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Fui a 130 países de muletas

Depois de ficar quatro anos sem andar, o engenheiro Luiz Thadeu, de 60 anos, decidiu rodar o mundo

Minha vida mudou em 2003. Eu havia perdido um ônibus que iria do Rio Grande do Norte ao Ceará. Para pegá-lo já na estrada, tomei um táxi. O motorista foi atender o celular e bateu de frente com um caminhão. Sentado no banco traseiro, tive minha perna esquerda moída. Acordei em cima da caçamba de uma caminhonete, na qual fui transportado para um hospital em Natal. Não fazia ideia da extensão dos meus problemas. Como desgraça pouca é bobagem, depois da colisão, quando estava desmaiado e perdendo sangue, roubaram minha carteira. No hospital, houve outro desastre. O médico pôs um material para juntar os ossos esmagados que resultou em uma infecção. Por causa dela, saí do hospital apenas trinta dias depois. Usava um aparelho chamado Ilizarov, uma espécie de gaiola externa utilizada no tratamento de fraturas expostas, colada ao meu osso em dezoito pontos. Fiquei com essa gaiola durante dois anos e oito meses. Por duas vezes, os médicos sugeriram a amputação da perna. A recuperação foi longa. Passei por 43 cirurgias para a remoção de bactérias dos ossos, e em todas recebi anestesia geral. Tomava tanto remédio que meu estômago ficou irritado. Quando o aparelho finalmente foi retirado, tive de reaprender a andar. Não sentia segurança sequer para atravessar a rua. Depois de um longo tempo na cama e em cadeira de rodas, agora me locomovo de muletas. Com elas, estou cumprindo a promessa de rodar o mundo caso voltasse a andar.

A jornada começou em 2009, quando fui visitar um filho que estudava inglês na Irlanda e acabei viajando por outros seis países da Europa. Foi uma prova de fogo, ou melhor, de gelo. Minha conexão seria em Paris. Nevava e não havia finger, então andei de muletas em chão tomado por gelo. Hoje, com 60 anos, tenho orgulho de dizer que estive em 130 países. Na semana passada, o aeroporto de São Luís, de onde parto para o mundo, pôs uma placa para me homenagear. Mas estou apenas no meio da caminhada. Quero conhecer todas as 194 nações reconhecidas pela ONU. A aventura me move. Em um mesmo ano, fui aos dois extremos do planeta: Ushuaia, na Argentina, e Barrow, no norte do Alasca. No Camboja, ao ver a escadaria íngreme de um templo, tive a certeza de que minha curiosidade é maior que meu medo: fiz o percurso dos degraus com o bumbum. O mundo conspira a favor de quem gosta de sair de casa. Só fui deportado uma vez, em Bangladesh. Havia sido informado de que poderia pegar o visto de turista assim que desembarcasse no aeroporto, mas tinha ocorrido uma mudança na regra. Em três horas, estava voando para Singapura. No Líbano, depois de uma apreensão recente de drogas trazidas por um brasileiro, fizeram um teste comigo: tive de beber três copos enormes de água. Quem traz cocaína no estômago não consegue ingerir tanto líquido. Tenho paixão pela Ásia. Estive no Sri Lanka, Laos, Nepal, Vietnã. As pessoas por lá são felizes e educadas.

Alegra-me saber que não sou o único desbravador em condições especiais. Certa vez, em Helsinque, fiz amizade com um cego que viajava por toda a Europa na companhia de seu cão-guia. Sempre peço cadeira de rodas nos aeroportos, pois nesse caso a fila para passar pela imigração é preferencial. Não me abalo quando há extravio de bagagem. Isso já aconteceu comigo dezenas de vezes. Posso atestar: uma hora a roupa chega. Minha mulher gosta de viajar para circuitos tradicionais, como Londres e Nova York. Para o Quênia e a Etiópia, ela não se empolga. Compro pouco, mas sempre trago café. Recebo amigos em casa para provarmos os mais diversos tipos. Sabe por que amo café? O que mais me fascina no mundo são as pessoas. E em torno de uma mesa com café nos unimos para conversar e trocar impressões. Minhas muletas e eu temos muito que contar.

Depoimento dado a João Batista Jr.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2019, edição nº 2621

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