Clique e assine a partir de 9,90/mês

Merkel demonstra preocupação com reabertura ‘muito rápida’ na Alemanha

Chanceler advertiu governadores por apressarem medidas: "Ninguém gosta de ouvir isso, mas não estamos na fase final dessa pandemia"

Por Da Redação - 23 Apr 2020, 11h01

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, alertou nesta quinta-feira, 23, que o país corre o risco de arruinar seus bons resultados no combate ao coronavírus ao promover uma “reabertura muito rápida”. Ela advertiu governadores regionais por tentarem apressar o afrouxamento das restrições de isolamento e disse que a disseminação da Covid-19 não pode ser menosprezada.

A potência europeia iniciou nesta semana uma reabertura gradual. Lojas com menos de 800 metros quadrados, além de concessionárias e livrarias, tiveram suas portas reabertas ao público, que, obrigatoriamente, deve utilizar máscaras faciais ao sair de casa. Escolas e barbearias devem reabrir em 4 de maio.

No entanto, o sistema político descentralizado do país permitiu que alguns dos 16 estados federais avançassem ainda mais com isenções especiais para empresas locais, permitindo a abertura de grandes lojas. Foi o que ocorreu na estado mais populoso da Alemanha, Renânia do Norte-Vestfália, cujo governador Armin Laschet defende há semanas a reabertura de playgrounds, escolas e creches infantis.

“A implementação desta estratégia me preocupa. Em algumas partes, parece rápido, para não dizer muito rápido”, disse Merkel nesta manhã em reunião com parlamentares no Bundestag, o Parlamento alemão. “Ninguém gosta de ouvir isso, mas não estamos na fase final dessa pandemia, mas no começo. Continuaremos a ter que conviver com isso por um longo tempo”, completou a chanceler.

Continua após a publicidade

Merkel descreveu a pandemia como “uma imposição à nossa democracia, pois restringe precisamente as coisas que compõem nossos direitos e necessidades existenciais”, mas disse que é preciso ter calma. “As estatísticas causaram uma falsa sensação de segurança.”

A chanceler recebeu apoio de cientistas renomados na Alemanha. Christian Drosten, diretor do Instituto de Virologia do hospital Charité, em Berlim, disse em seu podcast diário que a reabertura de shopping centers e lojas maiores pode provocar uma segunda onda da pandemia em maio e junho. Ao contrário do surto inicial, essa nova onda poderia ter vários pontos de partida e seria, portanto, mais difícil de rastrear e conter. “Com grande pesar, percebo que estamos fazendo uma aposta que contraria todo o avanço que tivemos”, disse Drosten.

A virologista Melanie Brinkmann, do Centro Helmholtz de Pesquisa de Infecções, criticou a comunicação do governo alemão sobre sua estratégia de saída. “Uma grande parte da população não percebeu a extensão da situação”, disse Brinkmann ao diário Der Spiegel. “No momento, as pessoas veem que algumas medidas estão sendo relaxadas, transmitindo a impressão de que todo o bloqueio será suspenso passo a passo e logo podemos voltar a viver normalmente. Ainda estamos no início da pandemia, muitos esquecem disso.”

A forma cautelosa como a chanceler vem lidando com a crise recebeu elogios de grandes lideranças internacionais, mas também foi alvo de críticas de políticos liberais alemães, que acusaram a política conservadora de desempenhar um papel mais executivo do que o previsto na constituição. “Ao lidar com a epidemia, a chanceler está prestes a assumir ilegalmente uma autoridade superior”, disse Wolfgang Kubicki, do Partido Democrata Livre e vice-presidente do Parlamento.

Continua após a publicidade

ASSINE VEJA

Covid-19: Sem Mandetta, Bolsonaro faz mudança de risco nos planos A perigosa nova direção do governo no combate ao coronavírus, as lições dos recuperados e o corrida por testes. Leia na edição desta semana.
Clique e Assine

A Alemanha é o quinto país mais infectado, atrás apenas de Estados Unidos, Espanha, Itália e França, mas tem uma proporção muito menor de mortes, devido ao rápido e eficiente combate no início do surto. Segundo dados mais recentes da Universidade Johns Hopkins, a Alemanha tem mais de 150.000 casos confirmados e cerca de 5.300 mortes decorrentes da Covid-19. 

Publicidade