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Filha de dissidente cubano questiona versão de acidente, mas grupo opositor aprova

Os seguidores e uma filha do dissidente cubano Oswaldo Payá, morto no domingo quando o carro em que viajava bateu em uma árvore, questionaram nesta segunda-feira a versão oficial do acidente, apesar de ela ter sido aprovada por um importante grupo de oposição.

Payá, de 60 anos e Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu em 2002, morreu em uma estrada na província de Granma, no sudeste da ilha, em um acidente de carro no qual outro cubano morreu e um espanhol e um sueco ficaram feridos.

Os feridos, Carromero Anjo Barrios e Jens Aron Modig, deixaram o hospital nesta segunda-feira, segundo fontes diplomáticas, mas ainda não falaram publicamente sobre o incidente. Já o cubano Harold Cepero Escalante, um ativista do Movimento Cristão de Libertação (MCL) de Payá, não resistiu aos ferimentos.

Os quatro viajavam em um carro alugado, aparentemente conduzido por um dos europeus. O veículo saiu da estrada e bateu em uma árvore perto da cidade de Bayamo (744 km a sudeste de Havana), segundo as autoridades.

Rosa Maria Payá afirmou que um outro veículo desviou o carro em que viajava seu pai.

“A informação que recebemos é que tinha um carro que tentava tirá-los da estrada, forçando-os em todos os momentos, por isso pensamos que não foi um acidente”, declarou a filha do opositor, em uma declaração reproduzida pelo jornal El Nuevo Herald de Miami.

No entanto, a versão do governo foi aprovada pela Comissão de Direitos Humanos, uma entidade ilegal, mas tolerada pelo governo comunista, liderada pelo dissidente Elizardo Sanchez.

“Pedimos para dois colaboradores que moram em Bayamo que fossem ao local do acidente. Eles viram a árvore em que o carro bateu e confirmaram que o impacto foi brutal e que não havia outro veículo envolvido”, disse Sanchez à AFP.

“Algumas rádios de Miami (disseram que o carro foi tirado da estrada por outro), mas o nosso trabalho é se ater a verdade dos fatos e os fatos são consistentes com um infeliz acidente”, acrescentou.

Enquanto isso, a organização MCL, fundada por Payá em 1988, pediu uma “investigação transparente” do acidente, que foi divulgado pela imprensa oficial cubana como “lamentável”, sem mencionar a atividade política do dissidente.

Em Havana, o cardeal Jaime Ortega deu suas condolências à família e ofereceu toda a assistência possível da Igreja, disse à AFP seu porta-voz, Orlando Márquez.

A morte de Payá provocou reações nos Estados Unidos e Europa. O presidente americano, Barack Obama, lamentou a morte de Payá, de acordo com a Casa Branca, que destacou sua incansável “luta não-violenta pela liberdade e reforma democrática”.

“Acreditamos que o seu exemplo e liderança moral perdurarão”, disse em um comunicado a presidência americana.

A Europa também manifestou pesar. “Payá dedicou sua vida à causa da democracia e dos direitos Humanos em Cuba”, declarou em Bruxelas um porta-voz da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton.

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, disse que a morte de Payá “é uma notícia triste para todos que acreditam e lutam pela liberdade e democracia no mundo”.

Payá ganhou notoriedade em 2002, quando entregou 11.020 assinaturas ao Parlamento cubano em apoio a uma iniciativa para mudanças políticas, chamada “Projeto Varela”.

Casado e pai de três filhos, nunca foi preso por sua atividade de oposição, apenas passou por detenções breves. Muitos dos 75 dissidentes presos na primavera de 2003 eram seguidores de Payá no MCL.