ultradisciplinado, vertical, detentor da força, embriagado pelo poder e pelo domínio sobre outros povos (todas as formas de vida humanoides e androides inventadas por Hollywood). George Lucas não criou essa galáxia do nada: bebeu na fonte dos mitos e arquétipos que vieram da noite dos tempos e ajudaram a alimentar o lado negro da força do nacionalismo, do Império Romano à Alemanha nazista.

Existe também, obviamente, o lado da luz dessa força, o que une povos numa “casa” onde todos identificam uma origem compartilhada, impulsionando-os quando o direito natural à liberdade e à determinação do seu próprio destino é ameaçado. Ou quando tem jogo da Copa do Mundo e uma espécie de mônada nos obriga a vestir camiseta verde e amarela, cantar músicas constrangedoras e sentir que a vida e a morte dependem de a maldita bola entrar naquela dobra cósmica.

O amplo espectro do nacionalismo voltou a ser assunto desde que fenômenos considerados impossíveis, como Donald Trump e o Brexit, chacoalharam um mundo onde os estratos superiores caminhavam alegremente para a superação do que consideravam um anacronismo do século XIX. Enquanto isso, os estratos inferiores continuavam gostando de bandeiras, fronteiras, instituições nacionais e outras manifestações de pertencimento a uma origem comum.

Emmanuel Macron meteu uma colher torta nesse caldo quando disse, para afrontar Trump, que o nacionalismo não só volta a ser uma ameaça para a Europa como representa o exato oposto do patriotismo. Deve estar dormindo muito pouco e trabalhando demais para fazer uma afirmação tão simplista e ilógica.

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Para dar uma ideia de como o nacionalismo abrange um leque complexo de fenômenos, basta passar os olhos na entrada sobre o assunto na Encyclopaedia Britannica. As figuras hoje associadas a ele são: Adolf Hitler, Jair Bolsonaro, Benito Mussolini, Giuseppe Garibaldi, Camillo Cavour, Yasser Arafat, Sun Yat-sen, Giuseppe Mazzini, Gabriel Dumont e Lajos Kossuth. Normalmente, os nomes citados, incluindo os dois últimos — o revolucionário patriota, primeiro governador-presidente da Hungria independente (durou menos de dois anos), e o caçador de búfalos canadense, líder de uma revolta de povos mestiços e nativos —, só poderiam estar juntos na República galáctica de George Lucas.

Aliás, a mais famosa frase sobre patriotismo, a do “último refúgio de um canalha”, foi dita por Samuel Johnson no âmbito de uma discussão sobre concessões aos colonos canadenses de origem francesa. Feio, doente, pobre e espantosamente genial, o doutor Johnson exaltava o “verdadeiro patriota”. Assim definido: “Patriota é o homem cuja conduta pública está submetida a um único princípio: o amor por seu país, aquele que em sua atividade parlamentar não abriga esperanças ou temores pessoais nem espera favores ou ressentimento, mas sim submete tudo ao interesse comum. Quem se atreveria a dizer que esta época degenerada é capaz de abrigar, entre quinhentos homens, uma maioria que responda a tão virtuoso princípio?”.

Isso porque estava falando sobre o Parlamento de Londres. Já pensaram se fosse em Brasília?

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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