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Fome e tortura: outros inimigos dos soldados argentinos nas Malvinas

Por Por Oscar Laski 30 mar 2012, 16h19

“Fiquei preso por oito horas entre dois tanques de combustível enquanto chovia bombas britânicas. Meu maior medo era morrer carbonizado”, contou à AFP Darío Gleriano, o primeiro soldado argentino a denunciar as humilhações de seus chefes na guerra das Malvinas, há 30 anos.

Seu caso integra uma denúncia coletiva com mais de 100 relatos apresentada pelo Prêmio Nobel da Paz (1980) Adolfo Pérez Esquivel à Suprema Corte para que as humilhações impostas durante a guerra de 74 dias sejam declaradas crimes contra a Humanidade.

Em meio a combates, Gleriano, agora com 48 anos, teve os pés e mãos amarrados a estacas cravadas no solo lamacento e frio das ilhas por decisão de seu chefe. Punição por ter procurado comida para seus companheiros, pouco tempo antes da rendição argentina, em 14 de junho de 1982.

“Meu superior, um cabo chamado Pedro Pierri, disse que me prenderia ‘para que eu aprendesse a lição’. Fiquei oito horas na terra gelada até perder a consciência. Meus companheiros me resgataram”, afirmou Gleriano, que tinha apenas 19 anos quando partiu para as ilhas, um mês depois de ter sido convocado pelo serviço militar obrigatório, sem preparação alguma.

Seu chefe não se abalou nem mesmo quando os bombardeiros britânicos começaram sobre as posições de sua bateria de infantaria, perto de Port Stanley, enquanto Gleriano continuava imobilizado e apavorado com a possibilidade de que uma lasca ou uma bomba fizesse explodir os dois tanques de 250 litros de combustível instalados muito perto de seu lugar de punição.

“Meus companheiros me tiraram do poço. Fiquei desacordado por um dia, enfiado em um saco de dormir molhado. Fui levado a um posto de emergência, mas não recebi assistência médica, só tive ajuda humanitária de meus companheiros”, ressaltou o ex-soldado, hoje funcionário do Senado Federal.

Como muitos ex-combatentes, Gleriano acredita que a repressão exercida pelos militares contra os opositores políticos no continente funcionava da mesma maneira do que com os jovens recrutas durante a guerra.

“No continente, faziam você desaparecer. Nas Malvinas te prendiam na terra. A máquina repressora do continente foi a mesma utilizada na guerra contra a Grã Bretanha nas ilhas”, ressaltou o ex-combatente, referindo-se a ditadura que fez cerca de 30 mil desaparecidos, segundo entidades Humanitárias.

Mais suicídios do que mortos em combate

Os castigos físicos e psicológicos, a falta de alimentos e de roupas adequadas para o frio austral, assim como o deficiente armamento e a desorganização, transformaram a tropa em bucha de canhão contra o sofisticado aparato militar britânico.

Morreram 649 argentinos e 255 britânicos durante a guerra, mas cerca de 400 argentinos se suicidaram após o conflito, um número maior do que o de mortos em combate, já que 323 morreram no naufrágio do cruzador General Belgrano, atacado fora da zona de exclusão estabelecida em torno de Londres, no Atlântico Sul. Do lado britânico, os suicídios também superaram as mortes em combate.

“O maior número de suicídios aconteceu nos primeiros anos após a guerra. A Argentina não era um país historicamente ligado a guerras e não tinha preparação para tratar os traumas e tampouco havia interesse”, disse à AFP Mario Volpe, na sede do Centro de Ex-Combatentes das Ilhas Malvinas (Cecim) de La Plata, 62 km ao sul de Buenos Aires.

Volpe, presidente do Cecim, alistou-se e combateu na guerra aos 25 anos. Ele relata que “as sequelas da guerra são permanentes: às vezes acontecem estas mortes que estavam latentes ou mortes que são induzidas, por exemplo, por drogas ou álcool”.

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A fome, a outra inimiga

A falta de comida acrescida ao frio ou a rações mal distribuídas, culpa dos chefes, segundo as denúncias, aumentam a longa lista de desatinos da liderança militar argentina durante a guerra.

Gleriano ficou dois dias e meio sem comer e foi punido por procurar comida. Outro soldado, Enrique Splitek, comeu durante uma semana o equivalente a ração de um dia junto com seus companheiros no Estreito San Carlos, onde estavam encurralados, sem roupa adequada e com armas imprestáveis.

“Saíamos para buscar comida nas barracas vizinhas, mas a escondíamos para que os suboficiais não nos tirassem tudo. Um dia encontramos um depósito com alimentos e cigarros. Um suboficial se deu conta e quis confiscar tudo. Não aguentei e ataquei ele”, contou com raiva à AFP Splitek, de 50 anos.

“Os soldados roubavam para comer; os suboficiais por maldade”, disse o ex-soldado, que ressaltou que a escassa alimentação no conflito faz parte das denúncias por humilhação apresentadas à Suprema Corte.

Oficiais em fuga

As atitudes da maioria dos oficiais marcaram negativamente os soldados, seja por terem sido abandonados em momentos cruciais ou pela falta de interesse de seus superiores com o estado geral da tropa.

“O líder da minha companhia, um primeiro tenente, não verificou nenhuma vez as posições para ver como estavam os soldados. Outros chefes foram cruéis porque desapareceram antes do fim da guerra, foram embora antes de todo mundo”, relatou Volpe.

A incapacidade da maioria dos líderes militares argentinos provocou eventos como a derrubada de um avião da própria Força Aérea do país quando os combates se tornaram mais violentos perto de Port Stanley, capital das Malvinas.

“Eu fazia parte de uma brigada anti-aérea e a ordem era atirar em tudo o que voava naquela zona. Acertamos um avião e comemoramos, fomos informados por rádio que era um avião nosso. Por sorte, o piloto conseguiu ejetar”, contou Gleriano.

Volpe relatou que em 13 de junho, um dia antes da rendição argentina, foram bombardeados pela artilharia britânica a 800 metros de Mount Longdon. Ele foi ferido no ombro e teve um pulmão perfurado pelas bombas que explodiram.

“Eu consegui chegar a uma estrada onde passou um caminhão cheio de feridos. Eu tive sorte porque no hospital encontrei um companheiro da faculdade de medicina e então fui operado muito rápido”, disse Volpe, que apesar de ser um aluno avançado de medicina foi convocado para ser radioperador.

Pensativo, Volpe se emociona quando lembra de seus companheiros mortos em combate, cujas fotos enchem as paredes do Cecim.

“Em minhas memórias aparecem aqueles jovens que vi momentos antes da luta. Vi seus últimos momentos: alguns sorrisos, alguns medos, algumas perguntas, algumas despedidas”, disse sobre os 33 soldados mortos do seu regimento.

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