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Macron deixa terceira via e se posiciona como candidato da centro-direita

De olho nas eleições presidenciais em 2022, presidente da França muda gabinete e aprova plano de governo para tentar recuperar popularidade

Por Caio Mattos - 15 jul 2020, 17h17

Antes dos fogos de artifício tomarem Paris durante a comemoração do Dia Nacional da França, na terça-feira, 13, o presidente francês, Emmanuel Macron, concedeu uma entrevista em rede nacional, uma tradição que nunca havia seguido. O aniversário da queda da Bastilha, no entanto, ficou em segundo plano. A tônica foi a reforma ministerial, iniciada ha duas semanas. Macron, que chegou ao poder defendendo uma terceira via na política francesa, usou o espaço para se assumir como candidato da centro-direita nas próximas eleições. 

Eu acredito na superação política. Quando eu olho para o governo, eu reivindico a superação política. É [uma questão de] escolher os melhores”, disse Macron na terça-feira.

A principal mudança na equipe é a substituição do primeiro-ministro, Edouard Phllippe, eleito prefeito da cidade de Le Havre, por Jean Castex, um conservador de direita. O plano do governo renovado para os próximos dois anos foi apresentado por ele e aprovado pelos deputados da Assembleia Nacional, a principal casa do Legislativo francês, nesta quarta-feira, 14.

Entre outros pontos, o discurso feito por Castex diante do parlamento defendeu a adoção de políticas públicas para combater a pandemia de Covid-19 e tratou de medidas de cunho ecológico, dois pontos sensíveis que minam a popularidade do governo. Por outro lado, o plano insiste em manter a proposta de reforma da previdência, que suscitou protestos em todo país e é apontada como um grande entrave para a reeleição do presidente francês.

Ex-prefeito da cidade de Prades, de apenas 6.000 habitantes, Castex é mais conhecido pelos seus papéis como burocrata do alto escalão dos governos de Nicolas Sarkozy e do próprio Macron. Até sua nomeação a Matignon, a residência oficial do primeiro ministro na França, ele era o responsável por planejar o processo de reabertura de país pós-Covid-19.

O ex-primeiro-ministro francês Édouard Philippe aplaude o recém-nomeado premiê, Jean Castex, na entrada de Matignon durante a cerimônia de entrega em Paris, França – 03/07/2020 Thomas Samson/Pool/Reuters

“Eu não estou aqui para procurar os holofotes, mas sim resultados”, disse o novo premiê no dia de sua posse, se apresentando como um tecnocrata.

O novo premiê chega com a missão de atuar no governo sem fazer sombra ao presidente. Em entrevista à VEJA, o cientista político Thomas Ehrhard, da Universidade Paris II, acredita que a escolha de Macron por uma pessoa com o perfil de Castex não foi casual . “Philippe tinha uma dimensão política nacional, diferentemente de Castex”, explica.

Embora aliado, Phillippe disparou em popularidade devido ao seu papel na contenção da Covid-19. Segundo uma pesquisa de junho da emissora de televisão LCI, o índice de aprovação do ex-primeiro ministro cresceu 13 pontos percentuais e atingiu 51%, ofuscando Macron, que permaneceu estável na casa dos 44%. Analistas dizem que Phillippe pode rivalizar com Macron nas eleições presidenciais, daqui a dois anos, disputando o mesmo campo ideológico.

Candidato da centro-direita

Após três anos de um governo marcado por reformas impopulares e polêmicas, as eleições municipais de 2020 expuseram o desgaste da plataforma centrista e liberal do La République En Marche (LREM), o partido criado por Macron, que venceu a presidência e o controle da Assembleia Nacional.

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O LREM não elegeu prefeito em nenhuma cidade com mais de 30.000 habitantes nas eleições municipais. Apenas três candidatos apoiados pelo partido de Macron, mas sem filiação, foram eleitos prefeitos em cidades grandes, dentre eles Philippe, que é independente.

À esquerda, a aliança entre o Partido Socialista (PS) e os Verdes (EELV) conquistou as prefeituras das principais cidades do país sob uma plataforma centrada na questão ambiental. O fenômeno foi batizado pela imprensa francesa de “onda verde”. Dentre as vitórias da coligação, o PS se manteve no poder em Paris e Montpellier, e o EELV conquistou Lyon, Marselha e Bordeaux.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, do Partido Socialista, comemora sua reeleição no segundo turno das eleições para prefeito – 28/06/2020

A Macron restou posicionar-se no tabuleiro como o candidato da centro-direita. O movimento pôde ser percebido no elenco de ministros convocado por Castex para compor o governo: a grande maioria é formada por políticos de carreira desse campo ideológico. Entre eles estão ex-integrantes do gabinete de Sarkozy. Outros são figuras polêmicas, como Gérald Darmanin, Ministério do Interior, acusado de estupro, que conta com o apoio do presidente.

“Macron deseja cercar-se de apoiadores fiéis ou colaboradores que não contestem sua autoridade”, diz à VEJA o cientista político Michel Hastings, da Sciences Po Lille, a respeito do  gabinete que destoa completamente do governo de especialistas que marcou o início da presidência, em 2017.  

Primeiro-ministro da França, Jean Castex, visita sua indicação ao Ministério da Justiça, o novato e polêmico Éric Dupond-Moretti em Bobigny, nos arredores de Paris – 08/07/2020 Charles Platiau/Pool/Reuters

Primeiros desafios

O novo time de Macron tem por objetivo correr atrás do prestígio perdido, em um quadro desolador pós pandemia. O governo prevê que a taxa de desemprego supere os 10% da força de trabalho (contra 8,1% em 2019) e que a economia contraia em 11% até o fim do ano. É à pior recessão do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

“A curto prazo, o novo governo precisará conter a crise econômica e social”, diz Hastings. Apenas durante abril, mais de 4,5 milhões de franceses foram demitidos e requisitaram auxílio-desemprego — o maior número em um mesmo mês desde 1996.

A reforma da previdência, que foi paralisada em março, está sendo reajustada com base nos impactos da Covid-19. O primeiro desafio de Castex será liderar a tramitação do projeto no parlamento. Aprová-lo não será uma tarefa fácil. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior organização sindical do país, já convocou novas mobilizações contrárias à medida. Sinal de que Macron pode trocar todo o gabinete, mas não muda as coisas tão facilmente na França. 

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