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Lava-jato israelense

Faltando pouco mais de um mês para as eleições, o procurador-geral da Justiça anuncia que vai apresentar denúncia contra Netanyahu por fraude e corrupção

Por Thais Navarro 8 mar 2019, 07h00

No Brasil, só flores: ele veio à posse de Jair Bolsonaro, seu país mandou ajuda às vítimas em Brumadinho, ministros daqui já andaram por lá e, no fim do mês, ele deve receber a visita do presidente brasileiro em pessoa. Mas em casa a vida do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, se complicou: após dois anos de investigação, o procurador-geral da Justiça, Avichai Mandelblit, anunciou que vai, sim, apresentar denúncia contra ele por corrupção, fraude e quebra de confiança. Habilidoso descascador de abacaxis em seus dez anos no poder, Netanyahu convocou rede nacional de TV para jurar inocência. “Eu garanto, cidadãos de Israel — este castelo de cartas vai desmoronar”, afirmou.

Apesar da garantia, é improvável que isso aconteça, diante dos fatos listados em um relatório de 57 páginas, quase todos já conhecidos devido a profusos vazamentos. Antes do indiciamento, Netanyahu será ouvido em audiência ainda sem data marcada e que deve demorar meses. Mas primeiro, em 9 de abril, haverá eleições gerais. “Ele tem apoiadores fiéis, porém, com a ameaça de processo, cruza uma linha vermelha”, diz Mark Tessler, professor de política do Oriente Médio na Universidade de Michigan. Se Bibi, como é chamado, conquistar seu quinto mandato, será o primeiro premiê levado a julgamento no exercício do cargo.

Netanyahu é acusado de agir ilegalmente em um punhado de casos que envolvem troca de favores. Em um deles, recebeu joias, charutos, garrafas de champanhe rosé e outros mimos de dois bilionários; em retribuição, apoiou com ímpeto um projeto de isenção de impostos que beneficiaria um deles — mas que, no fim das contas, acabou rejeitado. Por não haver prova do toma lá dá cá, Netanyahu deve ser indiciado por fraude e quebra de confiança. As mesmas duas denúncias aparecem na sua negociação com o publisher do Yediot Ahronot, um dos maiores jornais do país, para obter cobertura favorável e convencer outra publicação, de um grande apoiador seu, a reduzir sua circulação, beneficiando, assim, o Yediot Ahronot. A transação não prosperou.

A única acusação de propina recai sobre os contatos de Netanyahu com Shaul Elovitch, magnata das telecomunicações e dono de um dos principais sites de notícias de Israel. O primeiro-ministro fez vista grossa ou mesmo ajudou várias negociatas de Elovitch. Este, por sua vez, atendeu aos constantes pedidos de Netanyahu e da mulher dele, Sara, para divulgar fotos e notícias favoráveis ao casal (e abafar as desabonadoras). Sara responde a processo desde outubro por ter gastado 100 000 dólares contratando serviços de bufê, embora a residência oficial tenha seu próprio chef.

Netanyahu credita as acusações a manobras de inimigos políticos e vem preparando seu eleitorado para relevá-las nas eleições. Mas, mesmo que seu partido, o Likud, eleja mais deputados, o primeiro-ministro vai precisar fazer alianças e, aí, as denúncias podem pesar. Em um país acostumado a tremores políticos, a eleição que se avizinha vai chacoalhar mais do que as outras.

Publicado em VEJA de 13 de março de 2019, edição nº 2625

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