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Filha de agricultor que morreu em greve de fome contra a expropriação de suas terras pelo governo Chávez continua a luta do pai

Ángela Brito e sua mãe acusam os chavistas pela tragédia que mudou a história da família

Por Mariana Pereira de Almeida, de Caracas - 24 set 2010, 16h23

Quase um mês após a morte de seu pai, Ángela Brito, de 20 anos, consegue falar com desenvoltura sobre a tragédia que mudou definitivamente a história da família. Apesar de todo o sofrimento, a jovem se tornou uma espécie de porta-voz sobre o caso de Franklin Brito: o agricultor venezuelano que faleceu depois de realizar seis greves de fome para reaver suas terras, expropriadas pelo governo de Hugo Chávez.

Foi Ángela que acompanhou o pai durante os nove meses em que ele foi forçado a ficar no hospital militar, em Caracas. Segundo o governo, ele precisava ser “tratado”. Para a família, a intenção era fazer com que Franklin simplesmente sumisse do mapa e parasse de minar os planos chavistas.

Hoje, a jovem e sua mãe passam os seus dias em reuniões com advogados e representantes de entidades internacionais para recuperar os bens de Franklin, que se tornou um símbolo da luta pela própria terra – por mais absurdo que isso pareça – e pelos direitos humanos, em um país em que ambos são constantemente violados.

Com os cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo e uma voz doce, quase infantil, Ángela revelou os detalhes sobre a longa batalha de seu pai contra o governo. Ela culpa Chávez e sua turma pela morte do agricultor, que teria inclusive sofrido tortura enquanto estava no hospital militar.

“Eles mantinham meu pai em um depósito dentro da terapia intensiva, onde entrava gente o tempo todo para pegar remédio. A temperatura também era muito baixa, cerca de oito graus, e havia um motor no quarto ao lado, que fazia a cama vibrar. Com tudo isso, ele ficou três dias sem poder dormir sequer um minuto”, diz. “Ele estava preso, não podia sair de lá, atender o telefone nem ser tratado pelo médico de sua confiança”, explica ela, lembrando que Franklin também não quis ser tratado pelos funcionários do local, pois achava que eles pudessem matá-lo.

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Anos de sofrimento – O impasse com o governo começou quando Ángela tinha 14 anos. Apesar de não entender muito do que estava acontecendo, ela lembra do dia em que os vizinhos invadiram a propriedade de 299 hectares no estado de Bolívar, onde a família cultivava inhame, a dois quilômetros da casa em que morava. Meses depois, soube-se que os invasores tinham um documento do governo, que os permitia ocupar a terra.

O fato ocorreu depois que Franklin sugeriu um projeto para acabar com uma praga em plantações da região. Desenvolvido de maneira natural, o projeto foi escolhido em detrimento de outro que seria realizado por um órgão da administração. A família passou a sofrer retaliações. Marido e mulher perderam seus empregos de professores na cidade e já não podiam mais contar com sua produção agrícola.

Sem condições de sustentar a família, Franklin recorreu ao governo. Entre negociações complicadas, idas e vindas, Chávez prometeu retirar os invasores do local e lhe dar uma indenização pelos danos sofridos (inclusive pela plantação totalmente destruída). Mas, negou-se a reconhecer o erro e, portanto, fornecer notas, certificando como a família havia recebido o dinheiro. Franklin suspeitou das intenções do governo e devolveu a quantia, achando que um dia poderia ser acusado de se tornar cúmplice em um caso de corrupção. Uma série de promessas não cumpridas fez com que ele iniciasse uma greve de fome. Mas nem assim alguém prestou atenção no seu caso. O agricultor, então, amputou o dedinho da mão e costurou seus lábios juntos.

Greves de fome – Com as negociações novamente paradas, Franklin passou a realizar greve de fome em frente ao prédio da Organização dos Estados Americanos (OEA). Este passo fez com que uma delegação da entidade tentasse mediar o caso, chamando mais atenção a ele do que Chávez gostaria. Em dezembro de 2009, o governo mandou a polícia levar Franklin ao hospital militar à força. Foi então que Ángela e os dois irmão gêmeos – hoje com 14 anos – se mudaram para Caracas. Enquanto ela ficou com o pai no hospital, os outros receberam asilo, junto com sua mãe, em um convento da cidade. Hoje, os quatro moram no mesmo convento. A irmã mais velha casou-se e vive em Bolívar.

A crise separou a família por diversas ocasiões e interrompeu os estudos dos filhos. Mas, apesar de todo o sofrimento, Ángela acredita que o sacrifício de seu pai não será em vão. “Acho que muita gente não entendeu, mas o protesto do meu pai não era só contra a expropriação das nossas terras, mas também pelos direitos humanos. Ele não queria que nenhuma outra família venezuelana tivesse estes direitos violados”, conta.”Ele também me dizia para, apesar de tudo, não ficar com raiva do governo, então não lutarei por nenhum tipo de vingança”, suspira.

Franklin Brito, que tinha 1,90m de altura, morreu em 30 de agosto, seis dias antes de completar 50 anos, com 33 quilos.

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