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México: Lava-Jato envolve três ex-presidentes

Políticos são enredados no propinoduto mexicano, alimentado pela Odebrecht, e o governo de López Obrador tenta fazer disso um trunfo

Por Ernesto Neves Atualizado em 4 set 2020, 10h24 - Publicado em 4 set 2020, 06h00

Executivo de empresa petrolífera entrega à Procuradoria-Geral da República delação que complica a vida de dezesseis figurões da política nacional, entre eles três ex-presidentes. O esquema é mantido através de propinas pagas pela construtora Odebrecht a políticos que, em troca, lhe garantiam vantagens em obras e licitações. Parece o roteiro da Operação Lava-Jato, e contém, de fato, os mesmos elementos, só que desta vez a tristemente conhecida sequência de crimes se desenrola no México — o 13º país a se envolver em escândalos de corrupção que têm a empreiteira brasileira como epicentro. O propinoduto escancarado por uma bombástica delação premiada seria, por si só, motivo de protesto e desânimo da população. A situação se agrava, no entanto, diante das denúncias de que o governo do presidente Andrés Manuel López Obrador, o esquerdista AMLO, está manipulando a divulgação para tentar reconquistar a popularidade perdida e fortalecer seu partido antes das eleições de 2021.

A delação que veio à luz nas últimas semanas foi feita por Emilio Lozoya, ex-diretor da poderosa Pemex, a estatal mexicana de petróleo. Indiciado por crimes de formação de quadrilha, suborno e lavagem de dinheiro, Lozoya tenta reduzir o tempo de prisão relatando, entre outros pagamentos ilícitos, o depósito de ao menos 100 milhões de pesos (cerca de 25 milhões de reais) feito pela Odebrecht e pela siderúrgica mexicana Altos Hornos ao caixa dois do ex-presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018). Outra generosa doação, de valor quatro vezes maior, teria sido utilizada para alimentar um mensalão no Parlamento.

Destrinchadas ao longo de 63 páginas, as denúncias envolvem mais dois ex-presidentes, Felipe Calderón (2006-2012) e Carlos Salinas de Gortari (1988-1994), assim como três governadores, vários senadores e dois ex-diretores da Pemex. As revelações comprometem o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que mandou no México por meio século, e o conservador Ação Nacional (PAN), que passou a se revezar com ele no poder até AMLO e seu Movimento Regeneração Nacional (Morena) conquistarem a Presidência, em 2018. López Obrador fez questão de, em coletiva acompanhada pelo país inteiro, exibir ele mesmo vídeos em que assessores de parlamentares de oposição aparecem manuseando sacos de dinheiro. “O período neoliberal no México foi sinônimo de corrupção. Nós somos diferentes”, proclamou. Ao mesmo tempo, anunciou o cancelamento do consórcio entre a Pemex e a Braskem, braço petroquímico da Odebrecht, para a construção do complexo Etileno XXI, obra que, segundo ele, causou prejuízo de quase 700 milhões de dólares aos cofres públicos, e proibiu a empresa brasileira de participar de novas licitações.

DECEPÇÃO - López Obrador: as promessas de campanha não foram cumpridas – José Méndez/EFE

Avalista de uma cruzada contra a corrupção, o presidente, no entanto, mantém acusados de receber suborno em sua coalizão e nenhum peixe grande foi até hoje a julgamento. O instituto de estatísticas do próprio governo calcula que o valor médio das propinas pagas a servidores públicos aumentou 70%. Recentemente, vídeos gravados em 2015 e postados em redes sociais mostraram o irmão do presidente, Pio, com pacotes de dinheiro — seriam doações (nunca declaradas) de simpatizantes do Morena. Nesse cenário, o escândalo da Odebrecht, recheado de figuras da oposição, chegou em boa hora para AMLO. “Ele virou uma novela eficaz para desviar atenções”, diz Carlos Regidor, analista político do Centro de Investigação e Ensino Econômicos, da Cidade do México.

Decepcionados, os mexicanos têm ido às ruas se manifestar contra o governo por vários motivos. Depois de abrir os braços aos imigrantes, López Obrador cedeu à pressão dos Estados Unidos e impôs restrições nas fronteiras. Sempre que interpelado sobre seus insucessos, rebate dizendo “os dados que tenho são outros” e, seguindo um roteiro conhecido, faz veladas ameaças à imprensa para que “se comporte”. Neste momento, porém, as maiores críticas se concentram no combate ao novo coronavírus. O presidente relativizou quanto pôde o perigo da pandemia e adiou as medidas de isolamento social — até hoje duvida que a máscara seja uma proteção eficiente. Resultado: quase 600 000 casos e 65 000 mortes, o quarto maior número de fatalidades, atrás de Estados Unidos, Brasil e Índia. “O México ignorou várias recomendações da OMS”, lembra Malaquias Lopez-Cervantes, especialista em saúde pública da Universidade Nacional Autónoma.

Paralelamente, a economia mexicana, como a de todo o planeta, está em frangalhos — a previsão do FMI é que o PIB desabe 10% neste ano, a pior performance desde 1932. Outra promessa de campanha, a de pacificar o país, vem sendo afogada em sangue pela renovada violência dos cartéis de drogas. Em junho, os homicídios relacionados ao tráfico totalizaram 2 429, um novo recorde, e, se a média se mantiver, este será o ano mais violento da história do país. O triste balanço é um choque de realidade para quem saudou López Obrador como o nome novo que vai resolver os problemas do México.

Publicado em VEJA de 9 de setembro de 2020, edição nº 2703

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