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Kofi Annan desembarca na Síria e afirma estar horrorizado

O emissário da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, desembarcou nesta segunda-feira em Damasco, onde se declarou “horrorizado” pela recente matança de Houla, que coloca em perigo seu plano de paz e foi duramente condenada pelo Conselho de Segurança da ONU.

“É um ato repugnante, de graves consequências”, completou Annan, que prevê se reunir com o presidente sírio, Bashar al Assad, representantes da oposição e o general Robert Mood, chefe da missão de observadores na Síria.

O ministro sírio de Relações Exteriores, Walid Muallem, recebeu Kofi Annan e o general Mood na tarde desta segunda-feira, constatou um fotógrafo da AFP.

Segundo a agência oficial Sana, o chanceler sírio explicou a Annan “a verdade sobre o que ocorre na Síria e os ataques contra a ordem que pretendem semear o caos”, apesar das “reformas que a Síria está adotando em todos os âmbitos”.

No momento em que Annan chegava a Damasco, França e Grã-Bretanha anunciaram a decisão de “atuar juntos para aumentar a pressão da comunidade internacional sobre Bashar al Assad”, e confirmaram a próxima realização em Paris da terceira conferência de “Amigos do Povo Sírio”.

Por sua vez, a oposição síria pediu aos países que a apoiam a entrega de “meios eficazes” para se defender da repressão do regime, e criticou a ONU.

Chamamos os amigos do povo sírio a “conceder imediatamente e antes que seja demasiado tarde os meios eficazes de auto-defesa”, afirma um comunicado do Conselho Nacional Sírio (CNS), que qualifica de “complacente e vergonhosa” a declaração adotada pelo Conselho de Segurança da ONU.

Esta visita de Annan à Síria, a segunda depois de sua designação como emissário, há três meses, ocorre no momento em que o cessar-fogo instaurado no dia 12 de abril como parte de seu plano é mais do nunca ignorado.

No domingo, 87 pessoas foram mortas, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), um dos registros mais pesados depois do estabelecimento da trégua.

Nesta segunda-feira, mais 36 pessoas morreram, incluindo 15 soldados e dois desertores em violentos combates perto de Damasco.

O OSDH, com sede em Londres, informou que a cidade de Hama, um dos focos dos protestos, foi atacada com foguetes e disparos de metralhadoras. Sete menores e cinco mulheres estão entre as vítimas.

A ofensiva ocorreu no momento em que o Conselho de Segurança da ONU condenava de forma unânime, em Nova York, as autoridades sírias pelo massacre de sexta-feira contra um bairro residencial em Houla, que deixou pelo menos 108 mortos, incluindo mais de 30 crianças.

Grandes manifestações foram realizadas pelo terceiro dia consecutivo para denunciar o massacre de Houla.

Em Habite, na província de Idleb (noroeste), era possível ler em uma faixa “A ONU nos mata”, uma expressão do descontentamento crescente dos militantes com a comunidade internacional, acusada de não agir.

O Conselho de Segurança da ONU condenou as autoridades pelo ataque a Houla, denunciando em uma declaração adotada por unanimidade “uma série de bombardeios efetuados por tanques e pela artilharia das forças do governo contra um bairro residencial”.

O Conselho exigiu que Damasco pare imediatamente de utilizar armas pesadas e retire suas forças das cidades, em conformidade com o plano Annan.

Os 15 países membros reafirmaram o seu apoio aos esforços do emissário e o encarregaram de transmitir “nos termos mais claros” suas exigências ao governo sírio.

A Rússia, aliada de Damasco, se juntou aos seus 14 parceiros, antes de considerar que as “duas partes”, regime e rebeldes, estavam envolvidas no massacre, citando a presença de pessoas feridas a queima-roupa, além de vítimas de disparos de artilharia.

Moscou, sob pressão crescente para condenar Damasco, evita adotar uma postura mais incisiva contra Assad, acusando alguns países de alimentar a violência, tendo como objetivo derrubar o regime de Damasco.

“Nós não apoiamos o regime sírio, apoiamos o plano de Kofi Annan, mas as potências internacionais têm que atuar no mesmo jogo, que é trabalhar para aplicar o plano de Annan e não para obter uma mudança do regime”, declarou o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

O presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, decidiram “aumentar a pressão” sobre Bashar al-Assad e confirmaram a realização em Paris da terceira conferência dos “Amigos do povo sírio”.

O Conselho Nacional Sírio (CNS), principal coalizão da oposição, exigiu aos países que o apoiam que forneçam “meios eficazes de autodefesa” para que enfrente a repressão.

Ele lamentou que o Conselho de Segurança tenha publicado “uma declaração não vinculante no momento em que crianças são massacradas com o total conhecimento do mundo inteiro”, denunciando “um ato de complacência vergonhoso”.

Damasco negou “totalmente qualquer responsabilidade do governo nesse massacre terrorista”.

Teerã e Pequim, que apoiam Damasco, condenaram o massacre, considerando que é preciso identificar os responsáveis, tentando poupar as autoridades.

Uma comissão conjunto Exército-justiça, encarregada por Damasco de investigar a violência, os mais graves desde a entrada em vigor do cessar-fogo, deve divulgar suas conclusões na quarta-feira.

A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch exigiu uma investigação da ONU, considerando que “enquanto os combatentes puderem operar com toda a impunidade, os horrores na Síria vão continuar”.

Em 14 meses, os episódios de violência deixaram mais de 13.000 mortos, sendo pelo menos 1.881 desde o início da trégua há um mês e meio, segundo o OSDH.