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Karzai chora em público ao falar sobre violência no país

Presidente confessa temer que seu filho seja obrigado a abandonar a terra natal e virar um 'estrangeiro'

Nem mesmo o presidente do Afeganistão parece acreditar na chance de seu país vencer a violência e o terrorismo. Hamid Karzai chorou em público nesta terça-feira durante um discurso em Cabul. O presidente se emocionou ao falar sobre o futuro de seu filho – Karzai teme que ele seja obrigado a abandonar o Afeganistão caso a paz não seja alcançada. Em meio ao ano mais violento desde a invasão americana em 2001, com a morte de militares e civis atingindo níveis inéditos, o presidente não consegue esconder sua apreensão quanto ao futuro do país.

“Não quero que meu filho Mirwais se converta em um estrangeiro em seu próprio país. Não quero isso”, afirmou o chefe de estado, enquanto tentava conter as lágrimas. “Quero que ele estude aqui. Juro por Deus, estou preocupado. Meus amigos, tenho muito medo de que Mirwais se veja obrigado a abandonar o país. Nossos filhos não podem frequentar a escola por medo das explosões, dos ataques suicidas e dos bombardeios. Vocês têm testemunhado o que está acontecendo na nossa terra. Somente por meio dos nossos esforços este país pode ser nosso.” O discurso, feito no Dia Internacional da Alfabetização, foi muito aplaudido.

Karzai passou muitos anos no exílio no Paquistão – primeiro durante a luta contra a ocupação soviética, nos anos 1980, e depois contra o regime do Talibã, desde o fim da década de 1990. O presidente falou aos professores, funcionários do ministério da Educação e alguns embaixadores para promover a educação no país, que tem um índice de analfabetismo de 80%. O discurso foi transmitido em rede nacional de televisão. No mesmo dia em que Karzai se emocionava ao falar sobre o futuro sombrio do país, o Afeganistão voltou a ser palco de um atentado terrorista.

No ataque, que aconteceu na região de Ghazni, um homem-bomba matou o vice-governador da província, Mohammad Kazim Allahya, além de outras cinco pessoas. Foi o mais recente episódio de uma longa série de assassinatos de altos funcionários no país. De acordo com uma estatística divulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU), 21 pessoas são mortas por semana em atentados no país. No início deste ano, o número não passava de sete. De acordo com as autoridades da província de Ghazni, os corpos das vítimas do atentado desta terça ficaram tão destruídos que ainda não foi possível identificar todas elas.